i. A necessidade de desprezar

micro contos sobre Les Rêveries du promeneur solitaire

Desde criança que eu sempre bati o relógio de pulso nas quinas das paredes, portas e tudo mais. Braços prepotentes fizeram de mim um solitário, um lone ranger, um lobo guará. Pode ser uma missão oculta ou uma vergonha, mas é o que me faz parecer autêntico e misterioso. Faz parecer antissocial também. Está na raiz do que me permite levar a vida sem ter que me explicar. Assim não tenho que justificar minha relação pessoal (solitária) com, por exemplo, o sofá da sala, nem com gostar de passear sozinho. Como se eu fosse Rousseau em sua contradição final. Aquela de ter que estar só para ser amado por todos. É uma solidão moral. É uma serenidade sofrida. A velha feiura humana de depender do carinho das pessoas sem ter que depender delas. O sonho infantil do super autossuficiente. Se os relógios ainda resistem, por que não eu?

Imagem de Genève onde Rousseau nasceu e morou (peguei na internet e não sei a fonte)