S02E04 — Edwyn

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As nuvens no céu antecipavam a noite astapori. De repente, nos paramos — não no ponto mais escuro de nosso trajeto, diga-se de passagem. Nós já havíamos parado três vezes devido ao trânsito, mas desta vez, ocorrera algo fora do comum. Uma gritaria se iniciou lá na frente em alto e bom som. É a voz de Daronn, eles falam o idioma comum. Eu percebi, mas não consegui decifrar o que estava sendo dito. Uma música soava num bar próximo, as pessoas berravam para conversar e o ferimento me desconcentrava. Gritei: “O que houve?! A retaguarda não está conseguindo ouvir…”

Na verdade, a ‘retaguarda’ era composta por cinco Imaculados e seus mórbidos olhares através do capacete. Eles tiveram ordem de me matar caso eu saia da gaiola. Havia também um escravo careca recém-comprado que não ficava quieto desde que partimos da Arena. “Ygridish… Ygridish…” rogava enquanto colhia qualquer esmola que podia. A situação do careca era pior que a minha: Estava acorrentado pelo pescoço na traseira da carroça e de tempos em tempos, um mercenário cuspia nele de lá de dentro, ordenando que ele ficasse quieto. Todavia, isso não bastava para calar o homem. “Ygridish… Ygridish…” Acho que significa ‘Misericórdia’ no Valyriano.

Repentinamente, uma gritaria começou na frente do comboio. A introdução da canção do combate. Olhei para minha canela e analisei meu ferimento… Não posso lutar… A costura era frouxa, um pedaço de minha pele ameaçava soltar-se. Fechei novamente o curativo. O aço começou a cantar em trovoadas e a gritaria aumentou. Os besteiros em cima da carroça carregaram as bestas. Gritei:”Daronn! Jared! O que está havendo?!” Mais uma vez, não houve resposta.”Sepulcro!” Apelei, mas ninguém respondia — Maldição! Estou impotente. Quando me levantei na gaiola, os Imaculados levantaram a lança em minha direção — Eles não sairão daqui sem uma ordem — Tentei observar o combate, mas tudo que vi fora um besteiro ser alvejado por uma faca na altura do pescoço e cair moribundo embaixo da carroça. O cheiro de sangue não veio só a mim, mas também aos cavalos, que agitaram-se. Agarrei-me as grades. Certas vezes, gostaria de ter um escudo. Quando os Imaculados que cercavam minha saída finalmente deram atenção a frente, uma patrulha de guardas vinha atrás de nós pela avenida de carroças.

Os cavalos arrancaram de supetão para cima do bar, quase que a carroça vira ao atropelar as pessoas. Dois besteiros caíram, ferindo-se gravemente. A gaiola também quase virou, mas usei meu peso para equilibrá-la, apesar de tonto com a força súbita da arrancada. “Dovagedhis! Oslók Idvenceeee!!” Perzo ordenou e meus carcereiros esqueceram-me por completo. Saquei Fulgor Sombrio — Minha espada é a lua desta noite nublada, guie-me nas sombras! Arrastei-me para fora da ‘prisão’ rapidamente e busquei um refúgio diante de todo aquele caos. Eu me preocupava com Daronn, mas sequer compreendi o que estava acontecendo, precisava encontrar-me. A primeira porta a minha frente, estava aberta, para minha sorte. Ou não…

A varanda estava bem conservada e organizada, mas lá dentro, as sombras traziam um cheiro de podridão e o interior estava completamente zoneado. Vacilei diante das trevas à minha frente, no entanto, os gritos da morte ecoavam alto lá fora, assim como as trombetas dos guardas… E uma luz… Uma luz no fundo do aposento me guiou. Fechei a porta atrás de mim… Ainda assim, o silêncio não veio. Pisei numa poça de sangue e logo vi um corpo. O que aconteceu aqui? Um crime, certamente. Uma criança fora a vítima, mas não a única. Caminhei em direção a luz e logo cheguei numa escada. Saí dali com alguma dificuldade, pois uma voz chamava-me: “Ed… Ed… Volte… Volte…” — Seria a voz de meu pai? Algo me dizia que sim, mas Fulgor Sombrio é capaz de matar até o que já está morto. Restava saber se eu era capaz de matar meu próprio pai… Não fiquei pra descobrir.

No terraço, pude respirei melhor. Minha perna estava toda dormente, mas ainda sobrava força. Perdi muito sangue correndo até aqui. Percebi a rubra mancha na atadura. Fui até a sacada e observei a guerra que ocorria lá embaixo, procurando por meu sobrinho ou por Jared Vermelho.

Homens, vestidos de negro e rostos tapados por máscaras de pano no mesmo tom, estavam atacando o comboio de Perzo. Pelas facas em suas cinturas, eu já sabia que um deles havia matado aquele besteiro. Contudo, haviam duas frentes contra a comitiva do filho de Balaquo. Não eram só todos aqueles guerreiros negros, também haviam os carmesins. Soldados que trajavam armaduras e capas, muito similar as usadas nos Sete Reinos, impediam a passagem do comboio pela ponte de madeira. Ali, a batalha amontoava-se sob corpos mortos e muito sangue.

Os poucos mercenários que vi, fugiam junto de Benny Onze Unhas… Os últimos besteiros vivos, também colocaram-se em retirada. Restava os poderosos Imaculados para proteger Perzo, e claro, a guarda da cidade. A carroça já estava virada, percebi Sepulcro fugindo do confronto como eu fugira. Mancara em direção a casa ao lado de onde eu estava. Assobiei e gritei: “Sepulcro! Onde está Daronn?!” Ele ouviu e me olhou em pânico, mas não respondeu e entrou no casebre. — Respeite-me, ou arrancarei seu outro pé, arqueiro.

Sim, diante de toda aquela balbúrdia, o ódio pairava sob meu espírito. Me deixaram para trás com o manco. A mordida do tigre ardeu só para lembrar-me que eu estava manco também. O inferno continuava a incendiar a avenida lá embaixo. Guardas, Imaculados, assassinos e inimigos digladiavam-se com fúria sob ordens de seus comandantes. Todavia, Perzo calara-se ao ser agarrado, e apesar de exímios combatentes, os Imaculados não eram nada sem um exímio comandante, sendo assim, acabaram permitindo a queda do filho de Balaquo sem ver. Agoniado por não encontrar meu sobrinho no tumulto lá embaixo, resolvi subir mais ainda.

Entrei numa especie de sótão, onde encontrei vários tipos de munição, inclusive as facas de arremesso que estavam sendo usadas contra nós. Vim para direto na tocaia do inimigo. Tomara que eles retornem por aqui, farei questão de levar estes covardes a justiça. Subi até o último nível e finalmente a canção da batalha ficou mais baixa e consegui me concentrar melhor. Assim, encontrei Daronn. Ele estava apertando a mão de Sepulcro em cima do casebre vizinho, e ao lado de Jared.Enquanto eu estou sozinho e ferido aqui… Somos ou não somos um grupo, sacerdote? Entretanto, o ódio em meu âmago já cessara, e desci em direção a eles. Ainda que houvesse um vão entre nós, eu preciso da ajuda deles, e eles da minha — Daronn sequer carregava uma espada.

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