A banalização da greve

A grande farsa de 28/04

Diante da farsa fracassada da “greve geral” contra as reformas trabalhista e da previdência hoje, achei por bem comentar o assunto. Não falar do fiasco em si, mas do significado de uma greve e por que o evento de hoje foi tudo, menos isso.

Greve é coisa séria. Não sou contra greves. Greve não é coisa de vagabundo.

A greve é um manifesto de trabalhadores, uma tentativa desesperada de reclamar contra uma injustiça e obter melhores condições de trabalho. Ao fazer greve, o trabalhador assume riscos, inclusive os de demissão ou retaliação. Por isso, não pode ser algo leviano.

Mais ainda, uma greve precisa ter apoio da população. A causa precisa ser exposta e atrair a simpatia de terceiros. Mais do que paralisar atividades econômicas, ela precisa expor injustiças, colocar o patrão sob escrutínio da sociedade.

Mas estamos no Brasil, o país da banalização. A violência foi banalizada. A corrupção foi banalizada. A greve foi banalizada.

Por muitos anos, categorias inteiras fazem greves anuais, programadas. Negociações se tornaram farsas, com objetivos irreais inalcançáveis, assim garantindo a greve do ano seguinte. E mais: prejudicando a população, usando-a como moeda de troca.

Não bastasse isso, acabou-se a era dos piquetes. As greves foram esvaziadas, tornaram-se férias extras e extensão de feriados. A justiça do trabalho, tão pelega quanto os sindicatos, praticamente garante leniência na hora de cobrar horas perdidas de trabalho.

Se um dia a greve foi um mecanismo dos trabalhadores mais vulneráveis, ela passou a ser abusada exatamente por aqueles que trabalham sob as melhores condições: funcionários públicos, áreas técnicas, categorias especializadas. Por pior que sejam suas condições de trabalho, eles têm salários acima da média, participação em lucros, aposentadoria especial, estabilidade e/ou outras regalias.

Exposto isso, é fácil entender porque a greve agora é vista como coisa de vagabundos. A seriedade da palavra “greve” se perdeu. Os riscos dos grevistas se foram. A importância do ato se banalizou. As causas se tornaram políticas. O respeito pela população se perdeu.

A “greve” do dia de hoje ainda teve vários agravantes. Os organizadores não tinham credibilidade nem buscaram conversar com a população. A causa não estava clara, nem gerava empatia. Os ataques às reformas não só vieram desvinculados de propostas sérias, como acompanhados de exageros e mentiras. Usaram vandalismo e violência para tornar a sociedade refém.

Foi, em suma, uma baderna histérica e desesperada não de quem nada tem a perder, mas daqueles que não abrem mão de seus privilégios. Não queriam mudança ou melhora, mas manutenção do que há. Como se o que há fosse bom para alguém além deles próprios.

Aos que lamentam a perda da importância do ato, não acusem quem o chama de “coisa de vagabundos”. Apontem os dedos aos sindicatos, categorias e políticos que abusaram do ato até torná-lo irreconhecível. Esses sim são os verdadeiros vagabundos que deram fama à coisa.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.