CRÔNICA — O que não te falam sobre o tipo de amor que encontramos hoje

Estamos amando de maneira muito diferente de nossos pais. Alguém, um dia, nos fez acreditar que está em vantagem aquela pessoa do relacionamento que tem a melhor habilidade para se importar menos. Aquele que tiver a melhor estratégia para manter uma aproximação emocional mínima recebe uma medalha moral de honra ao mérito.

Existe, nesta geração, uma espécie de vergonha bem característica em ser a pessoas interessada da coisa. Sei lá, por algum motivo inexplicável, não pega bem se importar com as pessoas que estamos nos relacionando. Agora, é chic ser independente. Alguém inventou isso e a gente acreditou sem ao menos desconfiar das intenções mais escondidas.

Hoje, é altamente recomendável não se importar demais. Ligar quando der vontade é proibido, demonstrar arrependimento e interesse é uma blasfêmia, confessar ao outro e ao mundo que não consegue mais pensar em outra coisa a não ser na pessoa amada é um atentado.

Estamos sempre com a sensação de que precisamos demonstrar o quão marrento podemos ser, criando uma olimpíadas de joguinhos psicológicos que forçam um cansaço tremendo.

É preciso fingir que nunca estamos disponíveis ou que alguém não pode ser a nossa prioridade de vez em quando. É como se todos, no fundo, soubessem que são carentes, mas precisassem atuar para mostrar o contrário. É um teatro dos sentimentos com fachada de sanidade.

O discurso do desapego é o mantra mais ridículo. É uma religião seguidas às cegas, ou melhor, uma seita que sacrifica o bom senso.

Você praticamente não saberá diferenciar quando uma pessoa quer realmente permanecer contigo ou quer apenas uma aventura de final de semana.

Elas demonstram intenção de aproximação, mas nunca tomam postura diante disso. Aliás, normalmente, tem muito medo de comprometer-se, mas até isso elas não escondem mais. Querem aproveitar o máximo, em menos tempo e com pouco desgaste emocional.

As redes sociais e os aplicativos de relacionamentos são uma mega-sena barata. Ninguém mais consegue manter um papo por mais de uma semana. E quando resulta em olho a olho, percebe-se que criou muitas expectativas além do comum.

Ligar e passar horas no telefone é um bicho em extinção. Tudo acontece online e por texto. Áudio no whatsapp só com muita boa vontade ou preguiça de mexer os dedos.

A enxurrada de “A gente marca”, “Nos falamos mais tarde”, “Não sei se quero isso agora”, “Talvez um dia…” é uma tempestade recorrente. Desenvolvemos a habilidade de esquecer intencionalmente uma história vivida juntos, e com elas, as pequenas conquistas mútuas. O importante, quando a coisa caminha para um embate, é dar no pé o mais rápido possível antes que surja qualquer sugestão de possível permanência.

Frases como “podemos nos conhecer” normalmente são encaradas com conotação sexual. Aprendemos a técnica do discurso inicial de autodepreciação para preparar o outro para quando pisarmos na bola, podermos ir embora sem culpa. Como se dissesse “Eu avisei antes, agora não venha me culpar”.

Temos a capacidade de ser viciados na nossa própria personalidade apenas para não ter que abrir mão de nada.

Usamos os signos para esconder canalhices. Gostamos de dizer que quando alguém nos conheceu sabia no que estava se metendo, mas nunca mostrarmos intenção de mudança.

Traição já nem é um crime passível de pena máxima. Elas acontecem o tempo todo e não importa quão comprometido sejam as partes. A nossa geração decidiu trair sem ter culpa, desde que não sejamos pegos em flagrante.

Estamos sempre preocupados como as pessoas podem nos ver, por isso, fazemos um esforço gigantesco para aparentar sucesso, dinheiro e saúde. Fizemos disso uma moeda que dá chance de entrar no mercado competitivo.

Temos um medo da rejeição, da indiferença e do abandono isso fez alguns de nós serem mais caras de pau que o normal, e outros, se prenderem em uma caverna de timidez intransponível.

Quando desistir de você, ninguém se sentirá na obrigação de lhe avisar olhando nos seus olhos o que aconteceu. Provavelmente não te darão uma razão palpável e sólida que faça algum sentido, serão apenas argumentos pessoais que você não poderá ter acesso e que não representam muita coisa.

Você terá que dar conta sozinho de si, daquele monte de perguntas que ficaram e outras que vão surgindo posteriormente sem que saiba por onde começar a buscar respostas e se precisa necessariamente mesmo achá-las. Você terá motivos para reclamar do amor, mas brotará sempre uma esperança restante como aquele último gole de Yakult.

Estamos amando de maneira muito diferente de nossos pais. Espero que nossos filhos sejam melhores que a gente nisso.

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