Usina termelétrica de Yorkshire, no Reino Unido. Próxima a essa, será construída outra usina, com tecnologia de captura e armazenamento de carbono. (Fonte: Guardian)

Tecnologia para domar o carbono

É possível salvar o planeta de uma catástrofe climática sem parar de emitir CO2?

Fechar os olhos não é mais uma opção. As mudanças climáticas são reais. Ano passado foi o mais quente desde que se registra a temperatura do mundo. O IPCC, Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas da ONU e autoridade máxima no estudo do aquecimento global, em 2013, divulgou o estudo mais importante sobre o assunto até o momento, com informações o bastante para afirmar, entre outras coisas, que existe 95% de chance da ação humana ter realmente influenciado nas mudanças climáticas.

Aos poucos essas mudanças vêm botando as garras pra fora, em lugares diferentes do mundo e com consequências sérias: a Califórnia está passando pela seca mais violenta em 1200 anos e o permafrost está descongelando em um ritmo acelerado— o Ártico, desde 1970, aquece em um ritmo dobrado se comparado ao resto do mundo.

Com o derretimennto do permafrost, grandes quantidades de gás metano são liberadas na atmosfera. O gás metano é muito mais perigoso que o CO2 para o efeito estufa, pois absorve mais calor.

Apesar da situação delicada, a emissão de gás carbono não parece ter planos para diminuir. Ao contrário, o mesmo documento do IPCC diz que as emissões estão aumentando. Atualmente, um quarto de toda a energia elétrica gerada no mundo vem de termelétricas que queimam carvão. Com um quadro desses, quais medidas poderiam ser tomadas?

Roubando CO2 do ar e armazenando-o

Entre as soluções mais comentadas está a técnica chamada carbon capture and storage (“captura e armazenamento de carbono”, numa tradução livre), ou CCS. Autoridades pelo mundo vêm apostando nela, apesar de certa controvérsia. A primeira usina termelétrica que utiliza carvão para gerar energia (usinas termelétricas são as maiores poluidoras do mundo) e captura o gás emitido foi inaugurada no final do ano passado no Canadá. Segundo a empresa que a construiu, 90% do gás é capturado, depois vendido para a indústria petrolífera ou armazenado em formações geológicas.

Calcula-se que a usina canadense, chamada Boundary Dam, retirará do ar um milhão de toneladas de gases do efeito estufa por ano. (Fonte: Guardian)

A CCS Association declara em seu site que “os países que investirem nas tecnologias de captura de carbono irão se beneficiar da sua exportação e que se o Reino Unido investir nisso, poderá criar até cem mil empregos”. Também o próprio IPCC afirma que sem o desenvolvimento das tecnologias CCS não será possível alcançar as metas de redução de emissão de carbono.

O projeto da usina canadense é inédito e controverso. Apesar de parecer uma tecnologia bem desenvolvida e capaz de não ser poluente, ambientalistas ainda não concordam com a ideia: o vencedor do prêmio Nobel, Al Gore, afirmou que as técnicas de CCS validam o uso de combustíveis poluentes e não são viáveis economicamente; o diretor da ONG Sierra Lione no estado do Mississippi, a mais tradicional a tratar de ambientalismo nos EUA, diz que as técnicas de CCS perpetuam o uso de combustíveis fósseis e atrasam a transição para as fontes de energia renovável.

Nos EUA, a construção da primeira usina que captura carbono do país foi abortada essa semana. O Departamento de Energia do país cortou os recursos destinados ao projeto, dizendo que não haveria tempo para ele ficar pronto antes da data limite do projeto inicial de investimentos federais — o departamento havia prometido um bilhão de dólares para a construção da usina. E o custo financeiro desse tipo de tecnologia — a usina no Canadá custou 1,3 bilhões de dólares canadenses—é a principal crítica à indústra capaz de capturar carbono.

Roubando CO2 do ar usando plantas

As técnicas de CCS, porém, não envolvem somente projetos caros de comprimir e armazenar gás carbônico. Pesquisadores também estudam o carbon farming, que se baseia em um conceito muito simples: plantas absorvem gás carbônico e liberam oxigênio.

Em meados do ano passado, um grupo de pesquisadores da Califórnia demonstrou um experimento em um terreno de dois acres e meio, onde era possível remover mais ou menos novecentos quilos de dióxido de carbono se fosse aplicado uma camada de pouco mais de um centímetro de matéria orgânica no solo.

Pesquisadores da Alemanha divulgaram um estudo, em 2013, afirmando que poderia ser removida da atmosfera uma quantidade significativa de gás carbônico se fossem cultivados milhões de acres de uma planta chamada jatrofa, devido ao fato de que ela suporta solos contaminados, cria raízes profundas e aguenta altas temperaturas. Os pesquisadores acreditam que se áreas litorâneas e desérticas da Arábia Saudita, México, Nimibia e Oman fossem cobertas por plantações de jatrofa, até 16% de todo o aumento de CO2 lançado desde a Revolução Industrial poderia ser absorvido. Segundo os autores da pesquisa, o uso dessa técnica de carbon farming tem as vantagens de ser mais barata que a captura em usinas e de não existir o risco de ocorrer acidentes envolvendo vazamento de CO2.

Em contrapartida, também em 2013, o Guardian publicou uma interessante reportagem sobre carbon farming, jogando as técnicas um pouco pra baixo: depois de analisado o solo de algumas fazendas da Austrália, que durante anos haviam sido bombardeadas com matéria orgânica, foram descobertas pouquíssimas mudanças no nível de sequestro de carbono feito pelo solo local. Os cientistas também descobriram que para haver mudanças significativas no solo, seria necessário, além da matéria orgânica, nutrientes como fósforo, enxofre e nitrogênio. Na conclusão da reportagem, é exposta a maior dificuldade envolvendo carbon farming: os dados dessa pesquisa não dizem respeito a todos os tipos de solos e outras características, e também não levam em conta qual o desempenho de absorção de cada tipo em um ano seco ou úmido, por exemplo. Pesquisas envolvendo a absorção de carbono pelo solo levam anos para obter resultados.

Na verdade, o desenvolvimento das técnicas de captura de carbono, em geral, levam anos. Seja para desenvolver usinas inteiras com sistema de captura, tubulações para transportar e espaço para armazenar o CO2, ou para estudar o solo e o composto que deve ser usado para turbinar o sequestro de carbono de uma região. É possível que no futuro as técnicas de CCS sejam aprimoradas a ponto de deter as mudanças climáticas, mas o IPCC já avisou que não há muito tempo.



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Victor Wolffenbüttel

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