O Contador de Histórias: uma história escrita através de outras

A imaginação faz um paralelo entre o mundo real e a fantasia. É através dessa análise que conseguimos ver a vida passar em uma tela enorme em nossa frente, um roteiro da nossa realidade que toca em nossa emoções dando vozes aos nossos sentimentos.

Baseado em fatos reais, O contador de histórias é uma biografia que trata da emocionante narrativa das experiências de Roberto Carlos Ramos enquanto morador de uma entidade governamental e sua superação de vida ao longo dessa trajetória. Ele conta a sua história com a intenção de mostrar a realidade desses abrigos no Brasil e como sobreviveu ao abandono familiar.

O trailer a seguir mostra um pouco da História contada por ele. Como tinha dificuldade de aprendizado, foi obrigado a aprender as regras de sobrevivência do novo ambiente em que foi inserido.

O diretor Luiz villaça decidiu produzir o filme depois de ler um livro que pertencia ao seu filho de 11 anos de idade. Ele procurou saber mais sobre a história de vida do autor, que constava na contracapa do livro, a qual se tratava de um menino considerado irrecuperável pelos educadores e psicólogos da instituição que, mais tarde, se tornou um professor respeitável a partir da primeira chance que teve de mudar sua história.

A interessante perspectiva do diretor para criação de cenas, as quais marcaram a vida de Roberto, é contada pela ficção relatando a inocência e a imaginação fértil de uma criança a ponto de mudar a realidade cruel em que vivia.

Alguns fatores contribuíram para realizar os efeitos cinematográficos das cenas: as explorações cromáticas das imagens como estratégica usada para delinear os limites da vida da criança na favela e a privação da liberdade entre os muros da instituição. Atualizam-se, assim, alguns paradigmas declarados ou subjacentes que referenciam a utilização da cor no cinema.

No primeiro momento as cores alegres apareciam em contraponto aos lençóis brancos que a mãe lavadeira estendia nos varais da casa na favela, idealização da figura materna própria das crianças tenras da idade. A imaginação da criança também era representada por cores alegres. A partir da entrada na Febem, as cores passaram a ser frias, delineando um espaço impessoal e desesperançoso, identificado na cores azuladas e cinzentas. As cores só voltaram a ser quentes e alegres após o encontro com a educadora, possibilitando o entendimento que as memórias de prisão davam um passo rumo à mudança e à liberdade.

O episódio gancho para indicar a mudança de vida e perspectiva do garoto é retratado na cena que a educadora mostra outro horizonte para ele: o menino é levado para conhecer o mar, inicia-se um mistério criado pela mãe adotiva (a educadora havia adotado o garoto, os laços afetivos entre eles aumentavam a cada dia) durante uma viagem de ônibus, até quando ela o conduz de olhos vendados para a praia e ele sai correndo fascinado em direção às ondas.

Fonte : https://cinema.uol.com.br/album/o_contador_de_historias_2009_album.htm#fotoNav=25

Comportamento das instituição de abrigo quanto à inclusão social do indivíduo na sociedade.

Os contextos adversos e aparentemente fadados a anular quaisquer resquícios de cidadania têm sido temas recorrentes para diversos filmes nacionais nos quais impera a estética da violência. Alguns permitem até um novo olhar sobre a vida em sociedade, contada de forma subjetiva, em que as experiência de “final feliz” são histórias de superação de muitos que mudaram a realidade em que viviam.

Este texto pretende focalizar a visibilidade de texto-fonte ao filme, com aporte em teorias da narrativa, de estudos de cinema e das teorias de adaptação e das intervenção educacionais, com ênfase não somente na historia real de um individuo, mas também no processo da intervenção dos órgãos públicos no meio familiar juntamente com propósito pedagógico e na construção da cidadania e da inclusão social.

O tema em questão evidencia uma crítica ao comportamento da instituição da antiga FEBEM, a qual refletia uma equivocada postura educacional comparado ao da educadora que decidiu dedicar-se pessoalmente à recuperação do garoto. Trata -se da conquista pela cidadania, um conceito impensável para aqueles jovens que se viam banidos, internados em uma espécie de reformatório, cuja única perspectiva era sair dali mais violento e voltar às ruas para cometar mais crimes.

Essa realidade retratada pelo filme infelizmente é a de muitas crianças no Brasil e no mundo. Muitas delas são retiradas do convívio familiar por diversos motivos e entregue a essas entidades, onde as famílias são convencidas de que terão uma oportunidade na vida. Mas o que vemos no filme é outra perspectiva, afinal, a maioria delas não chega a ter a mesma sorte de Roberto.

Existe um quadro relevante de crianças e adolescentes que são entregues pelos pais a esses abrigos. A dificuldade financeira da família, os maus tratos e até a falta de orientação social são fatores decisivos para que haja intervenção de órgãos públicos no âmbito familiar.

Cidadania é uma conquista social e se realiza através da conscientização dos integrantes de uma sociedade fundada na justiça social, o que parecia ser inviável no caso de Roberto que viveu dos 6 ao 13 anos como interno da Febem, na cidade de Belo Horizonte. A sua inserção no meio social mudou a sua perspectiva de vida; a mudança veio após a adaptação ao novo meio de vivência em que fora inserido.

A ultilização da linguagem do filme é retratada para indicar a dificuldade da inserção de um indivíduo na sociedade. Histórias como esta são fontes de estudos para exercitarmos nossa capacidade de nos surpreendermos com situações quase sempre inesperadas e refletirmos sobre como agiríamos com condições adversas da vida, em lugares diferentes dos quais estamos habituados.

O tema retratado ajuda a compreender as questões falhas dos abrigos quanto à forma educativa, diante de uma sociedade inteiramente incapaz de oferecer meio de adaptação coerente para que o indivíduo possa se estabelecer.

O sujeito é transformado pelo meio em que vive, portanto, se transforma naquilo que o ensinaram a ser.

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