CRÔNICA — DESCULPE POR NÃO SER TÃO SOCIAL ASSIM

Eu não sou muito fã de sair. Eu culpo a idade, mas eu sei que um jovem de vinte e tantos anos não tem esse direito. Eu sempre quero ficar em casa.

Na maioria das vezes, eu vou a algum lugar contando as horas para voltar. Parece que desaprendi a comemorar aniversários, ir a festas com amigos e reuniões familiares.

As pessoas vivem acreditando que nós, os nada sociáveis, somos arrogantes por causa disso. O mais interessante é que não temos apenas o dom de nos esquivar dos compromissos, mas também ganhamos uma alta criatividade para inventar desculpas. Tudo para ficar quietinho no seu próprio canto.

Depois que inventaram o Netflix a coisa só piorou. Estamos sempre de olho nos episódios não terminados, na crescente lista de filmes de interesse, na constante sensação de que temos algo para fazer em casa. Até uma louça pode ser desculpa, ainda que não lavemos. Dias de chuva são um bálsamo. Dor de cabeça, braço, ombro, costas, dente e ouvido são as mais frequentes. ”Estou cansado”, ainda que seja feriado.

Qualquer desculpa, mesmo que fraca, jamais deverá ser contestada. Toda pessoa não muito social encontra em sua vida um amigo que tenta resolver suas dificuldades.

Se você diz que tem que terminar um trabalho, ele diz que pode fazer outro horário. Se diz que não tem roupa para ir a uma festa, ele logo vira solícito em te emprestar. Se diz que está sem carro, ele lhe oferece uma carona. Sem dinheiro, ele paga. Sem parceiro, ele arruma. Sem fígado, ele marca um transplante.

O trabalho a terminar sempre é a melhor opção na falta de opção. É incontestável. Você diz que “precisa terminar umas coisas”, mas nunca diz quais são estas coisas. Flagrante.

Faltar em um evento não agride seu coração. Talvez os menos sociais não tenham um. Todo ser retraído sabe usar o modo avião para evitar ligações sem a menor culpa. Todo insociável não se sente na obrigação de responder mensagem no Whatsapp. Ele fala com a maior naturalidade: “Só vi depois que já era tarde para ir.” e no fundo comemora.

E quando ele acredita que foi um erro não estar em algum lugar, ele simplesmente finge que sua noite acanhada foi muito mais legal que o happy hour com os amigos da firma. E quando perguntam sobre porque você não foi — e sempre perguntam — a pessoa nada social sempre ensaiou alguma desculpa no caminho.

A única coisa que a pessoa nada popular pede é que não considere que ele se acha muito superior para frequentar grupos, rodas de chope ou baladas no sábado a noite. Ele simplesmente não nasceu para estar em todos os lugares.

Se você tem um amigo que sofre dessa doença da ausência, saiba que não há o que fazer. Afinal, mesmo que existisse uma delegacia ou sindicato dos antissociais, provavelmente não teria ninguém ali para registrar a queixa. Ame o desaparecido, apenas.

Para ler mais crônicas, acesse: O que eu aprendi sobre a vida

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