A primeira vez que eu me encontrei com M. Myllymäki foi em agosto de 2018, em Kaveripattinam. Assim como nas vezes que se seguiram ele não fazia ideia de quem eu era, e nem quando me aproximei do seu lado ele pareceu se importar, tão pouco reagiu como quando eu disse que havia descido pelo Kaveri para vê-lo. Eu o havia visto na televisão. Disse-lhe o nome de minha mãe, quão alaranjadas estavam as água do porto. Ele ficou lá, não muito diferente — e só — de como eu o havia imaginado durante as horas no ônibus descendo a serra.

Eu tinha toda a vontade de dizer logo tudo, confessar minha compaixão pelo desastre que era M. Eu esvaziava-me de um longo fôlego, e ecoava-me macilento e desnecessário. A realidade é, mas é também a realidade.

Sentei-me diagonalmente a ele. Evitei tocá-lo apesar de imenso sentimento. Ele pincelava os dedos nos extremos descoloridos do bigode, enquanto eu, desendentrando a porta pelo corredor onde dois moços desatentos desconversavam voltei degrau após degrau pelo som abafado da porta, do pátio às calçadas de lajotas irregulares. Voltei até onde uma certeza se tornando dúvida se perdia ainda desforme à espera das luzes se acenderem. As luzes se apagaram pondo-me adentro do ônibus que me devolvia, acendendo as luzes pela estrada, ao caminho que descia subindo para a cidade pequena sem luzes. Demorosamente acordei de um sono do qual acordo sete vezes. Os pensamentos se esqueceram um a um de mim incapaz de capturá-los. Nutrindo-me de ignorância, perdendo a fome, desanoitecendo, a vida de trás para frente tira-me as costas do assento para por-me de pé esperando a mim mesmo embarcar-me na balsa sobre as cores da água. Cada movimento deterministicamente escriptado sendo assistido enquanto recompõem-se ao lugar de origem. Eu gaguejava, e agora pensando sobre isso, eu acho que eu estava gaguejando desde o início. Os dedos de M tocaram-se mais uma vez se encontrando no queixo concluindo o movimento. Perfazia-se assim, repetidamente, desfocado no reflexo translúcido da janela.

Os moços que entravam no quarto agora e antes comentavam de como M havia quase morrido, interessados na notícia mais do que no homem, mais na morte do que no quase. M estava aqui, e de alguma maneira isso não suficientemente entretia. Hoje era hoje, tempo presente. Eles circundavam sem nunca de fato chegarem a dizer. Non compos mentis, tão ávidos estavam pela definição, ainda eram incapazes de fazê-la. Esses são os covardes que levam os lençóis usados e trazem os novos.

Mas se eu disser que desde sempre, os atos mais incríveis são para entreter, são para distrair. E fica claro quando rimos, fica claro o riso, se torna parte do ato. Há graça no exótico contorcionismo dedicado da dançarina, na escura vastidão ao redor da qual se suspende esse um planeta, na ataraxia de um homem com neurofibromatose. E aqui está M, perfurações nos pulmões, rins parados. Mas não é verdade também que individualmente somos cada vez mais ridículos? Tanto pouco sentido quanto sempre, mas mais distantes de ter a alguma desculpa de que muito ocupados não sabemos. Envolvidos desse ódio chamado coragem não nos resta outro ato que não o culposo.

Sim, um homem civilizado se lança de cima dos parapeitos da Stari most numa noite quente. Ele está sozinho, mas é a mesma queda para as centenas de outros antes dele. A água trépida e fria passa vagarosa entre as pernas da ponte, contudo não é o primeiro mergulho de M, ele tem feito isso durante toda sua vida adulta. Exatamente isso não explica porque ele atinge a água com o corpo inclinado e se afoga.

Sozinho o choque térmico faz hiperventilar. Tente respirar debaixo da água com as doze costelas quebradas. Ele está na água há dez minutos. Aqui onde o Neretva escorre dividindo a cidade em duas, o leito do rio não é tão fundo quanto pelos desfiladeiros ao norte, mas é o suficiente para abraçar uma centena de vítimas. Vinte minutos depois você ainda está aqui. M, inspire. Os dedos se reencontram no queixo. Você está aqui, mas não por isso.

Eu empilho palavras para perguntar como ou por que M veio para a Índia. Do outro lado de fora das janelas, os olhos se perdem no pátio, e a quermesse toma forma. De novo é agosto ainda, toldos azuis arremessados por cima dos canos dão contorno às barracas dispostas em pares, frente a frente, por um pátio imenso ao redor da lagoa maior.

A lagoa artificial havia se originado em 1893 da união de três rios. O curso das águas havia sido direcionado para formar a atração ao redor da qual se ramificam ruas repletas de bangalôs e outras memórias dos tempos coloniais. Em uma das alamedas próximas ao hospital, as cores se encontram em um corpo de gente. Antes da luz havia o som, antes do som a palavra. Sobre os degraus de uma escada de concreto puro interrompendo os paralelepípedos, uma jovem de ombros curtos põe-se estaminada sobre o muro.

Olhei para M. Estava vidrado no horizonte ou em si mesmo.

Eu acho que eu esperava que o homem dissesse:

Volte para a Gambia, Alieu Suso, ou vá fabricar um gayageum. Você sabe, eles também usam os dedos para tocar as cordas. No Iêmen o qanbūs não existem sem o sahn nuhasi. E em Berna, Felix e Sabina julgam as mãos do artista para decidirem se lhe entregam o hang.

É o que tinha feito meu pai e o pai dele, e o pai de meu avô que havia seguido o caminho do próprio pai e do pai antes dele. Mas minhas mãos estão rachadas de jardinagem e pouca corda. Eu desci, agora o tempo para frente, pelos degraus, até o pátio, atravessando as calçadas de lajotas irregulares até a outra escada, a de concreto puro. Entre as barracas azuis, antes de dizer algo, eu olho para a janela, mas os vidros vistos do lado de fora a essa hora são só a luz espalhada da lagoa.

Chamava-se Ghina, ela disse antes que eu perguntasse.

Como a música de Johnny Mathis?

Exatamente como música. Ela tinha as pontas dos dedos infeccionadas devido a condição crônica de morder cutículas. Mas é claro que eu não sabia disso. Eu tive que inventar.

Anos depois eu a vejo novamente. Nós estamos na galeria Huashan em Taipei. De pronto ficará claro que eu a conhecia de algum lugar. Era ela que não me conhecia.

Todos correm na direção da pintura do Paolo.

Foi acordando no ônibus a caminho de casa que parei de me preocupar. Ela disse que mentiria se fosse preciso.

Ela diz em sotaque:

Olhe para lá.

Nós nunca falamos sobre isso.

Eu sinto o mundo, eu entristeço. Se eu não estivesse com tanto sono teria colocado junto palavras melhores? Eu tento saber. Tragam Itamar Assumpção de volta. Eu olho para a dançarina com outros olhos. Você não colabora com a artista de rua. Alfazema. Assistir até possa me importar.