S02E01 — Edwyn

LINK: Escute a leitura no Soundcloud, clique aqui.

Ontem certamente foi o dia mais esperado até agora neste ano, desde que fomos obrigados a assumir essa insana missão que nos trouxe de volta a Essos. Finalmente encontramos o filho de meu irmão. O sacerdote tinha certeza que o encontraríamos em uma das arenas, e estava certo. Por via do acaso, não pelo fogo.

Nós assistimos por dez denares. O rapaz, raptado e escravizado, lutou bravamente — e com muita técnica — contra uma dúzia de balistas, porém foram suas ordens claras — ouvidas até mesmo na distância em que nos encontrávamos- que quebraram os fundíbulos e ganharam a luta.

Logo em seguida, fomos atrás do homem que havia comprado Daronn: Mestre Balaquo Kahrram. Um homem nada difícil encontrar, sua fama é quase um rastro que leva até seu palácio, o antro de seu poder. Uma imponente construção na parte alta e mais limpa de Astapor, longe o suficiente dos pobres e ‘fortuitamente’ próxima dos ricos. Entramos em sua casa onírica, mas não sem antes sermos revistados e acompanhados por dúzias de lanceiros imaculados. Guarnecidos pela minha insistência em permanecer armado. Já sabíamos tudo sobre ele.

Mestre Balaquo Kahrram

Momentos antes de encontrar o sujeito, Jared pediu que eu ficasse calado na tentativa de evitar qualquer suspeita, no entanto, o Mestre era receoso por natureza e me fez uma série de perguntas as quais consegui responder com frieza. Afinal, o sacerdote trapaceou, afirmando ter vindo comprar seu escravo para uso em sua crença. “Ele é um escolhido de Rh’llor, não pode lutar em uma arena para a diversão alheia” Jared alegou, colocando sob a mesa, a coroa que o Lorde enviara para pagar pela liberdade de seu filho.

Aquela coroa parecia tentadora até a mim. Digna de um imperador como este mundo não vê a milênios, desde a Perdição de Valyria. Como ela foi parar nas mãos de meu irmão? Nem ele, nem o Sacerdote me disseram. O Mestre também suspirou ao olhar para tal relíquia. Todavia, como um verdadeiro negociante que parece ter conquistado seu palácio tijolo por tijolo, exigiu um preço maior por seu campeão. “A coroa paga o escravo, mas apenas quando ele vencer suas vinte lutas. A menos que…” ele deixou soar para ser interrompido, Jared interrompeu da maneira esperada e aqui estamos: Presos na Arcada dos Campeões, dentro de sua fortaleza.

O mestre prometeu: “Apenas mais uma luta.” Em troca dessa condição, lutaremos também. “Nunca apostaria minha fortuna toda em cima de um mero lutador, mas três? Aí temos um trato.” Balaquo afirmou de maneira venenosa após nos avaliar como se não tivéssemos vida e vontade próprias. Assim, ele ganharia em uma luta, a soma das apostas das próximas dez. Contudo, o risco de vida seria iminente. Mas desde que deixamos Westeros no horizonte atrás de nós, o risco de vida é iminente.

Quando encontramos com Daronn, percebi que seus olhos nos miraram como inimigos de tão acostumado a violência. Será que ainda existe um herdeiro dentro deste corpo? Apenas quando Jared entregou a carta de Belick, ele afrouxou os punhos e relaxou o semblante para dar lugar a silenciosas lágrimas. Só há morte em seu passado.

Depois disso, o herdeiro logo ‘acordou’. Percebeu que se tratava de seus salvadores, mas nos tratou com desprezo, ao menos à mim. Talvez esperasse por um exército salvador, talvez apenas esperasse mais. Então Daronn começou a perguntar sobre seus parentes — agora distantes. Jared soube lidar com a ansiedade de Daronn até certo ponto, pois quando revelou sobre a morte de seu irmão Edric, o herdeiro enfureceu-se e nos expulsou de seu pequeno e escurecido aposento. Então, respeitando a dor de Daronn, eu e Jared subimos, mas a Arcada dos Campeões já estava trancada e tivemos que dormir naquela torre isolada do palácio. Tão prisioneiros quanto Daronn.

Na manhã seguinte, descobrimos que não seria tão fácil enganar Balaquo e tirar Daronn dali. Um imaculado nos acordou de maneira agressiva e nos ordenou que o seguisse em sua língua estranha, que Jared como sempre, entendia. Fomos acompanhados até a ‘sala do trono’ de Balaquo onde ele ostentava sua riqueza e posição através de tapeçarias exóticas, consortes exuberantes, contatos influentes de Astapor e principalmente: sua cara feia de quem não gosta de ser enganado. Daronn estava diante dele — a frente de nós — e parecia já ter entregado nossa mentira, então, quando nos aproximamos, Balaquo perguntou: “Sacerdote, perguntei a meu Escravo Daronn se ele havia rezado antes de deitar-se noite passada. Ele continua tão descrente e insensível como sempre. Será mesmo que seu Deus o escolheu? Será que vocês vencerão os tigres do Alto-Mestre Ontharys que aposta contra mim?” E ainda com um pouco de sono em sua voz, Jared respondeu gesticulando na direção de Daronn: “Certamente venceremos. Afinal, também temos um tigre de verdade do nosso lado.”

Eu percebi a gafe que Jared tinha cometido no mesmo instante, entretanto, o olhar furioso de Balaquo provava que eu não era o único. Frustrado perante seu filho -que sentava-se ao seu lado — o Mestre engrossou o tom de voz e começou a interroga-los. — Não à mim, mantive-me distante, com as costas coladas na parede quente do salão, ao lado dos silenciosos imaculados e atento como eles.

“Não vejo tigre nenhum entre meus campeões. Por acaso você está omitindo algo sobre seu interesse de compra em meu escravo, Sacerdote Vermelho? Está mentindo pra mim em meu salão, diante de meus homens? Não plante esta semente falsa aqui.” Balaquo falava de um jeito como se soubesse de toda a verdade, tanto que Daronn engasgou em sua frase e disse: “Mestre, como eu lhe falei antes… Este homem não sabe o que diz.” O olhar do mestre enraivou-se mais ainda na direção de Jared, no entanto, era o olhar do filho que clamava por puni-lo.

O que quis dizer, é que vi Daronn lutar contra tigres nas chamas e ele me parecia tão voraz quanto um na luta, Mestre Balaquo.” O sacerdote tentou ‘sair pela culatra’. — E quase conseguiu, talvez tenha atingido a crença errada do homem certo. — Acredito eu, pois o Mestre disse em seguida: “Então você realmente vê o futuro nas chamas? Eu gostaria de saber o futuro do grande Mestre Balaquo. Mas eu sinto que há algo sendo escondido de mim por um sacerdote que se julga esperto.”

Meu caro mestre, nós lutaremos bravamente contra seus inimigos, sejam tigres ou lanceiros. Venceremos hoje em seu nome.” Fora Daronn quem finalmente disse o que o seu mestre queria ouvir. Jared ainda somou ousadamente: “Certamente seus escravos não escondem nada de Mestre Balaquo, pois ele tem interesses muito maiores do que a vida de seus escravos. É como rabanetes conspirando contra seus fazendeiros… Nunca se viu.”

Talvez Mestre Kahrram saboreasse o gosto de rabanetes, pois sua risada ecoou e com ela, outras risadas da bancada superior, repleta de bajuladores anônimos -para nós. Pondo fim à todo interrogatório. Algumas horas depois e estávamos novamente na Arena de Jothiel, mas desta vez, não pra assistir e sim para participar da batalha. Fomos presos por grilhões no pé, enquanto aguardávamos a nossa vez de comer e lutar. Ao menos, houve tempo o suficiente para refletir no caminho. Impedidos, calados e atentos, ficamos aguardando nossa vez. Em meio ao escaldante calor do fosso da arena, uma música alta invadiu o fosso vindo das areias de luta. O estilo da música me agradava por ser acelerado e divertido, então resolvi contemplar o ocorrido. Não havia luta. Tratavam-se de seres bizarros vestidos em roupas macabras, repletas de penas negras e brancas, que saltitavam e cantavam como loucos — afinados — enquanto limpavam as areias, recolhendo os corpos, cabeças, tripas, membros e até suas armas, armaduras, capacetes… Tudo parecia estar sendo removido com leveza e cantoria, mas era caótico e sinistro ao mesmo tempo.

Com movimentos naturais eles começaram a fazer malabares com braços e cabeças, respingando sangue no povão e dando um novo tom aos seus corpos coloridos e emplumados, o rubro dos mortos. A plateia acompanhava e ria do ‘espetáculo’, batendo palmas e alguns até mesmo dançavam, acompanhando os acrobatas abutres. Uma anciã parecia conversar e rir com uma cabeça decapitada enquanto corria pela arena imitando uma galinha, quatro pessoas pegaram um corpo, agarrando suas pernas e braços e brincaram de ciranda, outros já agarravam corpos ensanguentados e dançavam ao ritmo da música como se fossem um casal de recém casados, o espetáculo macabro se seguia com imitações doentias do cotidiano em que os mortos sempre faziam papeis de tolos.

A apresentação lá em cima acabou. A areia estava limpa e os abutres mais ricos.Chegou a nossa vez. Apesar de inacreditável, esse espetáculo não foi o mais marcante da manhã. As palavras pronunciadas por meu sobrinho Daronn antes da luta marcaram profundamente o momento antes de entrar na arena — Eu nunca as esquecerei:

Hoje, venho até vocês, mas não como um comandante e sim como um amigo, não como um deus, mas com respeito. Não como família e sim como tigre, não como escravo e sim como um homem livre. Hoje entraremos nessa arena e lutaremos até a morte. Então, ouçam minhas palavras com atenção, pois é a melhor chance que vocês tem de se manterem vivos. Sigam minhas ordens sem questionar e irão obter a vitória porque a partir do momento em pisarmos na arena não importará de onde viemos, a quem servimos ou quem são nossos pais, pois se morrermos lá… Seremos lembrados como o que realmente somos ao entrar. Somos gladiadores, homens! Lutamos por nossas vidas antes de qualquer coisa e se vocês tiverem o instinto com vocês, a vitória será nossa! POR QUE O IMPETO É NOSSO!”

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.