Nas periferias, jornalismo precisará rever estratégias para acolher seu público

Além da luta constante pela sobrevivência e estabilidade financeira, veículos da periferia vão precisar atender aos anseios das camadas populares que elegeram Jair Bolsonaro

As periferias reúnem uma significativa parte da população brasileira e historicamente influenciam comportamentos e movimentos culturais, que acabam sendo apropriados e difundidos pela classe dominante. Isso não as impede de serem vistas de maneira estereotipada por narrativas jornalísticas limitadas, negativas e superficiais, voltadas para a violência e degradação do lugar enquanto território. Ao mesmo tempo, como diria o poeta Sérgio Vaz, “as periferias nunca dormem”, e há algum tempo é crescente o movimento de valorização das periferias, de sua cultura e de seus moradores, a partir da emergência de coletivos, preocupados sobretudo com questões relacionadas à diversidade cultural, social, racial e de gênero, entre outras. O jornalismo também é parte fundamental desse processo.

Durante a última campanha eleitoral, alguns veículos de comunicação periféricos deixaram claro em seus editoriais a preferência e apoio ao candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad, que trazia em sua campanha um apelo popular e de continuidade das políticas públicas instauradas até então. Até o início da campanha, o candidato da direita não parecia tão próximo ao cargo. Mas não foi o que ocorreu. Jair Bolsonaro venceu, inclusive com o apoio das camadas populares, e o grande desafio dos jornalistas das periferias em 2019 será rever estratégias para atender aos anseios dos moradores que o elegeram.

Em 2017, a pesquisa Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo, da Fundação Perseu Abramo, apontou que houve, nas periferias, um avanço do consumo, do neopentecostalismo e do empreendedorismo. Além disso, a pesquisa demonstrou uma intensa presença do individualismo, da competitividade e da eficiência, valores liberais do “faça você mesmo”, marcados por novas e diferentes formas de precarização.

Tais valores não são novidades, porque sempre estiveram presentes nas regiões periféricas e que, a meu ver, são formas de resistência para aqueles que se sentem abandonados por órgãos públicos e seus dirigentes. Como fazer se não há emprego? Se “virar”, montar um negócio. Para essas pessoas, a falta de apoio das estruturas do governo, faz com que o empreendedorismo, assim como a busca pelo acolhimento na religião e no consumo sempre estivessem presentes em suas vidas.

Em 2019 os veículos de comunicação periféricos deverão adaptar-se a essa realidade, garantindo a sua estabilidade, sobrevivência financeira e liberdade de expressão. Muitos desses grupos recorreram, até agora, a editais públicos e/ou de entidades como a Fundação Tide Setúbal, Fundação Ford e a Open Society Foundation, que, nos últimos anos, têm apoiado iniciativas de jornalismo alternativo no país. Para os próximos anos, o novo governo já sinalizou que não tem como prioridade o apoio à mídia — muito menos a alternativa — , o que nos leva a projetar um 2019 sem a ajuda dos editais, mas ainda com o apoio de entidades nacionais e internacionais. Estes grupos devem, também, apostar na sustentação financeira vinda de leitores e apoiadores. Há algum tempo veículos alternativos de comunicação buscam apoio no crowdfunding, inclusive os da periferia. Com o propósito de criar um hábito de consumo de notícias entre os brasileiros, essa prática deve persistir nos próximos anos.

Vale lembrar que, diante do monopólio que caracteriza a mídia brasileira, existe um silenciamento em relação a temáticas que não estão no foco de interesse dos grandes grupos de comunicação. Embora estejamos vivenciando um cenário de mudanças, quando se fala em moradores da periferia, negros, mulheres e LGBTs, as pautas dos veículos de comunicação hegemônicos continuam sendo aquelas relacionadas à violência e/ou ao preconceito a partir de crimes de violência, racismo e homofobia, e de datas comemorativas, como o dia da mulher, da libertação dos escravos, do orgulho gay ou da consciência negra, entre outros. A imprensa tradicional está, há algum tempo, cedendo espaços (colunas, blogs, etc.) em seus portais para representantes desses grupos minoritários, que são uma espécie de “voz” das comunidades periféricas. Em 2019, a tendência é que esse espaço seja ainda mais reivindicado e dividido com representantes da extrema direita e contrários aos ideais desses grupos, suscitando debates e espaços democráticos de discussão.

As pautas da grande mídia não retratam a pluralidade da população brasileira, e tal fato acontece, entre outros fatores, porque não há diversidade nas nossas redações, formadas historicamente por pessoas brancas e de classe média. E também porque não havia, até bem pouco tempo, alunos negros, periféricos e LGBTs nas salas de aula das universidades brasileiras. É um ciclo, que começou a mudar há pouco mais de dez anos, com a implantação das ações afirmativas, como as políticas de cotas, no Brasil. Nesse período, aproximadamente 900 mil jovens negros e/ou moradores da periferia ingressaram nas universidades. Infelizmente, esses alunos beneficiados e formados pelo sistema de cotas não tiveram tempo de chegar à pós-graduação. O ideal seria que esses jovens se tornassem formadores a partir das universidades, ampliando assim o ciclo de formação e ingresso no mercado de trabalho para todos e todas.

Esse acesso também não se refletiu nas redações, formadas por menos de 10% de negros, poucos em cargo de chefia, como apontam duas pesquisas; uma realizada pelo Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da ECA/USP, que mostrou o perfil dos jornalistas de São Paulo, e outra feita na Universidade Federal de Santa Catarina em convênio com a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), que traçou o perfil dos jornalistas brasileiros. E, embora uma pesquisa tenha sido feita entre jornalistas de São Paulo, e outra com jornalistas de todo o Brasil, os resultados são convergentes, principalmente em relação a questões de etnia e de gênero, apresentados no início do texto. Uma terceira pesquisa, feita pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA, do IESP-UERJ), apresentou o perfil de gênero e cor/raça dos colunistas dos principais jornais impressos do país — O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão — e os dados mostraram que, nos três veículos, pouco mais de 70% das redações são formadas por homens; além disso, há menos de 1% de negros nessas redações. No Estadão, 99% da redação é formada por brancos. Em relação às mulheres negras, a pesquisa apontou que a Folha de S.Paulo não possuía nenhuma colunista negra, enquanto essa categoria representa 4% no Globo e 1% no Estadão.

As políticas públicas e sociais implantadas durante os três governos do Partido dos Trabalhadores, principalmente entre 2003 e 2014, trouxeram toda uma transformação cultural, social e estética para as periferias brasileiras, que viram emergir grupos e movimentos voltados para as mais diversas reivindicações. Cansados de ver suas comunidades retratadas pela mídia tradicional de forma parcial e muitas vezes preconceituosa, jovens jornalistas têm aproveitado as potencialidades das tecnologias e mídias digitais — embora ainda haja muita desigualdade digital no país — para produzir eles mesmos o jornalismo que representa sua vida cotidiana. São veículos alternativos e/ou independentes, que tentam conquistar o seu espaço e aumentar a pluralidade de vozes nos meios de comunicação. Uma verdadeira apropriação da voz periférica. Muitas dessas iniciativas vieram de Trabalhos de Conclusão de Curso, uma vez que esses jovens chegaram às universidades (principalmente privadas), mas não tiveram acesso às redações da grande mídia.

A falta de estrutura física, o financiamento e a subsistência são os principais fatores limitadores dessas mídias periféricas, que não conseguem alcançar um modelo de negócio que possa abranger sua produção e sustentar os profissionais envolvidos. Quem já tiver o seu veículo consolidado sobreviverá a 2019, mas o cenário não é muito propício ao surgimento de novos arranjos.

Em 2018, as narrativas jornalísticas da periferia foram pautadas pelo ano eleitoral. Segundo reportagem publicada na Agência Mural das Periferias, nesta eleição, os candidatos presidenciáveis demonstraram um discreto interesse pelas periferias, em comparação com a eleição de 2014. Mas ainda é pouco, porque as preocupações dos moradores com o desemprego, violência e desrespeito às minorias continuam. Além disso, a polarização que dividiu o país entre direita e esquerda é fator de preocupação, pois o descontentamento, as dúvidas e a contradição também se refletem nas comunidades periféricas, situação que deverá permanecer, ao menos no início do novo mandato. Em 2019, caberá a esses veículos, dentro dos padrões éticos do jornalismo, tentar manter a neutralidade, trazer a verdade e cobrar as autoridades a favor dos moradores das periferias. E resistir, porque resistência é uma palavra que sempre esteve presente nas periferias brasileiras.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2019. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.