CRÔNICA — O Brasil é um ébrio vacilante

No que se trata de política, os brasileiros oscilam entre o pessimismo especulativo do mais clássico e a esperança teórica de um novo jesus, mas agora de terno negro e barba bem feita.

Não acredita? Ora, basta visitar qualquer conversa nos botecos políticos — você já deve ter notado que atualmente qualquer mesa de bar é palanque — , ou então, tente apenas passar por uma esquina de qualquer universidade nesse país e entoar uma discordância. A combustão ficará evidente e até perigosa.

Tem sempre um que enche os pulmões e vocifera: — “Brasileiro não sabe votar”. Obviamente, porque brasileiro vota com o estômago. Explico. Não estou falando de comida, mas de voto por necessidades particulares. O sujeito realiza campanha por qualquer um que abra uma nova vaga no SUS ou uma luz na praça do bairro. É o que chamo de eleitor do bucho cheio.

No hemisfério político paralelo estão os evangelizadores do novo messias salvador da boa política — que geralmente são vendidos como uma cura do câncer chamado corrupção — e vivem por aí profetizando boas novas ao País profanador da democracia e blasfemo da república. Normalmente, são jovens cheios de gás que ignoram o ceticismo prudente dos cabelos brancos. O novo messias é tudo que eles têm para acreditar. E cada ano surge um novo.

E, aqui, deixo uma pergunta: — Não seria a nossa política muito vira-lata para almejar um pedigree? Eis a verdade, meus caros: O brasileiro gosta de política popular. O que chamamos de política nova é apenas a política velha com novos marqueteiros. Somos um país que fura fila na padaria, mas se gaba por ser o melhor criador de memes do mundo.

Dizem que tudo é relativo, mas eu vos digo: O concreto é que o eleitor brasileiro é um cínico orgulhoso. Um votante fingido. Gostamos, quem sabe, de acreditar que a coisa um dia vai mudar e guardamos para nós mesmos qualquer desespero. Afinal, nós seremos sempre o povo da esperança. Ou melhor, o quase-país rico. A pátria que quase deu certo, mas não desiste.

E concluo sem querer: O brasileiro entende muito bem de política, mas o seu problema é amar ser do jeito que é. É um ébrio vacilante.

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