O jornalismo local de 2020 vai ser construído com as pessoas, ou não será

Nina Weingrill
Dec 19, 2019 · 8 min read

Em ano de eleições, uma cultura emergente de circulação de informação deve tensionar o próprio entendimento sobre o que é jornalismo

Quem passa diariamente por situações de violência — ou na iminência delas — entende muito bem a importância e o valor da informação. Se você já teve de voltar do trabalho para casa a pé devido a um toque de recolher que tirou os ônibus de circulação, sabe do que estou falando. Se já deixou de abrir a porta do seu comércio e perdeu o faturamento de um dia todo com medo de levar tiro, sabe do que estou falando. Se seus filhos faltaram na escola por causa de operação policial surpresa, sabe do que estou falando.

2020 será o ano de eleições municipais, quando soluções mágicas para problemas como os descritos acima aparecem na boca de políticos novos e também de antigos. Na sola dessas narrativas e com a missão de apresentar dados que possam dar ao eleitor mais informação para decidir, surgem iniciativas para suprir as necessidades básicas de notícias de comunidades hoje desassistidas pelo jornalismo tradicional.

Francisco Duarte, 36 anos, morador de Japeri, na região metropolitana do Rio de Janeiro, é uma dessas pessoas e sabe do que estou falando. Há dois anos ele organizou grupos de WhatsApp entre moradores da cidade para verificar se cada “toque de recolher” viralizado era ou não verdadeiro. Informação checada, criou grupos de transmissão para repassar a mensagem.

Meses depois a iniciativa ganhou corpo e um canal no Facebook. O Japeri News é hoje gerenciado por Francisco e outras duas pessoas, tem 51 mil seguidores e cobre desde a agenda cultural da cidade a denúncias de corrupção na prefeitura. O número de seguidores é equivalente à metade da população da cidade (103 mil habitantes).

Japeri, a 80 km da capital fluminense, teve seu último prefeito preso — e recentemente solto — por associação ao tráfico de drogas, possui o pior IDH da região metropolitana e um dos piores índices de homicídios dolosos (58 a cada 100 mil habitantes). Mas é também um pólo da Petrobras, tem pontos turísticos belíssimos e até um campo de golfe público.

Com tudo isso à mesa, a região é um quase deserto de notícias — que, segundo o Atlas da Notícia, são municípios com apenas 1 ou 2 veículos jornalísticos. Japeri News é a única mídia registrada na pesquisa e salvou a cidade de ser um deserto (para ser correta, ainda que não tenha registro no Atlas, o canal tem um concorrente: o Japeri Online, com pouco mais de 11 mil seguidores no Facebook).

Assim como Japeri, mais de 30% dos municípios do Brasil são quase desertos: 34 milhões de pessoas vivem com muito pouco ou nenhum acesso à informação sobre sua região. O resultado disso, a gente está careca de saber: corrupção, má gestão do dinheiro público, desigualdade social, invisibilidade, preconceito.

Na análise feita pelo meu colega Sérgio Spagnuolo sobre jornalismo local para este anuário, em 2019, “ao menos 80 periódicos importantes para as suas respectivas cidades fecharam as portas desde 2011, provavelmente sem a ascensão de novos no lugar”.

Se me permite discordar, Sérgio, acredito que as novas iniciativas estão, sim, surgindo no lugar de jornais extintos ou simplesmente onde antes não havia nada. Só não sei se estamos procurando no lugar certo — ou apegados a modelos e formas mais tradicionais de se fazer jornalismo local. Em um levantamento que fiz em São Paulo identifiquei, entre sites e páginas de Facebook, 151 canais que têm como missão repassar informação sobre um ou mais bairros da cidade (o município possui 96 bairros) para seus moradores. Destes, 39 possuem conteúdo jornalístico, levando em conta critérios como interesse público, relevância, periodicidade e a não ligação a políticos ou partidos. Metade deles existe apenas no Facebook.

Comer, morar e trabalhar

Informação é a força vital de uma comunidade. Não só as pessoas querem saber o que está acontecendo em seus territórios e exigir prestação de contas, mas o poder público também precisa se comunicar com elas, por exemplo, para fazer o cadastramento de vagas na creche ou divulgar campanhas de vacinação. E isso não vai mudar em 2020 ou em 2046. Com o fechamento de jornais locais, essa demanda fica completamente desassistida. Ou sempre esteve, em muitos casos.

É nesse vácuo que entra o Japeri News e tantos outros recém-nascidos. Não é um movimento recente, mas tem se ampliado e deve se consolidar em 2020. É das mãos de jovens como Francisco e por meio de plataformas como o Facebook e WhatsApp que as pessoas estão recebendo suas necessidades básicas de informação. “Não há transparência por parte dos políticos, e as pessoas querem saber sobre os problemas no posto de saúde, denunciar uma rua que ainda não foi asfaltada, cobrar, questionar. Se não for a gente a fazer isso, quem fará?”, pergunta.

O jornalista Harry Backlund, co-fundador do City Bureau, organização de mídia cívica de Chicago, escreveu que, nos Estados Unidos — onde o jornalismo local também míngua –, essas necessidades só estão sendo atendidas por quem há anos reporta a partir dos territórios. “Os jornais tradicionais cobrem rotineiramente a desigualdade como um fenômeno abstrato que pode ser observado e comentado de longe. Na contramão deles, jornais locais, que reportam a partir de suas comunidades, tratam o jornalismo como uma ferramenta para olhar para o território, equipar a comunidade e formar redes de informação”, diz.

Financiado pela comunidade

Essas iniciativas dão um indício de que o futuro do jornalismo local (mas também hiperlocal, periférico e/ou comunitário) dialoga diretamente com algo que já tem características fortes e bem definidas: um jornalismo representativo em sua composição e diverso em vozes, linguagens, formatos e estratégias de distribuição, que se conecta com a comunidade a que serve. E que olha para ela não só como consumidora da notícia, mas como ponto de partida para qualificar seu olhar jornalístico. E até garantir sua sustentabilidade.

Ainda é cedo para cravar que isso mudará o panorama já para o próximo ano. Mas as bases para isso estão sendo colocadas. O jornal A Sirene, por exemplo, conta as histórias das vítimas do rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais, e também cobra e fiscaliza a Vale e o governo no processo de reconstrução da cidade. O periódico foi financiado com parte do dinheiro arrecadado de doações para a Arquidiocese de Mariana. E a decisão por redirecionar o dinheiro para a criação do jornal foi da própria população.

Japeri News ainda não se financia — Francisco trabalha como social media para uma empresa no Rio de Janeiro –, mas o canal vende anúncios para comerciantes locais, o que tem pago parte da operação. Modelo similar ao da jornalista Carla Siccos, moradora de Cidade de Deus, zona oeste do Rio de Janeiro, e criadora do canal CDD Acontece, que trabalha com WhatsApp e Facebook para distribuir informação para o bairro.

Carla tem em sua lista de transmissão mais de 7 mil moradores, recebe diariamente mensagens com sugestões de pauta e denúncias dos moradores e paga seus boletos com anúncios de pizzarias, academias de musculação e construtoras. Carla realizou o primeiro debate de candidatos a vereador de Cidade de Deus, em 2016, e até bem pouco tempo atrás levava pessoalmente, todo fim de mês, um bolo surpresa na casa dos seus leitores aniversariantes sorteados. Mas parou por achar que estava gerando muita expectativa em quem não era agraciado pelo sorteio.

Mas isso é jornalismo?

Penso muito sobre meu lugar de privilégio antes de responder a essa pergunta. Apesar de acreditar que os protocolos do jornalismo servem para garantir a qualidade da informação que estamos transmitindo, e serem indispensáveis para podermos repensar o jornalismo — local ou não –, também não consigo deixar de pensar na subjetividade de quem está passando a mensagem. Sou eu — uma mulher branca, com diploma de jornalismo e trajetória na imprensa “tradicional” — quem vai dizer o que é relevante no noticiário e como as pessoas serão impactadas por ele?

Quando perguntei a Francisco, que é estudante de marketing, mas possui o registro de jornalista, se ele acreditava estar fazendo jornalismo, ele respondeu com firmeza: “Sim. Primeiro porque a gente busca ouvir os vários lados da história, e por isso já tivemos ameaça de retaliação. E depois porque jornalismo é tentar levar a verdade e esclarecer fatos a quem precisa”. E quando erram? “Fazemos errata. Admitimos o erro. Faz parte do processo”, afirma.

Ouvir as pessoas sobre o que elas precisam é parte importante do processo de informar de Francisco e de Carla. Esse tipo de trabalho muda o exercício do jornalista, pois exige que ele ou ela construa relacionamentos com seus leitores, tendo como base valores e vivências compartilhadas. O resultado desse trabalho a longo prazo seria, na melhor das hipóteses, viver em uma comunidade capaz de exigir mudanças de forma autônoma.

Mas isso não acontece sem algum tipo de tensionamento. Entre eles, o próprio entendimento sobre o que é ou não jornalismo. Ainda que essas iniciativas não vinguem (por questões econômicas e estruturais, principalmente), elas já apontam para mudanças importantes para o jornalismo em 2020. Já estão criando uma nova cultura entre informação e comunidades — no sentido amplo da palavra. E, a partir desse novo comportamento, vão pautar novas demandas para o jornalismo.

Rosalie Murphy, editora-chefe do The Devil Strip, um experimento de jornalismo local em Akron, Ohio, vai na mesma linha: “Vivemos aqui, e se esse é o viés, que assim seja. Eu moro em Akron, e minha equipe também, e é claro que isso significa que queremos que a cidade prospere. É claro que queremos uma economia que funcione para todos. Trabalhamos com nossos leitores, e não para eles, deixando que eles nos digam o que querem saber e trabalhem conosco para encontrar as respostas. E é, acredito, o caminho de volta — confiar em nossas instituições de notícias locais e confiar um no outro”.

Essas ações mostram caminhos possíveis para reconectar o jornalismo com o território. Mais do que isso: mostram como tratar a comunidade como aliada no processo de construção da notícia. Se fazer jornalismo local tem uma vantagem, ela é essa: estar próximo do seu público. As eleições municipais se aproximam, a demanda por informação vai, e deve, aumentar. 2020 será o ano em que a política vai dominar as redes de forma ainda mais pulverizada. Nosso trabalho enquanto jornalistas precisa se moldar a essas novas dinâmicas. Se o papel do jornalismo é estar a serviço da sociedade, ele precisa estar disposto a ouvi-la. E a construir com ela.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2020. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.

O jornalismo no Brasil em 2020

Nina Weingrill

Written by

www.enoisconteudo.com.br and www.escoladejornalismo.org

O jornalismo no Brasil em 2020

A convite do Farol Jornalismo e da Abraji, jornalistas e pesquisadores brasileiros projetam a profissão para o novo ano.

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