Mudando-se para San Francisco

Como é o processo de migração para os EUA


Prefácio

Vez ou outra me perguntam como é que vim parar em San Francisco, como é o processo de migração, como funciona o visto, entre outras coisas. Por esse motivo, resolvi compilar essas conversas que tive neste texto. Aqui explico desde como arrumei meu emprego até as burocracias envolvidas.

Lembre-se que esse texto é apenas informativo ou de curiosidade. Leis mudam e eu tampouco sou apto a dar conselhos em imigração, carreira, impostos e etc. Portanto faça sua própria pesquisa e tome as decisões por conta.

Os tópicos que cubro são:

  1. Como arrumei meu emprego
  2. O visto de trabalho (H-1B)
  3. A mudança
  4. O contrato de trabalho e benefícios

Como arrumei meu emprego

Desde quando era criança, sempre senti uma curiosidade por outros idiomas
e outras culturas. Igual a milhares de crianças de classe média, eu era
bombardeado pela mídia americana, e inevitavelmente abastecia a minha curiosidade.

Essa curiosidade só piorou quando me tornei adolescente e a exposição a outras culturas aumentou. Veio a internet e a tentativa de descobrir a minha linhagem, de onde vinha minha família e o meu nome. Somada a minha situação financeira (eu não tinha nem um centavo sequer), parecia surreal que um dia eu poderia sair do país para viajar. Nunca pensaria que iria viver em outro pais, não importasse qual.

Isso mudou quando um amigo meu, em um dia de trabalho qualquer, veio falar comigo em algum dia do ano de 2010: “Vini, vamos viajar para fora do Brasil? Precisa ser em maio do ano que vem, que é quando tiro férias”. Eu respondi, “vamos”. Agradeço muito a ele por ser uma pessoa decidida e que coloca os planos em prática, ao invés de ficar na conversa, como eu mesmo faço, e percebi como eu mesmo boicotava os meus planos, dificultando as coisas.

Mesmo as minhas condições financeiras naquele ano não serem favoráveis, percebi que o custo não era tão alto e que eu poderia arcar sem muitos danos.
Planejamos com antecedência, achamos hostels com bom custo-benefício,
parcelamos as passagens à perder de vista. Dia 30 de Abril de 2011, embarcamos com destino a Los Angeles.

No avião, era desesperador. Meu inglês não era muito ruim, mas apesar de
umas conversas aqui e ali, não sabia que conseguiria me virar adequadamente.
Não fazia a menor ideia de como me portar na polícia de imigração, o medo,
besta ou não, de ser deportado por falar alguma coisa fora do lugar. Eu, como
um bom caipira, não tinha a menor ideia do que iria acontecer.

Duas semanas depois, estava embarcando para Washington, em direção a Baltimore, para ir à RailsConf 2011, graças ao apoio da PlataformaTec, empresa que trabalhava na época. Depois de uma das noites mais tensas da minha vida, cheguei em Baltimore, e começou a RailsConf.

Nesses eventos técnicos, é comum haver um Job Board, uma parede em que
são postados anúncios de vagas. Era uma quantidade de vagas tão absurda que conclui: talvez o pensamento de que alguma empresa que queira importar um desenvolvedor do Brasil não fosse tão intangível assim. Peguei alguns cartões de algumas pessoas e voltei ao Brasil.

Não conseguia parar de pensar nisso. Será que valeria a pena, deixar a família
e amigos e ir morar nos EUA, sendo que eu não conhecia ninguém fora, largar uma carreira bem encaminhada no Brasil, morando perto da família e regado de bons amigos, rumo ao desconhecido? Essa é uma pergunta bem clichê na verdade, mas só sabe a resposta quem já passou por isso. Pensei que, no pior das hipóteses, eu ficaria um tempo e voltaria uma pessoa melhor, por isso decidi: vou mandar meu currículo e ver no que dá.

Poucas semanas depois comecei a conversar com algumas pessoas que tinham contatos com pessoas fora, e assim segui em troca de emails bem lentamente. Um contato a cada duas semanas, e assim foi. Depois chegaram as entrevistas.

Na grande maioria das entrevistas, eu fui mal, outras infelizmente não deram
certo por outros motivos e uma finalmente deu o OK: Pivotal Labs. Alguns meses depois, o visto ficou pronto, e eu estava com a passagem só de ida. Fui
completamente despreparado e sem dinheiro; numa quarta-feira peguei
o passaporte, sexta-feira estava no aeroporto, com hotel reservado apenas para o final de semana.

O visto de trabalho (H-1B)

Existem diversos vistos de trabalho nos EUA, como acordo de trabalho com o Canadá, visto de estudante que pode ser usado para trabalho, entre outros. Como conheço pouco desses outros vistos, cobrirei o mais comum entre trabalhadores internacionais, o visto H-1B.

Iniciando o processo

Conseguir o visto é bastante complicado. Você já tem que ter a oferta de emprego assinada por você e pelo seu empregador, ou seja, você tem ter já a oferta salarial, prazos de início de trabalho e etc. Com o emprego garantido, o seu empregador irá submeter uma petição ao governo americano para patrocinar (sponsor) o seu visto. Os advogados do seu empregador, ou uma empresa contratada para isso, irá pedir muitos documentos, como por exemplo:

  • Diploma: O visto de trabalhador requer um diploma na área em que você está sendo contratado e um auditor independente confirmando a competência de sua universidade e curso. Se você trabalha na área mas não possui o diploma, o processo fica mais difícil.
  • Histórico escolar: Histórico de suas notas na faculdade, para cada disciplina;

Esses documentos podem variar dependendo da empresa/advogado que está fazendo o processo. O meu processo incluiu, por exemplo, uma verificação de antecedentes criminais. Todo esse processo deverá ser pago pela empresa, e não pelo empregado. O único trabalho que o empregado deverá fazer é levantar toda a documentação envolvida (que pode ocasionalmente gerar custos a serem absorvidos pelo empregado). Isso inclusive está na lei para esse visto, se você for obrigado a pagar alguma coisa, a empresa está de má fé.

Além disso, todo esse processo só pode ser feito em seu país de origem. Ou seja, vir aos Estados Unidos como turista para tentar arrumar emprego não ajuda muito. Vale vir conhecer e conversar com pessoas, mas no final, você deverá iniciar o processo em seu país de origem.

Enfim, toda a documentação é colocada no dossiê a ser enviado junto com a petição. Todos os custos são informados e você deverá ter acesso a toda a documentação. É importantíssimo que você acompanhe todos os processos e tenha acesso a documentação.

Submetendo a petição

Uma vez a petição preparada, ela será submetida ao governo americano pelo empregador. Porém, todo ano, o governo americano libera apenas um lote limitado de vistos, ou seja, existe um número finito de H-1Bs por ano, que são liberados em março, de forma que os vistos fiquem prontos em outubro do mesmo ano. Assim, há a possibilidade dos vistos acabarem e o processo fique empacado para o ano seguinte.

Se ainda há cotas e a petição do seu visto foi submetido com sucesso, há um processo em que o USCIS (United States Citizenship and Immigration Services) irá fazer que irá checar o seu processo, a empresa que está submetendo a petição e a validade de tudo isso. A razão é que vistos H-1B são vistos de trabalhadores excepcionais, ou seja, a empresa tem que provar que voce é qualificado e que não há trabalhadores locais que possam preencher a vaga (porém é um processo menos formal que o do Green Card).

Esse processo pode demorar bastante, dependendo se a sua aplicação for expedited, ou seja, uma taxa extra foi paga para dar prioridade ao seu processo. No fim, se sua petição foi aprovada, você receberá um documento oficial do governo americano com o número da petição. Quem fez sua petição também deverá enviar todos os documentos envolvidos no processo. É importante guardar todos esses documentos, pois você precisará dele no passo seguinte. Note que a aprovação da petição ainda não é o visto, que será obtido no passo seguinte.

Colando o visto no passaporte

O passo seguinte é colar o visto no passaporte. Esse passo é bem parecido com o visto de turista, mas as taxas são bem mais salgadas. Você tem que preencher o famigerado DS-160 e fazer todo o procedimento descrito no site da embaixada americana, marcando entrevistas, coletar as impressões digitais, fotos, entre outras coisas, como descrito no processo.

No dia da entrevista da embaixada, é muito importante levar todo o dossiê que você deve ter recebido e, mais importante ainda, leve a petição original. Por fim, leve dólares ou um cartão de crédito internacional. Não me lembro bem quanto é o valor, mas você tem que pagar uma taxa do visto lá no consulado. O valor é entre USD $100 a USD $150, mas verifique com antecedência.

Características do visto

Vínculo com o empregador: O visto está diretamente vinculado ao empregador. Portanto, se você pedir demissão ou for demitido, seu visto será invalidado, ou seja, você não mais está com status de imigração nos Estados Unidos. Porém, é possível pedir a transferência do visto para outro empregador. O processo é muito mais simples do que a aplicação de um novo visto e não há limites de quando isso pode acontecer, já que seu visto já está alocado a você. Além disso, você já pode trabalhar para o novo empregador (conhecido como ato AC21) assim que o processo de transferência for reconhecido no USCIS (ou seja, quando você obtiver o número do processo).

Green Card: O H-1B é um dos poucos vistos americanos que podem ser transformados em Green Card. Para esse processo acontecer, a burocracia é muito maior, e deve ser feito pela empresa. Esse processo pode demorar em média 5 anos, e involve processos como publicação de uma vaga de emprego e provar ao governo americano que ninguém além de você seja capaz de fazer este trabalho.

O meu processo

O meu processo como um todo foi excepcional e acabou demorando bastante. Eu assinei a proposta de trabalho em Julho de 2011 e o processo do visto começou logo em seguida. A intenção era que eu começasse a trabalhar em outubro, quando os vistos H-1B são liberados. Porém, o meu visto entrou em segunda análise, demorando ainda mais para sair o resultado, que só saiu em dezembro, e o visto foi recusado.

A empresa entrou com um apelo, que não tinha tempo determinado para ser avaliado. A petição foi enfim aprovada em março de 2012, e então eu comecei os procedimentos de embaixada. Finalmente, cheguei aos EUA em maio de 2012.

A mudança

Depois do visto estampado e o processo todo terminado, ainda não há garantias que você poderá entrar nos Estados Unidos. A última etapa é quando você desembarca no país e vai fazer o processo de entrada no Border Control no aeroporto, mas esse processo costuma ser tranquilo. Basta você seguir as instruções do oficial, ou seja, apresente os documentos que ele pedir e responda às suas perguntas. Por essa razão, é muito importante não colocar os documentos que você pode precisar no processo de entrada em malas despachadas, leve sempre consigo.

Existem alguns conceitos muito importantes que pouca gente sabe até quando chega no país e que, quanto mais cedo você souber, melhor.

SSN

O SSN é o equivalente literal do CPF, ou seja, é o seu identificador de tudo relacionado a impostos e a sua identidade. Logo que você chegar no país, você deve localizar a Social Security Administration mais próxima de você. Existe um boato de que você deve esperar de uma a duas semanas após sua chegada no país para aplicar pelo SSN, mas não posso confirmar essa informação, portanto pergunte ao seu empregador ou procure se informar.

O SSN, diferente do CPF, deve ser guardado com extremo cuidado. Com esse número é possível forjar identidade, portanto nunca digite ou ande com esse número em sua carteira. Ele deve ser usado apenas em abertura de contas em bancos, aplicação para seguros, etc.

Credit Score

O Credit Score rege nos EUA. Ele é um valor que indica o seu status como devedor, ou seja, se você é bom pagador de suas dívidas. O mais irônico disso tudo é que, se você nunca deveu, você não tem um credit score, portanto você não consegue fazer quase nada que envolve pagamentos posteriores.

O problema é que quase tudo que você quer fazer quando chega no país precisa de credit score. Por exemplo, cartões de crédito, celulares pós-pago, aluguel de casa, taxas para comprar carro, entre outras coisas. O que acontece é que, quando você não tem credit score, as instituições pedem um cheque de depósito. Por exemplo, quando fui à AT&T abrir uma conta, eles pediram um depósito de USD$600. Para quem acaba de chegar ao país, qualquer centavo faz diferença. Então esqueça o iPhone novo por USD $200 quando chegar no país!

É importante construir seu crédito o mais cedo possível, pois isso abrirá muitas portas. Por exemplo, com bom crédito você consegue cartões de créditos melhores (menores taxas e mais vantagens), além de não precisar de depósito para abrir contas pós-pagas e melhorará suas chances de alugar uma casa (muito importante para cidades competitivas como New York ou San Francisco).

Há muitos detalhes em Credit Score que pode ser lido online, portanto é importante fazer uma busca de como construir e como mantê-lo alto.

Impostos

Os impostos nos EUA são divididos em impostos nacionais e impostos estaduais. A Califórnia, por exemplo, é de até 12%. Juntando com o imposto nacional, o imposto de renda acaba se tornando maior do que no Brasil. Além disso, outro imposto que é frequente é o imposto de venda. Todos os produtos possuem seus preços marcados com o preço pré-impostos e, no caixa, os impostos são adicionados. Alguns estados, como Oregon, não possuem impostos de venda (se tornando portanto os melhores estados para comprar muamba!). A Califórnia possui Sales Tax de 8,6%.

Tipping

Diferente dos 10% obrigatórios de gorjeta nos estabelecimentos brasileiros, nos Estados Unidos é muito comum deixar a gorjeta a critério do consumidor. E realmente os consumidores usam a gorjeta como forma de expressão. Como a taxa é variável (12-15% em muitos lugares, na Califórnia, entre 15-20% da conta total), colocar pouca gorjeta é diretamente associado com atendimento ruim. Muitas pessoas, quando ficam muito felizes com o atendimento, colocam até mais do que 20%. É possível também escrever coisas na nota, quando o atendimento é surpreendente, os atendentes leem e muitas vezes até guardam para si.

O problema é: onde você deve dar gorjetas? Essa é uma questão comum até em americanos — é um sistema cujo conhecimento é implícito e fica difícil de determinar. Normalmente a regra é: se uma pessoa trabalha em uma empresa e o serviço dela é pessoal, como por exemplo, garçons em restaurantes, gorjetas são bem vindas. Outro lugar comum a se dar gorjetas são taxis. Porém, se você está comprando a comida em balcão, seja pra takeout ou restaurantes do tipo fast-food, gorjetas normalmente não são dadas.

O contrato de trabalho e benefícios

Diferente do Brasil e da desatualizada CLT, existem poucas leis que governam o contrato de trabalho. Por exemplo, uma empresa não é obrigatória a dar férias. É comum, porém, empresas modernas a darem férias, planos de saúde (dental, saúde e vista) e outros benefícios. Dessa forma, tome cuidado e leia com atenção o seu contrato de trabalho para ver o que você tem de direito e não assuma nada — sempre pergunte, para tomar a melhor decisão.

Planos de saúde

Assunto polêmico e é decisão pessoal determinar qual tipo de plano de saúde que você quer, mas o agravante é que, nos EUA, existem pelo menos dois tipos de plano de saúde, além do MediCare: PPO e HMO. O PPO, ou Preferred Provider Organization, que é bem similar ao que existe no Brasil, em contrapartida que o HMO, ou Health Maintenance Organization, é uma empresa onde os médicos, hospitais e até farmácia são da empresa.

Planos de saúde nos Estados Unidos são complicados e caros, portanto é muito importante que, se tiver família, leia as letras miúdas e os tipos de allowances que você pode fazer para gastar menos dinheiro com saúde. O sistema médico americano é polêmico, portanto se informe e leia todas as letras miúdas e por fim lembre-se do copay e franquia, que podem te surpreender como a mim quando tive que usar um hospital pela primeira vez.

Transporte

Transporte normalmente é um benefício que depende de cada cidade. O que acontece é que a empresa pode alocar uma fatia do seu salário para que você gaste em benefícios de transporte pre-tax, ou seja, antes do imposto de renda.


Esse texto é baseado na minha experiência pessoal, e espero que tenha esclarecido dúvidas ou satisfeito sua curiosidade. Fique a vontade para mandar perguntas e convido-o a enviar sua própria experiência na coleção “O Recomeço”.