Mais uma vez, a vida e o cinema

Editorial

Cidadão Kane

O cinema não é a mais antiga expressão artística do ser humano mas, certamente, é uma das mais completas. Afinal, é sobre possibilidades. É possível fazer, em um só filme, referências às pinturas clássicas, à literatura, à música, ao teatro, àquela situação desconfortável que todos já passaram em algum momento, ao amor que queima e depois morre, à risada, à tristeza, à morte. A montagem nos permite brincar com a ordem cronológica e criar uma lógica totalmente nova para a narrativa. Podemos, também, usar e abusar das cores. E essas paletas não precisam permanecer iguais por toda a obra, podem ser manipuladas para traduzir os sentimentos intencionados pelas cenas. Ah, e os enquadramentos? O modo como a câmera é posicionada, o que entra, o que sai — tudo isso influencia na interpretação do espectador. As imagens, os sons, as iluminações, os efeitos especiais, os diálogos, o silêncio… Cinema é sobre contar histórias, sobre encantar e incomodar, criticar e enaltecer: o cinema é sobre a vida.

Para falar da sétima arte, precisamos voltar um pouquinho. Uma das primeiras exibições de um filme (de que se tem notícias) ocorreu em 1895, por meio do cinematógrafo dos Irmãos Lumière. A película era A chegada do trem na estação e não tinha muita história, era apenas alguns segundos da ação prometida no título. Uma versão muito conhecida desse episódio é que, durante a exibição do filme, as pessoas ficaram tão assustadas diante da imagem de um trem se aproximando que correram das tendas de projeção. Ninguém tem provas dessa anedota, no entanto, podemos imaginar a surpresa das pessoas ao assistirem, pela primeira vez, uma sequência de imagens em movimento. Até então, as pessoas só tinham acesso à imagem na estática da pintura, do desenho e da fotografia.

Dziga Vertov: O homem com a câmera

Até chegar ao cinema que conhecemos hoje, foi muito caminho andado. Não falaremos das diversas fases do cinema brasileiro e mundial, mas é importante destacar que a linguagem cinematográfica não foi sempre assim. Para aprender qualquer língua é necessário começar do básico para, então, ser possível se comunicar (por diálogos, pela escrita, pela arte etc). Com o cinema não foi diferente. Começamos com filmagens simples — banais agora, mas preciosas para a época (como Empregados deixando a Fábrica Lumière) — que evoluíram para narrativas simples (como O Grande Roubo do Trem). Depois que os movimentos de câmera foram desenvolvidos, a montagem aprimorada, e os efeitos especiais descobertos, as narrativas tornaram-se mais complexas e o público desenvolveu a linguagem cinematográfica. A partir do começo aparentemente simples, grandes obras surgiram e marcaram gêneros, estilos e épocas. Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, não seria possível sem a A viagem à lua (1902), de George Méliès. Tampouco Tarantino seria o mesmo sem os clássicos faroestes, ou Glauber Rocha sem as influências da Nouvelle Vague francesa e do Neorrealismo italiano.

Portanto, como qualquer outra linguagem, o cinema depende de aprendizados básicos para tornar-se complexo e, então, poder subverter os paradigmas já estabelecidos e fundar novas maneiras de expressar uma mesma forma de arte.

O cinema é uma colagem de inúmeras influências acumuladas ao longo da vida. Um diretor precisa de referências para traduzir suas experiências em sequências de imagens; um espectador precisa de referências para interpretar as mensagens expressadas nos filmes. No final das contas, cinema é sobre viver e procurar formas de materializar pensamentos, experiências e personalidades em obras que possam se conectar com o público e ajudá-lo no difícil processo do viver humano.

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