A guerra é ética e cultural, não política (Ou: quem tem bússola não se perde)

Mantenha a calma e esmague a cabeça da jararaca!

Eu estava viajando, bem longe das notícias, quando estourou a delação da JBS e as gravações com Temer. Quando soube, fiquei desconcertado: por um lado, minha ética exigia que Temer renunciasse. Por outro, meu pragmatismo temia que a queda de Temer sinalizasse o retorno do PT, a pior das pragas, ao poder.

Desde então, essa mesma dicotomia dividiu os brasileiros que lutaram contra o PT e a corrupção. Alguns não quiseram proteger ninguém, mesmo que isso lhes custasse caro. Outros preferiram o cálculo político e passaram a defender, direta ou indiretamente, a permanência de Temer no poder.

Melhor Temer do que o PT? Não há como discordar. Ainda assim, jogar a ética pela janela em nome da conveniência é perder a integridade.

Relutantemente, escolhi seguir minha ética. Passei a desejar que Temer caísse, tanto porque não posso apoiar um corrupto, como pelo precedente que isso abriria para derrubar mais presidentes à frente.

Contudo, o fiz com cautela. Ao invés de ativamente pedir sua saída, escondi-me nas sombras e permaneci calado. Deixei que o tiroteio entre os corruptos do PT e seus apoiadores janotianos e os do PMDB/PSDB enfraquecesse ambos os lados. Quem quer que vença estará enfraquecido, bem mais fácil de abater.

Sentia que essa era a melhor posição a tomar, mas não conseguia justificá-la racionalmente.

Hoje, tive uma epifania, um momento de revelação. A resposta tão desejada.

E ela veio diante de excelentes textos. Um, de Carlos Andreazza, no Globo. Outro, de Rodrigo Constantino, em seu blog na Gazeta do Povo. Ali, vi argumentações pró-Temer, defendendo-o como um mau necessário para preservar a nação do câncer petista. Opiniões diametralmente opostas à minha, mas o ponto mais importante, que me fez entender minha própria posição, estava no texto do Constantino: “PT investe em narrativa”.

Narrativa. Eis aqui o cerne da questão.

O PT saiu do poder, mas nunca deixou que sua narrativa findasse. E não o fez porque, não importa se está dentro ou fora do poder, a narrativa é o caminho para angariar apoio, conquistar poder, retornar triunfante.

O poder político não é o cerne da estratégia, é o prêmio.

O controle da narrativa é o que importa. Para os petistas, ética não importa, desde que possam mostrar que todos os outros são iguais a eles. Para os petistas, os crimes cometidos não importam, desde que consigam se passar por vítimas de um golpe desleal.

Essa guerra é muito antes ética e cultural do que política. Nosso desafio não é derrotar o PT, mas derrotar a narrativa petista, arrancar dele sua arma, sua grande vantagem.

O que gritávamos para tirar Dilma? “Não tenho bandido de estimação”. A ética era não apenas nossa espada, mas o estandarte ao redor do qual todos se juntavam. O objetivo estava claro, o discurso, afiado.

Agora, contudo, estamos sacrificando tudo por medo. Medo de perder o poder que nunca tivemos! Mas, se abandonarmos o discurso ético, como ficaremos quando (e se) o PT voltar? Com que armas lutaremos? Estamos nos igualando a eles. Estamos dando a narrativa de graça para o inimigo!

Não percam de vista que o prêmio é 2018, não o governo interino. Se o PT voltar ao poder, se ameaçar as reformas, se insistir em por Lula ou um agregado como candidato na eleição indireta, estará vulnerável, de volta ao centro das atenções. Mais uma vez, sob um teto de vidro.

Não tenham medo!

Acham mesmo que o PT, voltando ao governo, conseguiria arrumar a economia e criar uma sensação de bem-estar até 2018?

Realmente creem que a vida será fácil para o PT no poder? Que todos os demais partidos se alinharão com ele? Que não haverá rusgas, ressentimentos, traições?

Creem mesmo que o PT ficará satisfeito em bancar puxa-saco de Maia ou de quem quer que sente na cadeira?

Têm certeza de que temos mais força divididos e brigando entre nós, do que com um inimigo comum à frente?

Como disse o Edmilson Papo 10 no Twitter:

Edmilson mandando a real.

Então, ao invés de temer a queda do governo, devíamos afiar nossas armas. Deixemos a defensiva, partamos ao ataque! Preparem os discursos, os memes, os artigos! Aqueçam novamente as ruas! Façamos pressão pelas reformas imprescindíveis que ainda podemos ter! Denunciemos os petistas que retornam à máquina pública! Revigoremos a memória da população quanto aos crimes cometidos!

Não precisamos sair às ruas para pedir a saída de Temer, mas também não precisamos defendê-lo. Deixem que os bandidos se matem, e depois atacaremos o vencedor combalido!

Nossos valores e nossa moral são nossa bússola, se nos sentimos perdidos é porque deixamos os cálculos políticos se tornarem mais importantes do que nosso norte. O medo de perder o poder (que, relembro, nem está em nossas mãos) não pode ser maior do que o de perder nossa narrativa. Se apostarmos tudo, até valores, na política, justificamos tudo o que o PT faz.

Ninguém disse que essa luta seria fácil. Ninguém esperava que o governo Temer nos salvasse. Então, esqueçam o cálculo político! Defendamos acima de tudo nossos valores!

Afinal, quem tem bússola não se perde!

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