CRÔNICA — O que ninguém fala sobre a rejeição

Era idade escolar. Talvez terceira ou quarta-série. Lembro-me bem do cabelo curto estilo Channel, do sorriso acompanhado de bochechas fartas e dos olhos brilhantes e negros da Isa.

Num determinado dia, era apenas a garota das canetas coloridas, no outro, passei a vê-la como alguém que nunca poderia desagradar. Teve até uma vez que ousei elogiar a borracha japonesa que ganhou de um familiar numa tentativa de aproximação perigosa.

Eu não entendia muito sobre amor — e continuo nessa condição — , mas foi naquele ano que passei a me preocupar mais com a maneira como eu queria ser visto por ela,— aliás, suspeito que, o início de todo amor é quando o sujeito começa a se importar mais em não ser visto como uma bobalhão pela querida — afinal, ser vista com um palerma faz mal a alma feminina.

Alguns dias depois, recebi o convite de um colega para sua festa de aniversário — que naquela época aconteciam nas casas e sem luxo algum — e eu achei que esta seria uma oportunidade ideal para contar a ela sobre nosso romance. (o exagero é proposital já que a coisa tinha apenas uma via).

Fiquei sem jeito. Ensaiei. Dei um jeito de puxá-la pelo braço e desembuchei como quem toma depressa a vacina dolorida. Ela abriu um sorriso — dessa vez não mais o que eu aprendi a colecionar, mas um outro inédito e constrangido — , interrompeu-me cuidadosamente e disparou: — “Sabe o que é? Eu gosto do Gu”.

O Gustavo era meu melhor amigo. Eu perdia em uma tacada só as duas pessoas que mais gostava. Detestei-a por um minuto. Talvez dois. E também o coitado do Gu que nem sabia de nada.

A rejeição parecia ter apenas começado. Fiquei uns dias sem ir no tradicional futebol do recreio e passei a sentar duas cadeiras atrás dela. Nunca mais emprestei meu lápis de tabuada para nenhum dos dois.

Passou alguns dias, e não conseguia mais ficar sem eles. Era como se tivesse que aprender a lidar com a rejeição e tirar um lado bom disso. A Isa não era uma pessoa má porque não tinha obrigação de me amar e o Gu era apenas uma peça perdida nesse jogo. Entendi alí que a rejeição faz parte da vida, mas escolher enfrentá-la é a melhor coisa a se fazer.

Aqui, finalmente, a razão deste texto: O que não contam sobre a rejeição é que depois que tudo se acalma, que os ânimos se acomodam, você nota que aquilo que parecia ser fundamental em determinado momento torna-se uma história engraçada no futuro. Tudo passa, até a rejeição. Alguns precisam de ajuda nessa caminhada, outros conseguem sozinhos, mas tudo passa.

Contaram-me recentemente que a Isa casou e que o Gu namorou sério por muitos anos e tornou-se noivo pouco tempo atrás. Nunca tiveram nada juntos. Pelo menos que eu saiba. A coisa passou, e estamos todos vivos e bem.

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