Carente de inovações, jornalismo local precisa se modernizar para sobreviver

Vivendo à sombra das mudanças recentes observadas nos grandes centros, ecossistema jornalístico que alicerça a democracia no interior do Brasil vive sob a ameaça de retração

Em 2019, o jornalismo local no Brasil precisará se modernizar para sobreviver. Esse processo implicará tomar decisões que já vêm sendo implementadas por veículos jornalísticos das grandes cidades. Principalmente a diversificação do modelo de negócios, a readequação da estrutura de custos e a atualização de métodos de produção de conteúdo.

“Atualização” ainda não é uma palavra que encontra ressonância no trabalho de muitos produtores de conteúdo local em diversas regiões do país, especialmente fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília. No Brasil, cerca de 60% dos veículos de comunicação são rádios, jornais impressos ou revistas. Os veículos online, que geralmente estimulam mais inovação, constituem apenas 18% do total, segundo o mais recente levantamento do Atlas da Notícia.

Em contraste, nas cidades que despontam na dianteira da inovação jornalística no Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro, a transição das mídias mais tradicionais para a internet é patente: cerca de dois terços dos veículos já são online.

Um dos motivos para a resistência à mudança do jornalismo local fora dos grandes centros pode ser a dificuldade de implementação de novas formas de financiamento e a dependência do velho modelo econômico de publicidade. Enquanto o dinheiro entra (mesmo que menos), a máquina se move (mesmo que capenga). Assim, as operações seguem funcionando, mas sem fôlego para inovar.

A estrutura de custos tem sido readequada, mas por estresse econômico, e não por reavaliação estratégica. E os métodos de produção permanecem quase imutáveis: há pouca inovação na reportagem, pouco investimento em educação profissional e baixa adesão a serviços baseados em novos formatos (um exemplo disso pode ser o podcast ou a newsletter).

Sem um processo de modernização, a produção de conteúdo jornalístico no nível municipal pode entrar em retração.

Há evidências que apontam para esse cenário: 30% dos municípios brasileiros possuem apenas um ou dois veículos jornalísticos, de acordo com os dados recentes do Atlas da Notícia. Isso significa que essas localidades, e seus 34 milhões de habitantes, correm risco iminente de se tornarem “desertos de notícias”. Somando-se a outros 30 milhões de brasileiros que já vivem nesses desertos, mais de 30% da população não teria acesso ao noticiário local caso seus únicos veículos fechem as portas.

Ecossistema jornalístico

Para fazer essa projeção em relação à cobertura jornalística local — de saúde e educação pública, de meio ambiente e de mobilidade, por exemplo — é preciso entender o que vem acontecendo no ecossistema jornalístico brasileiro recentemente.

Ao longo dos últimos cinco anos, o jornalismo nacional vivenciou o surgimento de novas iniciativas. Também notou-se a difusão de novos formatos digitais e a migração de parte do conteúdo e da circulação para as redes sociais. Ao mesmo tempo, estruturas herdadas do meio impresso — como os banners publicitários e a herança corporativa das empresas de mídia tradicionais — se tornaram cada vez mais defasadas e onerosas, embora ainda carreguem capital jornalístico em função do seu legado.

Essa dicotomia entre o novo e o velho trouxe entusiasmo frente às novas possibilidades, mas também preocupação e ansiedade, além de certo pessimismo sobre o futuro por parte de muitos jornalistas. Desde 2012, mais de 2.300 jornalistas foram demitidos de redações brasileiras, geralmente para cortar custos. Além da questão trabalhista, o acirramento da tensão política no país tem originado episódios de hostilidade contra a imprensa por parcelas pequenas, mas muito barulhentas, da população, geralmente inflamadas por políticos de pólos antagônicos do espectro político.

Sabemos exatamente o impacto que a erosão das estruturas do jornalismo tradicional tiveram no jornalismo local: fechamento de jornais ou o impedimento econômico para o surgimento de novos veículos. Consequentemente, o surgimento de desertos de notícias.

Ao menos 80 periódicos importantes para as suas respectivas cidades fecharam as portas desde 2011, provavelmente sem a ascensão de novos no lugar. Entre eles estão jornais como A Cidade, de Ribeirão Preto (SP), Jornal de Domingo, de Governador Valadares (MG), e Diário de Borborema, de Campina Grande (PB).

Em contrapartida, veículos como a Gazeta de Maceió e a Gazeta do Povo, de Curitiba, encerraram edições impressas, mudando a dinâmica do impresso para a internet. Embora infelizmente demissões tenham acontecido no processo, a movimentação mudou substancialmente a orientação dessas redações em direção a estratégias concentradas principalmente no digital.

Novo digital vs velho impresso

A situação do jornalismo local contrasta quando colocada ao lado de uma nova safra de iniciativas surgidas em meio à crise dos modelos de negócio tradicionais do setor. Publicado em 2017, um abrangente estudo da Sembra Media indicou a existência de 25 startups jornalísticas brasileiras. A Agência Pública mapeou cerca de 80 novos veículos independentes em atividade nos últimos anos. A grande maioria atua em áreas específicas, como curadoria de notícias e jornalismo de dados, ou segmentam seu conteúdo em temas como cobertura jurídica, feminismo e direitos humanos. Aparentemente, poucos contemplam a experiência da cobertura local, salvo algumas exceções, e ainda não está claro o impacto desse movimento de novas iniciativas no noticiário municipal.

Seja esse impacto qual for, jornais impressos, rádio e televisão ainda possuem um papel muito significativo na vida das pessoas. As mesmas estruturas de imprensa que se mostram defasadas em relação à realidade digital surgidas nos grandes centros alicerçam, por ora, a democracia no interior dos Estados. Por isso, em 2019, precisaremos perguntar: se os pilares do modelo de subsistência do jornalismo estão em risco até mesmo onde há mais inovação e empreendedorismo, como conseguiremos mantê-los de pé em uma realidade ainda dependente dos velhos modelos? Como o jornalismo local pode aprender com a experiência digital?

Há de se destacar algumas iniciativas. Embora o noticiário de repercussão nacional permaneça concentrado majoritariamente no eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília, com alguma extensão para outras capitais, veículos de outras regiões têm buscado pautar-se pela inovação ao cobrir realidades municipais e regionais.

Em maio, por exemplo, os jornais O Povo, de Fortaleza, Jornal do Commercio, de Recife, e Correio, da Bahia, lançaram uma rede de notícias do Nordeste, que envolve a troca livre de conteúdo, fortalecendo o jornalismo na região. Já em setembro, a Rede Gazeta, de Vitória, lançou uma unidade dedicada à prática de jornalismo orientado por dados, seguindo movimentos das maiores redações brasileiras.

Para que mais iniciativas como essas aconteçam, é necessário compreendermos a fundo o que mantém os velhos padrões na dianteira e o que permite a existência dos desertos de notícia.

Seria um problema demográfico — afinal, a média populacional desses municípios é de apenas 11 mil habitantes — e econômico? Seria uma questão de educação? Ou até mesmo de falta de segurança para jornalistas exercerem a profissão? Talvez uma consequência da conectividade, do ainda limitado acesso à internet? Ainda precisamos nos aprofundar nos estudos para responder essas questões.

2019 será um ano possivelmente com uma nova relação entre a sociedade e o jornalismo. Mesmo com certos atritos, causados pelo aumento da polarização política e pela difusão de desinformação em redes sociais e aplicativos de mensagem, para a democracia persistir, essa relação deve ser boa. O jornalismo local precisa ser mais confiável e presente na vida das pessoas, e, para isso, precisa não apenas existir, mas também aprimorar seus padrões editoriais, de negócios, de tecnologia e de governança.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2019. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.