Desintermediação desafiará jornalismo político na defesa do interesse público

Ascensão de ecossistema político-comunicacional representado pelo WhatsApp exigirá um jornalismo cuja agenda se reconcilie com os ideais de transparência, emancipação e modernidade

Não é de agora que a crise na qual está mergulhado o jornalismo mostra as pontas de um sólido iceberg que faz naufragar uma cena comunicativa que tinha na informação seu principal insumo. Jornalistas deixaram de ser os mediadores exclusivos na produção e difusão de informações face aos novos arranjos que modificaram as formas de acesso ao movimento do mundo. Em 2018, esse novo ecossistema midiático colocou em xeque o modo como o jornalismo tradicionalmente cobre política. Em 2019, o jornalismo vai precisar passar rapidamente do diagnóstico para uma nova forma de ação.

Os sintomas de uma crise profunda
Tornaram-se moeda corrente manifestações cada vez mais preocupadas com o presente e o futuro da atividade jornalística — uma das principais responsáveis por desenhar os contornos das sociedades modernas ocidentais. Antes restritas a círculos acadêmicos, tais manifestações brotam de diversos lugares: pesquisador@s, intelectuais, jornalistas, empresári@s da comunicação e publishers percorrem uma mesma trajetória de reflexão, ainda que partindo de lugares e pontos de vista diferentes. Tod@s tentam equacionar as principais questões que surgem nesse momento de sucessivas transformações nos modos de produção noticiosa.

Segundo Juan Luis Cebrián, fundador e primeiro diretor do El País, o que está em jogo é o próprio modo de fazer jornalismo: “a internet é um fenômeno de desintermediação. E que futuro aguarda os meios de comunicação, assim como os partidos políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado?

Lembremos: as queixas já foram destinadas à perda de prestígio de instituições, como a Igreja e a escola, frente à assunção dos meios de comunicação, suas modalidades e produtos na era da radiodifusão. E são essas modalidades que parecem sofrer um duro revés com o inexorável aperfeiçoamento tecnológico.

Progressivamente, os alarmes ressoam cada vez mais altissonantes, deixando a sensação de que beira-se o precipício. As eleições brasileiras de 2018 nos deram uma grande e preocupante lição: ao contrário do que se propagou entusiasticamente com a ascensão da Internet, não foi a informação que se converteu em moeda de circulação nos espaços digitais. Pelo contrário, foram a opinião e a crença que se impuseram como uma das principais commodities, se não a principal, com franca circulação nas mídias digitais e redes sociais. As fake news são um testemunho inequívoco desta realidade espantosa.

No Brasil, desde as eleições de 1989, um marco no processo de redemocratização, a televisão conquistou um papel importante para a discussão política. O proverbial debate entre Lula e Collor na Rede Globo consagrou um modelo que se tornou central ao longo das últimas campanhas. Desde então, o tempo de TV passou a ser um bem precioso a ser disputado com unhas e dentes pelos partidos, que passaram a construir amplas coligações para amealhar significativo quinhão do espaço televisivo.

A movimentação em 2018 seguiu o mesmo roteiro, com o PSDB de Geraldo Alckmin açambarcando várias agremiações, o que deu ao partido um robusto espaço na tradicional telinha. Mas eis que a televisão pouco ou nada influiu nestas eleições. A cena se desdobrou em outros territórios. O grande protagonista foi o WhatsApp, que deslocou as atenções antes reservadas à TV, pondo em evidência o fracasso do establishment (lideranças políticas, imprensa, partidos mainstream, institutos de pesquisa e universitários) para se tornar um agente importante na mediação social.

Embora se saiba que os debates políticos e a cobertura jornalística nesse expediente nem sempre obedeceram aos princípios da verdade e compromisso com o eleitor/leitor, a comunicação via deep web estimulou até o limite a propagação de conteúdos mentirosos que encontraram eco num ambiente intoxicado por crenças e opiniões.

Neste contexto, o presidente eleito Jair Bolsonaro, do PSL, destacou-se fazendo uso de um arsenal de informações inverídicas, capaz de tornar o debate público permanentemente abrasivo. Kit gay, “coitadismo” de negros e mulheres, defesa dos cidadãos de bem, combate à teoria de gênero foram alguns dos temas que dominaram a cena pública, colocando em plano secundário questões estruturais que levaram o país a uma de suas piores crises. O interesse do público, como se viu, triunfou, em detrimento do interesse público.

Ubíquas e pervasivas, as fake news imiscuem-se em quase tudo. Ao que parece, está tudo dominado. Segundo a Universidade de Oxford, a quantidade de fake news e material de ódio relativos a temas políticos também aumentou vertiginosamente nos EUA neste ano de 2018, em virtude das eleições para a Câmara e o Senado. São praticamente inexistentes, de tão ínfimos, os mecanismos capazes de coibir a proliferação dessa forma comunicativa.

Lógica (in)comunicativa que desafia o jornalismo: o que esperar em 2019? 
Do ponto de vista técnico, a propagação de junk news encontra sólida sustentação na chamada deep web — terra sem lei que favorece a disseminação desse tipo de material, com o WhatsApp à frente. Vale lembrar que o WhatsApp se instituiu como rede digital e não como rede social, o que lhe confere diferenças e singularidades capazes de dotá-lo de força extraordinária para ser um meio que propaga todo o tipo de coisa de baixo para cima.

Com atuação hiperativa de grupos anônimos, fora do radar dos algoritmos, responsáveis por controlar o alcance e distribuição das mensagens, o “zap” não conhece jurisprudência: distorcer, inventar, mentir e forjar dados e informações é prática recorrente. Ao contrário das redes sociais, onde as pessoas podem ser chamadas a responder pelo que noticiam, no WhatsApp, cujo estatuto é privado, a retratação torna-se praticamente impossível.

O que esses desvios representam para a democracia? Qual o novo modelo de comunicação em curso? Como cultivar, em 2019, um ideal de jornalismo em consórcio com o interesse público e não com o interesse do público?

Da fase da radiodifusão, passamos para a era da conexão e da circulação, onde somos, ao mesmo tempo, produtores e consumidores de informação, daí o neologismo prossumer. Esse novo paradigma vem desafiando alguns postulados da chamada era moderna, que se equilibrava sobre os princípios da formação de uma esfera pública qualificada.

As fake news nos informam que este princípio ruiu e, na falta do que colocar no lugar, aprofundam-se mecanismos comezinhos que sacrificam o projeto de emancipação humana. Junto com esse projeto, naufragam igualmente o papel de mediador do jornalismo, filho legítimo dos ideais de transparência da era moderna, e o nosso papel de sujeitos na percepção e construção de um mundo que exige de nós muito mais que simplismos e reduções.

Essa situação, no mínimo incômoda, nos leva a pensar que o aperfeiçoamento tecnológico não é apenas resultado inevitável do progresso, mas um sintoma de que caminhamos para um estágio terrível de negação da realidade. Com o crivo das nossas crenças e opiniões, devemos validar a concepção de que temos previamente do mundo e da vida. As notícias falsas de ontem e de hoje são um atalho pernicioso que faz da vida um caminho com opções miseravelmente simples.

Se, por um lado, não podemos, nem devemos, atribuir ao jornalismo o papel de salvador da pátria, é preciso, por outro, que o futuro da cobertura política seja pensado a partir dos princípios fundantes da atividade noticiosa. Filho legítimo de duas revoluções, a Francesa e a Industrial, o jornalismo se consolidou como uma prática ligada aos ideais de emancipação, transparência e modernidade.

Tornou-se imperativo ético e urgência política que o jornalismo saia da armadilha de ser um mero reflexo das guerras culturais que brotam no subterrâneo da internet e procure pautar uma agenda que se reconcilie com os pilares dos ideais modernos, berço de seu nascimento, sem os quais ele certamente ruirá.

Desconfio que 2019 exigirá muito mais do que a instituição da seção Fato ou Fake, onde os jornais fizeram um importante papel, em 2018, de separar o joio do trigo, assinalando o que era verdade ou mentira no painel informativo que se desenhava diária e freneticamente à nossa frente.

Mesmo combalido, o jornalismo mantém idealmente sua identidade. É ela que articula a ordem ético-discursiva da profissão, conferindo-lhe legitimidade para construir seu relato com base no relato alheio. Segundo a professora Mayra Gomes: “o jornalismo tem, entre outras, uma origem panfletária que conclama à ação política, que congrega em torno de ideais e mobiliza em direção a lutas. Se ele conserva esta veia, ainda que muitas vezes só insinuada pela posição ideológica das empresas jornalísticas, ela se revela no que aparece como evidente marca das últimas décadas: a visada da crítica, da denúncia, da vigilância, do apelo à justiça que lhe é vital”.

Em tempos de crise das democracias em escala global, de vitupérios contra a imprensa pelos governantes de plantão, acredito que a cobertura política poderá abrir novas sendas rumo à reconstrução de uma opinião pública qualificada que adota a informação como nexo prioritário para as trocas comunicativas. Sem ela, sem a informação, caímos num obscurantismo em que a desinformação, a mentira, reafirmam interesses privados em nada compatíveis com a esfera pública, responsável pelo governo e destino de coletividades.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2019. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.