
Não era comum, mas tampouco despropositado que alguns candidatos enviassem junto de seus currículos uma pequena foto de rosto. O espanto do Diretor de Recursos Humanos foi devido, na verdade, ao cargo pretendido. Rêmulo havia se proposto para o cargo de gerente de vendas. As cafeteiras geralmente se candidatam a vagas para trabalhar na copa.
O sorriso visto pelo DRH na fotografia, estampado na face italiana e poliédrica de Rêmulo, era, em realidade, de Júlia, sua esposa e autora do retrato. Esse sorriso, refletido e impossível de outro modo, teve influência suficiente para que Rêmulo fosse chamado para um entrevista. Suas capacidades o fizeram ser contratado.
A ansiedade de Júlia era muito mais evidente que a de Rêmulo. Ela acordou mais cedo, preparou um belo desjejum, torradas, iogurtes, sucos, leite, chá, nem parecia que era só para dois. Nem no último instante ela se descuidou. Enquanto esfregava delicadamente com as costas da mão o beijo no rosto do marido, queria saber se ele não estava nervoso: — Na verdade, não. É um dia importante, como todos são. Logo mais esqueceremos dele, como temos esquecido os demais. Mas quem sabe se o Alberto e o Matias não são simpáticos e vamos nos tornar grandes amigos? — Quem são esses? — Meus novos colegas de trabalho — Você não tinha me contado que já conhecia o pessoal da empresa — E não conheço mesmo. Foi só um palpite — Bobo! — e ela o beijou mais uma vez, e da soleira da porta assistiu ao carro dobrar a esquina.
Não sem razão Rêmulo imaginou que houvesse fila para pegar um dos elevadores no saguão do prédio. Ainda que desagradável, a ausência de surpresa lhe amoleceu o espírito, e assim pôde dedicar sua energia a ensaiar mentalmente as rotinas formais de apresentação típicas de um primeiro dia. Talvez por se repetirem tanto essas cenas, nem deu por muito quando o DRH o cumprimentou: — Bom dia, campeão, como vai essa força? — exatamente tal qual ele havia imaginado. Alguns folhetos informativos sobre regras de conduta, direitos e deveres, os quais Rêmulo guardou em seu bolso: — Deixa eu te apresentar seus dois vizinhos de mesa: Alberto e Matias —.
Não foi preciso mais que dois meses para que eles criassem o hábito de almoçarem juntos, fumarem juntos, e, uma vez por semana, irem beber em algum bar ali do centro. No geral, viam em Rêmulo observações inteligentes, timing para piadas, etc, mas ressentiam, mas dissimulavam, o fato de que Rêmulo tinha acabado completamente com a graça das apostas de futebol. Eram irritantes não apenas as vitórias de Rêmulo, que lhe custavam um tantinho assim de dinheiro, mas principalmente o fato de que, como davam mostras seus comentários, Rêmulo não entendia absolutamente nada de futebol.
Mesmo onde os hábitos não convergiam o laço entre os três se mostrava resistente. Matias e Alberto eram mais dados a noitadas extraconjugais. Verdade que não eram frequentes, mas podiam precisar de alguém para cobrir as provas. Nos dias em que deveriam ir para o bar, mas não iam, Rêmulo não os acompanhava. Assistia aos jogos mesmo assim, mais para servir de álibi caso — tomara que isso nunca aconteça! — alguma das esposas ligasse para ele depois de tentar falar com o respectivo esposo infiel, que não atendia o telefone de jeito nenhum — Eu digo o quê? Que a ponte norte-sul entrou em colapso e vocês caíram juntos no buraco? — Não! Que horror! Sei lá inventa alguma coisa… Que eu tô no banheiro passando mal… Algo do tipo.
Foram poucas as vezes nesse mundão que o inédito se anunciou e, de tanto não acontecer, Rêmulo já havia perdido o texto que havia decorado para caso o fatídico quase ocorresse realmente. Desmontado em sua cama ao invés de estar no bar, o jogo já havia terminado há muito, Rêmulo foi acordado, e Júlia também: — Você está com o Matias? — Rêmulo desligou o telefone.
Agora ele olhava pela janela do escritório ao invés de preencher tabelas. Mais tarde, olhava para o teto depois de uma transa de desempenho pífio. Alguma coisa estava acontecendo. A verdade é que conhecemos relativamente bem o funcionamento do cérebro humano. Neurônios, axônios, sinapses, córtex, lóbulo. Além disso, toda uma gama de psicólogos, psicanalistas, psiquiatras.
Rêmulo, porém, estava só.
Nunca teve boa experiência com médicos. Júlia, embora tão fiel e tão cúmplice, não deveria partilhar aquilo que julgava ser loucura sua: — Deixa que eles pensem que é luto pela morte de seus amigos e não o medo irracional de ter sido o responsável. É só uma paranoia passageira. Imagine: prever o futuro? Mas e se não for algo assim que amanhã já nem lembre mais? E se não fosse? Era ele quem produzia o futuro ou o futuro enviava uma correspondência para o destinatário errado e só e ele não podia fazer nada, sequer usar o carimbo do correio de “mudou-se”: — Rêmulo! Seu chá está esfriando! — Me distraí. Diga alguma coisa, Rêmulo… Estava pensando no contrato que estamos conseguindo com os norte-coreanos — Norte-coreanos? — Meu Deus, Rêmulo, você poderia ter pensado em algo melhor para dizer. Sim, o embargo econômico está para acabar… Definitivamente, Rêmulo… — Júlia não pareceu acreditar.
O melhor era sair de casa o quanto antes. Trabalhar, direcionar suas ideias para algo produtivo e não pensar em nada. Não pensar em nada. É, ele estava meio tenso, podia dar uma relaxada. Foi ao banheiro do escritório e escolheu a última cabine, aquela que dá para a janela basculante, e acendeu um baseado, o qual, com a prática adquirida na sua juventude, conseguia equilibrar na boca sem deixá-lo cair. A viagem foi ruim, a paranoia entrou, a tentadora e aterradora janela aberta pela qual a fumaça baforada subia e por onde ele muito bem que poderia descer antecipando e suprimindo desgraça. Toc-toc: — Tem alguém aí? — e Rêmulo engoliu a ponta que já nem sequer queimava mais — Preciso fechar o prédio, está tudo bem com você? — Está sim, desculpe, acho que cochilei. Por favor não conte para ninguém — disse enquanto colocava uma nota de cinquenta no bolso do funcionário da limpeza. Já era noite.
— Foi mais rápido do que pensei. Para te dizer verdade eu até nem acreditei quando você falou, mas acabei de ver no jornal agora há pouco sobre o acordo que o Kin-Jong-un assinou com o presidente Trump — Rêmulo não se surpreendeu. O único fato que estava lá por certo, é o de que as coisas aconteciam: — Vou comprar cigarro. Se o gato entrar em combustão, tem um extintor na garagem — e saiu, aproveitou e bebeu uma cerveja sozinho mesmo, foda-se, se era pro bicho pegar fogo a essa altura já deu. Seus passos, ainda que vacilantes, estacionaram de vez ao chegar em seu destino. Sua casa inteira havia se tornado um experimento schrödingeriano, ao passar pela porta logo foi invadido pelo cheiro que não sabia se temia ou se desejava. Mas podia ser ainda que Júlia houvesse esquecido uma panela com óleo fervente no fogão. Não, não era da cozinha de onde vinha. — Eu apaguei, Rêmulo. Eu apaguei — Sim, talvez fosse um fio desencapado, um curto-circuito, ou coisa assim — É, talvez — .
Eles andavam mais distantes, a casa mais vazia, muito mais do que se poderia supor. Júlia queria falar. Ele sabia. Ela não iria falar. Ele sabia: — Eu não sei, Júlia — e para completar aquela insanidade toda, Rêmulo terminou seu chá, comeu o resto de sua torrada e foi trabalhar. A afeição da despedida apareceu na sua mente como uma lembrança — Poderia ao menos ser útil e não apenas triste? Por exemplo, quais serão os prospectos para o mercado de utensílios domésticos? Eram esses os produtos do setor pelo qual Rêmulo era responsável, numa típica ironia cruel de quem planejou isso aqui: o DRH, é claro. Nada vinha senão polaroides que pareciam obedecer a uma ordem bem pouco ortodoxa: uma cobra de duas cabeças nas mãos de uma criança indiana, um pintor pintando um naufrágio in loco, uma nave espacial orbitando um buraco negro, um artista recebendo um prêmio, um oriental jogando um jogo de tabuleiro com um computador, um bombardeio. Júlia aos prantos.
Levantou-se derrubando alguns dos papéis da mesa do Jonas.
Talvez porque ela não fosse assinante daquele clube louco que estava mandando fotografias para Rêmulo, Júlia se surpreendeu com o barulho na porta de casa e ao ver seu marido: — É você — Eu sei — Então isso tudo também vai acontecer com a gente, não é, Rêmulo? Você sabe tudo — .
Rêmulo quis defendê-los. Procurou onde pôde pelas palavras, pelas promessas. Todo repertório foi inútil. O que veio em seu socorro foi mais um daqueles lampejos do porvir, primeiro com o silêncio afetuoso de seus carinhos, depois com a garantia de que ele acabara de vê-la radiante em um futuro não distante: — Sim — ela respondeu — mas você não entende que não será mais com você?
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