Compreender nova era inaugurada pelo governo Bolsonaro será fundamental para cobertura política

Guilherme Amado
Dec 19, 2019 · 7 min read

Profissionais devem esperar aprofundamento da truculência de um novo eixo de poder que ascendeu em 2019, exigindo vigilância ativa da democracia

O 1º de janeiro de 2019, com a Esplanada dos Ministérios inundada de bandeiras verde-amarelas e uma euforia conservadora inédita no atual período democrático, foi impactante para quem cobre o poder em Brasília. O esquema desenhado pelo Palácio do Planalto para a posse de Jair Bolsonaro impedia repórteres de ir ao banheiro ou beber água durante horas, limitava a movimentação entre as diferentes áreas do evento e, mais do que isso, era o prenúncio de uma relação tensa que se estenderia ao longo do ano. A cobertura da “nova era” da política tem sido tensa, mas também um aprendizado cotidiano de resiliência e capacidade de adaptação por parte dos repórteres.

O eixo do poder mudou, obrigando até mesmo os veteranos a recomeçar quase do zero suas agendas de fontes. A truculência de parte dos novos integrantes do governo, crescente ao longo do ano, exigiu paciência e sangue-frio. E o estado de alerta do jornalista como vigilante da democracia mais do que nunca teve que estar ativo, por razões bem mais graves do que a falta de banheiro e água na posse. Em 2020, um ano eleitoral, essas três tendências devem se aprofundar, o que exigirá do jornalista que cobre o poder preparo para analisar e explicar as mudanças em curso na política brasileira, e aprendizado para lidar — e frear — os ataques contra o trabalho jornalístico.

Já na campanha presidencial estava claro que os personagens do entorno de Jair Bolsonaro, que subiriam a rampa do Planalto com ele, eram em grande parte pessoas que não pertenciam às rodas pelas quais os jornalistas que cobrem política no Brasil estavam habituados a circular. Pouquíssimos repórteres tinham interlocução com o meio militar antes da eleição de Bolsonaro, e, mesmo dentre esses, era difícil encontrar quem fosse capaz de ter fontes tanto entre os da ativa quanto os da reserva, das três Forças Armadas e de patentes diferentes. Tudo isso se tornou imperativo para cobrir com propriedade o atual governo. Mas não só.

A diversidade da direita era desconhecida do jornalismo brasileiro. Sabia-se, claro, que havia extremistas, mas eram pouco conhecidos. Facções diferentes entre si eram até então colocadas no mesmo balaio, a exemplo da própria família Bolsonaro, de Kim Kataguiri e seus asseclas do Movimento Brasil Livre e dos ativistas que se tornaram políticos, como Carla Zambelli, Joice Hasselmann e Alexandre Frota. Enquanto isso, poucos políticos tradicionais, de todos os espectros, continuaram a ter relevância como fontes. A maioria desapareceu, seja porque não tinha acesso a informações como no passado, seja porque simplesmente não foi reeleita e sumiu do mapa do poder, dando lugar a figuras como Olavo de Carvalho e seus discípulos. A propósito, o olavismo era um buraco negro para os jornalistas. Não à toa: era impensável antes de 2018 que haveria um presidente da República influenciado por um polemista profissional como Olavo, que diz duvidar até da esfericidade da Terra.

Todo esse universo ainda terá que ser desvendado em 2020, com o lado positivo de o tempo estar decantando algumas tendências. Felizmente, o terraplanismo, por exemplo, ficou no caricatural e está claro que não tem maior importância. O segundo ano do governo Bolsonaro permitirá que fique mais claro o que de fato são marcas deste governo e do espectro conservador em torno dele. É fundamental que o jornalista que cobre política leia o que cientistas políticos estão escrevendo sobre a ascensão da direita populista em todo o mundo: Steven Levitsky, Francis Fukuyama, Yascha Mounk, Timothy Snyder. Mais e mais a comparação e a contextualização com a onda de direita global será necessária.

Uma das maiores dificuldades é que uma parte expressiva desse contingente tem interesse em deslegitimar o jornalismo profissional. Os ataques à mídia independente não se restringiram aos veículos — quase todos os grandes foram em algum momento alvos, tanto do presidente quanto de seus representantes na Esplanada dos Ministérios e no Congresso — , chegando até os repórteres na pessoa física.

Dois episódios em especial foram marcantes: a criação de uma narrativa falsa contra a repórter Constança Rezende, atualmente no UOL, mas na ocasião no Estado de S. Paulo, e ataques sistemáticos a Miriam Leitão, do Grupo Globo. Contra Constança, foi adulterada a tradução de uma entrevista que ela dera a um falso pesquisador da Universidade do Texas, para fazer parecer que ela estava empenhada em “destruir” o governo Bolsonaro. O próprio Bolsonaro compartilhou o tuíte atacando Constança e, mesmo diante do desmentido, nunca se corrigiu ou pediu desculpas. Contra Miriam, Bolsonaro afirmou que a jornalista integrou a luta armada contra a ditadura militar instalada no país em 1964 e dirigia-se à guerrilha do Araguaia quando foi presa, na década de 1970 — o que é mentira. Disse ainda que a jornalista mente ao afirmar que sofreu abusos e foi torturada na prisão. Nunca houve retratação.

Os dois casos não foram os únicos. O próprio presidente, dois de seus filhos e os ministros mais extremados de seu governo passaram a fazer bullying com jornalistas no dia a dia do trabalho, incitando internautas a ataques cada vez mais violentos em redes sociais. Os setoristas do Palácio do Planalto foram os que mais sofreram, tendo que aceitar patadas de Bolsonaro sem o direito de rebater, seja por educação, seja pela certeza de que, caso o fizessem, estariam dando a Bolsonaro mais munição para seu discurso de que jornalistas são opositores de seu governo.

Também houve arapucas criadas para a imprensa. Uma jornalista noticiou a iminente demissão de um ministro e, para desacreditá-la, o governo adiou a decisão. Eu cheguei a noticiar o cancelamento de um café da manhã com jornalistas, porque minha fonte telefonou na minha frente para o gabinete presidencial e, no viva voz, ouvimos de seu interlocutor que o evento estava cancelado. Duas horas depois de eu dar a notícia, reativaram o café. Recentemente, no Dia da Proclamação da República, o ministro da Educação convocou uma entrevista coletiva e propositalmente sua assessoria de imprensa só avisou a TV Globo depois dos demais. O objetivo era permitir a Abraham Weintraub fazer um vídeo com seu celular mostrando o atraso da equipe da Globo — que, mesmo avisada em cima da hora, chegou antes do começo da coletiva.

Em 2020, os ataques ao jornalismo profissional tendem a aumentar, principalmente pelo cenário eleitoral e o interesse de todos que forem alvo de abordagens críticas. É possível que no próximo ano haja um novo ataque em massa aos institutos de checagem, como ocorreu no começo de 2018 com as agências de fact-checking, com a diferença de que essa e quaisquer outras investidas contra o jornalismo poderão ter integrantes do Planalto como aliados. A postura colaborativa dos jornalistas entre si será fundamental para fazer frente a isso, seja em torno de associações, seja entre os colegas. Reportar ataques ou armadilhas criadas para os jornalistas, algo ainda pouco feito, é uma forma de dar visibilidade ao que ocorre no dia a dia da cobertura e que aponta para uma atmosfera crescente de desrespeito à liberdade de imprensa.

2019 também obrigou a atual geração de jornalistas de Brasília, quase todos tendo entrado no mercado já na redemocratização, a aprender a cobrir episódios de ameaças à democracia. O mais grave deles talvez tenha sido quando um dos filhos do presidente e dois ministros, o da Economia e o de Segurança Institucional, flertaram com a possibilidade de um novo Ato Institucional número 5, o golpe dentro do golpe de 1964, e que inaugurou o período mais terrível da ditadura.

No dia a dia do governo, houve momentos em que Bolsonaro e seus ministros atacaram vítimas da ditadura, indígenas, integrantes da sociedade civil e quaisquer outros setores que por alguma razão fossem contra ou representassem um empecilho a algum de seus projetos e convicções. Reportar esses episódios de maneira técnica, sem deixar de apontar o que de fato representavam, será imperativo em 2020.

Caberá aos jornalistas que cobrem poder estar atentos no próximo ano à relação do governo com o Legislativo, o Judiciário, a sociedade civil, o Ministério Público e todas as outras instituições contra as quais alguma dessas ameaças autoritárias possa se concretizar. E a interlocução permanente com essas instituições será importante para que os jornalistas preservem sua liberdade profissional e possam frear uma eventual escalada de ameaças.

O ano 1 de Bolsonaro e dos que com ele chegaram ao poder trouxe desafios inéditos para a imprensa. Fingir que tudo era como antes seria negar fatos concretos que viraram de cabeça para baixo a cobertura do poder. Não é mais como era. E só os próximos anos e o comportamento dos agora nem tão novos personagens vão mostrar se tudo não passava de uma onda, ou se a nova era veio de fato para ficar.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2020. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.

O jornalismo no Brasil em 2020

A convite do Farol Jornalismo e da Abraji, jornalistas e pesquisadores brasileiros projetam a profissão para o novo ano.

Guilherme Amado

Written by

Investigative columnist for Epoca Magazine, in Brazil. 2017-18 JSK Fellow at Stanford, ICIJ member and interested in innovation and collaboration in journalism.

O jornalismo no Brasil em 2020

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