Assassinato de Reputações — Um Crime de Estado

Romeu Tuma Junior — em depoimento a Cláudio Tognolli

Não sou uma pessoa de bandeiras.

Não as levanto.

Nem contra, nem a favor.

Desconfio da realidade, questiono o óbvio.

Procuro o caminho do meio, a dúvida.

Dito isto, me cabe dizer que não tenho nada de pessoal contra o Partido dos Trabalhadores e/ou seus adoradores ou seguidores.

Na verdade, temo apenas pela aparente ausência de um ceticismo salutar na discussão política polarizada do momento.

Mas, tudo bem.

Minha própria mãe acha que não houve crime de responsabilidade.

E quer saber?

Pelo bem da história e das amizades que sobraram nas redes sociais, já não importa mais se é golpe ou não.

Deixem a História julgar.

O que importa são os doze milhões de desempregados (número oficiais, informalmente estima-se que são pelo menos dezesseis milhões) frutos de uma estratégia populista que não deu certo e de um “poste” eleito democraticamente, mas que é incapaz de completar uma sentença de forma inteligível.

Historicamente eu respeito e admiro a trajetória de Lula e consigo admitir sua importância para o cenário político nacional, mas a Dilma não é nada mais do que uma burocrata, em um cargo (politico) errado.

Não vejo nela (e sinceramente nunca vi) destreza para negociações difíceis e traquejo político necessário para o cargo de presidente (recuso-me a escrever presidenta) de um país.

Temo não haver nem mesmo o mínimo de sociabilidade e audição ativa, nos atributos da presidente destituída.

O fato é que eu (e acredito sinceramente não ser o único) não conseguia entender lhufas do que a (ex) presidente Dilma, falava.

Os pensamentos de nossa (ex) governante voavam de forma atabalhoada, não dando chances de serem acompanhados.

Isso tudo ficou muito claro esta semana em sua defesa de corpo presente no senado.

O discurso inicial foi bastante elogiado, até pelos seus inimigos políticos.

Porém, na hora das perguntas, ela voltou a falar se idioma incompreensível pela maioria da população brasileira, o Dilmês.

Um jornal gringo chegou a publicar: “O gosto pelo monólogo foi que empurrou Dilma até o ponto em que ela se encontra hoje” (ou algo assim).

E eu concordo.

O Brasil de Dilma era uma terra distante com um eterno monólogo sextavado de neologismos incompreensíveis que ela insistia em nos entubar sem KY (presidenta é um belo exemplo disso), no lugar de um plano de governança de longo prazo para o Brasil.

Pessoalmente, acredito que a economia capitalista é feita de investidores que desejam respirar o pó mágico da estabilidade e segurança de que o amanhã em que investiram não será o oposto de hoje.

Ao menos isso.

Não se deseja mais do que isso no mundo dos negócios, pois sabe-se que grandes riscos são sinônimos de grandes lucros.

E a nossa “presidenta” (argh!) não foi capaz de nos dar o básico: um idioma e uma ideologia que nos mostrasse como um país sério e promissor.

O interessante é perceber que o livro deste mês, Assassinato de Reputações — Um Crime de Estado, que tem sua edição digital datada de 2013 (será que o físico é de 2012?), descreve detalhadamente o processo de instrumentalização da máquina do governo pelo Partido dos Trabalhadores durante o governo Lula/Dilma.

É um livro motivado pelo rancor — sim, a história contada no livro é de rancor e vingança e talvez esse seja o seu grande valor como documento histórico. A história não se faz só por elogios insinceros dos puxa-sacos do poder, ela também é contada pelo rancor purulento dos perdedores e dos alijados do poder.

Talvez seja o caso do momento atual e deste livro, mas isso só confere mais emoção e dramaticidade aos dois.

Romeu Tuma Jr. chega a dizer, nas páginas de seu livro, que seu pai morreu de desgosto por ver o seu preso preferido e protegido político (segundo o livro, Lula seria um delator dos movimentos revolucionários) na época do DOPS, ter sido o principal responsável pelo assassinato da reputação de seu filho.

O rancor do livro é tão evidente que há em suas páginas a narração de uma tentativa do (ex) presidente Lula de ver o Tuma pai, já moribundo, e a negativa de Tuma Jr em conceder tal honraria, desfeita narrada com requintes de crueldade como um troféu da vingança.

Além de rancor, o livro também é recheado de detalhes e farta documentação comprobatória do que o autor insinua.

Romeu Jr, pelo visto, é um acumulador de provas documentais por onde ele passa.

Talvez algo comparável ao turista que fotografa e filma, ao invés de viver a realidade da experiência.

Quem sabe ele não previa o seu terrível destino.

O livro nos faz crer também que Tuminha foi descobrindo as falcatruas do governo PT durante sua estada no poder, e lentamente foi juntando os fatos até que o óleo da frigideira do ministério em que ele estava aboletado, começou a ferver.

O interessante é que o livro narra em detalhes o modus operandi que o PT instituiu para tirar seus inimigos de circulação, a instrumentalização da Polícia Federal.

Segundo Tuma Jr. a partir do governo Lula a Polícia Federal não mais investigava um crime e sim um alvo.

A utilização de escutas clandestinas (nos moldes da Abin) é descrita como uma forma de se atingir e manchar (quiçá assassinar) reputações, tática apreendida por Lula à época da ditatura, segundo o livro.

Tuma Jr. chega a profetizar em seu livro que “quando a flauta desafinar a cobra irá atacar o flautista”, referindo-se à instrumentalização da polícia federal com métodos e táticas escusas, alheias à lei, além de arbitrárias, como no caso das escutas telefônica que, à revelia do magistério, serve para destruir reputações, através do vazamento do conteúdo destas informações sigilosas para a imprensa, inclusive com degravações de conversas envolvendo pessoas com foro privilegiado, além de outras técnicas de manipulação da imprensa e da opinião pública; seria bastante perigoso.

O vazamento de informações sigilosas, frutos de delações premiadas, sobre a ex-presidente e o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Tófoli (ambos com foro privilegiado), pode sugerir que a prática de assassinato de reputações ainda está em vigor.

Se forçamos um pouco mais nossa (curta) memória seremos capazes de lembrar da técnica utilizada no vazamento de uma escuta telefônica entre o ex-presidente Lula (à época sem foro privilegiado) e a presidente Dilma (com foro privilegiado), mostra que a técnica utilizada na época pelo governo do PT chamada de tabelinha de grampo (e narrada no livro), onde você grava alguém sem foro privilegiado, por algum motivo (mais ou menos) justificável juridicamente, na certeza de que determinada autoridade com foro privilegiado entrará em contato com a sem foro.

Uma vez que o conteúdo (geralmente constrangedor) da escuta telefônica é divulgado para imprensa e opinião pública, o estrago já está feito.

Mesmo se, eventualmente, a escuta for declarada ilegal e retirada dos autos do processo, certamente o ALVO já terá sido sumariamente julgado e condenado pela mídia, opinião pública e pelo STG — Supremo Tribunal do Google.

É uma estratégia, quase, infalível.

Quase, porque sempre dá direito à dúvida.

Como estamos vendo agora no caso do Juiz Dias Tofoli, o que foi divulgado não é crime, e o fato em si é irrelevante, pois o juiz citado por Léo Pinheiro, então presidente da OAS, pagou pelos serviços.

A divulgação daquele arabesco de uma delação premiada, atendia, segundo um outro juiz do Supremo Tribunal Federal aos interesses revanchistas (olha a vingança e o rancor aí de novo, viu?) dos promotores da lava-jato, que sentindo-se semi-deuses não teriam gostado de alguns pareceres contrários aos interesses (políticos? pessoais?) destes mesmos promotores, proferidos recentemente por Dias Tofoli.

O vazamento da delação, embora não caracterize (exatamente) um crime, mostra uma proximidade promíscua de quem julga com quem é julgado, e, o pior, dependendo do ângulo mostra uma distância promíscua quase zero na relação social de autoridades que deveriam julgar delitos, com empreiteiros, mesmo que este segmento, à época, não fosse sinônimo de corrupção, como nos dias hoje.

A verdade é que depois de chiadeiras e ameaças, Janot, resolveu anular a delação de Léo Pinheiro, e mostrou um racha interno na operação Lava-Jato como um todo, mas isso é outra conversa.

O importante é que as práticas relatadas no livro de Tuma Jr, embora, segundo ele, descritas somente com o objetivo de salvaguardar sua reputação que estava sendo atingida, àquela altura, por práticas policialescas e jurídicas ilegais, nos dá um bom roteiro para o momento em que estamos afogados.

Em última análise a realidade necessita ser filtrada não aos olhos da paixão e sim aos olhos de uma razão que liga os pontos da história (ou da memória).

Sem paixão, distante dos fatos, é que um momento é contado pela história.

O que aparentemente se encerra no dia de hoje, é apenas mais um capítulo na história da política brasileira.

Afundados em feudos hereditários de poder, não é qualquer tremor de terra que abalará Brasília.

Muito já se viu e já se ouviu falar sobre as falcatruas e peripécias desenvolvidas pelos seres humanos em busca de algo que é mais valioso do que o dinheiro.

Em nome do poder muito se faz, e não é de hoje.

De pecadilhos leves à crimes bárbaros, o poder busca se perpetuar em seu trono de outro e brilhantes.

Mas, o poder é arisco, logo se aprende isso.

No jogo infinito da vida, nem sempre quem ganha é quem leva pra casa o caneco (o dia de hoje está aí para não me deixar mentir).

Derrotados (mas nem tanto) de um lado.

Vitoriosos, mas com um retrogosto de derrota, de outro.

Entre um vinho capitalista caro e um charuto traficado dos companheiro do único país onde ainda perdura o socialismo no mundo, a política nacional de Brasília acerta os detalhes de uma queda de braço que parece não ter fim.

O mesmo Brasil que vaia jogos olímpicos, também vaia o poder e os poderosos.

A meritocracia para nós é sinônimo de nepotismo.

Nós, brasileiros, temos a síndrome do fã obscuro. Admiramos uma banda de música até que ela faça sucesso. A partir deste momento desgostamos das mesmas músicas, que antes nos emocionava, e acusamos a nossa (ex) banda preferia de se vender ao sistema.

É esse mesmo pensamento invertido que temos do poder.

A massa inocente baba enquanto a mídia fatia a realidade para servi-la fria (e insossa), em doses homeopáticas em horários (quase) rígidos, para acostumar nosso relógio biológico e embotar nossas mentes, carentes do exercício de pensar.

Como disse, o dia de hoje não trouxe consigo vitoriosos.

Quem acredita num golpe orquestrado pela esquerda (ou será direita?), está certo — o livro do Tuma Jr não nos deixa dúvidas quanto à esta possibilidade, ao contrário de seu intento inicial.

Quem acredita que é o impeachment é um mecanismo de controle do poder, um instrumento democrático, previsto na constituição e nas leis brasileiras, também está certo — não por outro motivo o Partido dos Trabalhadores pediu o impedimento de nada mais nada menos do que todos os presidentes eleitos, desde a democratização do poder.

Todos perdemos um pouco.

A roda da fortuna gira, as cartas do destino se embaralham, e os argumentos utilizados (e degravados) pelo mesmo PT que hoje se diz vítima de um golpe, na articulação política e manipulação da opinião pública buscando um eventual impedimento dos governantes da época (eleitos também pelo voto da maioria) poderiam ser utilizados agora para jogar por terra, de vez, a tese de GOLPE que o Partido dos Trabalhadores (e seus seguidores) tenta colar na realidade.

Mas, o poder é corporativo.

Sabe-se que em Brasília o tiro de misericórdia quase nunca é dado.

É necessário (e inteligente, diga-se de passagem) deixar margem para negociações futuras, quando os dados (e os astros) mudarem de posição.

Cassa-se o mandato, mas não os direitos políticos da ex-presidente.

A vida é dura, como bem disse Dilma em seu discurso de defesa.

Hoje ela aprendeu que o sistema não é tão bruto assim (ao menos em Brasília).


Ficha técnica:

Título: Assassinato de Reputações — Um Crime de Estado

Autor: Romeu Tuma Junior — em depoimento a Cláudio Tognolli

Publicação: 2013

Editora: Topbooks

Páginas: 395

Tipo de arquivo lido: epub

Avaliação:

sujeito à alteração, conforme variação de humor