Stress Tamanho G

Ilustração: Luccas Góes.

Nos confins dos shoppings centers, onde nunca é dia ou noite, apenas uma longa eternidade esbranquiçada e gelada, vivem mulheres preparadas pelas mais brutais metas do capitalismo, prontas para receber suas igualmente preparadas clientes. Em passadinhas rápidas e sorrisos cadenciados, desviar delas é uma luta ingrata. Mais difícil ainda é a batalha de caber nos modelos que são vendidos por elas. O que talvez explique por que as sandálias gladiadoras foram resgatadas pelas mulheres modernas.

- Boa tarde, meninas! Precisam de ajuda?

Sim, para quase tudo nessa vida, eu penso.

- Não, não, obrigada, só dando uma olhadinha.

Olhadinha — código para “preciso olhar os preços nas etiquetas primeiro”. Começo a mexer nos cabides, atrás de alguma peça que seja do meu gosto e, mais importante, esteja disponível em tamanho G. Ser discreta nisso não é uma opção — as peças de tamanhos maiores ficam nas partes de trás das araras e quando vejo, já estou carregando quilos de tecido como uma lavadeira e derrubando algumas camisas. Mexo nas pilhas de roupas — P, P, P, P, P — chego ao fim e nada. Enquanto isso, a minha mãe que veio só me acompanhar, já vai tentando resolver.

- Olha, eu vou chamar a Gilse, ela é quase da família, ela sempre me atende… Gilse!

Ai não.

- Quanto tempo! Essa é a tua guria? Nossa, ela… Cresceu!

Pelo gesto expansivo, percebo que ela não está só falando da minha altura.

- Então, o que podemos fazer por essa menina?

- Ela precisa de um vestido!

Ela me olha de cima a baixo e parece que a expressão dela transpira “batinha”. Ela oferece ajuda, mas agradeço e digo que é melhor olhar primeiro sozinha. Começo a procurar o que eu quero — um único vestido simples e funcional. Infelizmente, ainda que as clientes sejam até solteironas, vestidos são vendas-casadas — não pode ter só renda, tem que ter lantejoula também; não pode ter só lantejoula, tem que ter babados também.

Mesmo assim, sigo meu garimpo. Passo por alguns vestidos longos — o que me faz pensar que alguns extraterrestres realmente fugiram da Área 51, porque eu nunca vi uma mulher tão comprida — e acabo escolhendo alguns modelos mais curtos. Largo mais de 10 vestidos sobre uma bancada no meio da loja. Gilse inspeciona os vestidos por cima e vejo que o diagnóstico não é bom. Ela começa a pegar as peças e passar o código de barras no leitor do sistema. Antes mesmo de falar, ela já suspira.

- Esse aqui é uma coleção diferente, ele só vai até o P no nosso estoque.

Como pode ir só até o P? Tem algo abaixo disso? Sub-P, tipo subnutridos? Ela já vai pegando outro e me diz:

- Hum, vejamos… Esse eu só tenho um M, mas é um M largo.

Mas também sou uma pessoa larga.

- Eu sei que não dá.

Para mim, é GG de guria gorda mesmo. Gilse já me olha com os olhos em chamas, mas ainda disfarça um sorriso que apesar de trincado, ainda lhe permite falar.

- Como tu sabe se tu nem provou?

- Olha, alguma noção de tamanho, eu tenho, senão eu já tinha ficado presa numa fenda por aí… Bom, vou provar, o que eu tenho a perder, não é mesmo?

Só a minha dignidade por não caber em nada. Entro no provador e ouço a conversa do lado de fora.

- Eu sei como é, a minha filha é que nem ela, assim, “fortinha”. Precisa de ajuda, querida?

- Se eu precisar da ajuda de uma para entrar nisso aqui; vou precisar da ajuda de duas para sair.

- Mulher prevenida vale por duas.

Ela abre a cortina, fecha o vestido e percebe o mesmo que eu — pareço a mascote da Michelin pneus. Ela menciona a possibilidade de fazer um pequeno aumento no vestido, mas sejamos sinceras, para esse caber só emendando um lençol atrás. Depois que ela sai, volto a me vestir e vejo uma chuva de vestidos sendo jogados para cima de mim:

- Eu trouxe umas coisinhas para tu provar, esses aqui são bem como a tua mãe adora. G não tinha mais, é sempre o que vai mais rápido, mas então, eu trouxe alguns Ms para tu provar. Tu não queria justo, né? Mas eu achei alguns que talvez te façam mudar de ideia…

Saio do provador, mais suada e escabelada e penso se depois dessas acrobacias todas, talvez eu caiba nos pequenos modelos que provei hoje.

- Olha, acho que por hoje deu, não é o dia…

Gilse suspira e se despede:

- É… A gente tenta, mas é difícil vestir essas meninas