O nascimento de um filho não te torna pai

Decidi começar um novo hobby. Escrever. Decidi arriscar entrar neste mundo peculiar no qual a diversão das pessoas é juntar palavras em uma sequência que faça sentido, formando frases. As frases, por sua vez, se juntam em uma sequência única formando parágrafos que fazem sentido. Esses, por fim, se juntam em uma sequência específica para formar um texto que faz “muito sentido” (pelo menos para o escritor). Este texto construído, portanto, é único, como se fosse uma impressão digital do escritor, porque mesmo que as palavras disponíveis sejam as mesmas para todo mundo, nesta sequência, estas palavras, frases e parágrafos só podem ter sido escritos uma única vez, de uma única maneira, como as curvas na pele de seu dedo.

Este processo de construção é muito complexo. Ele começa bem devagar, com a primeira palavra. É assustador a escolha da segunda palavra, da terceira, da quarta porque existem milhares, todas disponíveis para você, mas apenas uma faz sentido. Percebam que foi escolhido o verbo construir e não criar ou formar, por exemplo. Porque construir é de certa forma lento. Não se constrói uma casa ou uma máquina de um dia para outro, exige planejamento, estudo, esforço, perseverança. Por outro lado, quando finalizada a fase de construção, os produtos gerados são mais perenes, duradouros, firmes.

Mas então, escrever sobre o que? Qual impressão digital única deixar para o mundo?

É claro! Paternidade! Afinal, tem tudo a ver com construir coisas (bem devagar) que façam sentido.

Neste texto (e neste blog que está nascendo hoje) você não encontrará o que comumente é discutido em fóruns de pais, tais como histórias engraçadas sobre fraldas sujas, correrias até o hospital para o nascimento da filha e outras piadas em geral. Entendo que é muito prazeroso falar sobre estas situações, pois fazem parte do imaginário da paternidade, mas a proposta aqui é outra. É preciso avançar e ir mais fundo nas questões da paternidade.

Para começarmos a entender a ideia, digamos que este é um texto (e um blog) escrito por um engenheiro, pai pela primeira vez aos 34 anos. Os bons engenheiros traduzem, transformam e dão função ou objetivo para a matemática e a física. Geram aplicabilidade e utilidade prática para estas ciências fundamentais.

Mas o que a engenharia, a escrita de textos e a paternidade tem em comum afinal? A construção!

Nós, homens, não nos tornamos pai com a gravidez de uma mulher ou até mesmo com o nascimento de um filho. Esses atos nos transformam em genitores, aquele que gere, mas de maneira alguma nos tornam pais. Os demais animais machos dão vida a suas criações, mas isso não os torna pais.

A paternidade, assim como as máquinas, sistemas, estruturas e textos, não ocorre naturalmente. Ela precisa ser construída, peça por peça, palavra por palavra.

Não vou me aventurar entrar a fundo nos aspectos conceituais da paternidade, não é o objetivo aqui, não tenho este conhecimento e seria como discorrer sobre matemática pura e aplicada. Muito conceitual para um “texto de engenharia”. Os engenheiros são mais práticos. Entretanto, algumas reflexões são importantes.

As mães são atropeladas pela maternidade. Elas entram na maternidade pelo corpo, o novo ser cresce dentro delas. Não tem para onde fugir (a princípio). Por outro lado, não há qualquer mudança no corpo dos homens durante a gravidez. Nós não nos tornamos pais na gravidez. Os homens entram na paternidade pela fala, quando assumem sua posição (e função) de dizer não para o filho, de separar o filho da mãe, de ditar as regras.

Até uma certa idade, o filho acha que a mãe é dele, que o corpo dela pertence a ele. Ele acha que ele e ela são a mesma coisa. O pai faz o filho renunciar definitivamente deste lugar, para que ele possa andar com as próprias pernas, para que ele possa nascer como sujeito. Trata-se, basicamente, da primeira interdição, de muitas outras que virão, que o filho recebe do pai.

A paternidade é uma função (do latim, functĭo,ōnis ‘ trabalho, execução’) que devemos exercer — a chamada função paterna. Ela é exercida, de maneira ativa.

A paternidade é, portanto, uma escolha. Neste sentido, todo pai é adotivo. E você? Já adotou seu filho(a)?


Este texto inaugura o blog O pai simbólico — reflexões sobre a construção da paternidade. É o primeiro de muitos outros que serão publicados na jornada da construção da paternidade. Você está convidado a fazer parte desta jornada.


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