O que ninguém te fala sobre a banalização do gênio

Brasileiro tem um relaxo negligente com a genialidade. Vou justificar a provocação. Basta o sujeito ter feito uma ou duas coisas de certa relevância e vamos logo o credenciando com a divindade. Mesmo que suas obras subsequentes tenham sido sem muito brio.

A banalização do genial é devastadora. Outro dia mesmo, estava numa mesa de amigos e de maneira reativa soltei uma dessas piadocas de improviso bem formuladas, um daqueles trocadilhos de palavras bastante ordinários e alguém foi logo exclamando: Isso foi genial.

Um minuto depois percebi que não havia absolutamente nada de genial quando coloca a minha anedota espontânea perto do Monty Python, por exemplo. A gente, que é brasileiro e tem sempre que uma certa obrigação moral de ter auto-estima, acaba caindo no truque do ego e perdendo-se de vista na vaidade.

Uma outra vez tropecei nesse mesmo golpe depois de escrever uma crônica corriqueira que me rendeu algumas horas rachando a cuca. “É simplesmente genial”, comentou um leitor. Naquela vez, até esbocei um sorriso sem suspeitar da falsa vanglória.

Na música, há um vício permanece com essa coisa de todo mundo ser gênio. Se o sujeito morre de repente então, é laureado mais rápido ainda. Se morte fosse ritual de genialidade, sobreviver é o quê?

Eu protesto que o sujeito seja considerado genial porque aprendeu a escrever letras que ninguém entende, uma sequência de parágrafos desencontrados para enganar general tapado, ou gente que acha que poesia é simplesmente dividir palavras. Real mente, realmente. Me poupe.

A vulgarização do gênio me incomoda porque ainda não nos demos conta de que muita gente não é genial, apenas tem acesso à internet. Eu me considero um desses.

Basta sacar o celular e em sete segundos sabemos quem é o presidente de algum país sem importância na América Central. Antes tínhamos que consultar os gênios de verdade que moravam dentro dos doze volumes da Barsa.

Morre um desses artistas de mono sucessos e carreiras meteóricas e é o suficiente para gerar uma comoção de 11 de Setembro, naqueles dias a educação e a paciência nas redes sociais e diante da programação das televisões ficam impraticáveis.

Eu gosto dos gênios rabugento tipo Allen. Ou como quando deram ao primeiro ministro inglês Churchill o prêmio Nobel de literatura, ele nem foi lá. Pediu que a esposa fosse e continuou em Londres provavelmente virando seus uísques, infectando a casa com o cheiro do seu charuto e pensando no que mais podia escrever.

Os intelectuais brasileiros não teriam esse garbo.

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