O cozinheiro, o ladrão, sua esposa e o amante : a arte sobre a arte.

“O que aconteceria se as pessoas mais arrogantes sádicas e grosseiras ganhassem poder? O que aconteceria à ordem social, à arte e, acima de tudo, ao amor?”

Um filme de Peter Greenaway, do gênero drama, produzido com o intuito de mostrar a exuberância e a soberba de uma sociedade elitizada. No enredo, o grosseiro e extravagante gângster Albert Spica (Michael Gambon) janta todas as noites no Le Hollandais em companhia de seus capangas e da esposa, Georgina (Helen Mirren). Cansada do marido, ela inicia um caso com Michael (Alan Howard), ávido leitor frequentador do estabelecimento. Com a ajuda do chef Richard (Richard Bohronger), eles se encontram diariamente nas dependências do restaurante.

Ressaltar a arte sobre a arte é um desafio marcante para os produtores da sétima arte. Contudo, o que parece ser belo diante das telas dos nossos olhos, por trás é uma constante história de conquista e realização. Toda a produção de um filme passa por vários setores, desde a criação até a estética visual, como figurinos e montagem de cenários etc.

Peter Greenaway é artista plástico, escritor, cineasta e grande estudioso das artes em suas mais diversas formas. O versátil artista britânico é reconhecido por imprimir em suas obras cinematográficas referências à pintura flamenca e às obras renascentistas e barrocas. Seus filmes são marcados por certo preciosismo na composição cênica. Talvez por ser um exímio pintor, Greenaway demonstre, em suas obras para o cinema, grande habilidade no uso de cores, contrastes e iluminação. Considerado um cineasta elitista por alguns, gênio por outros, Greenaway consolidou, ao longo de mais de 50 anos de carreira, uma filmografia bastante interessante e rica, composta por filmes de ficção (curtas e longas-metragens) e documentários.

Os filmes de Peter Greenaway geralmente passam longe do circuito comercial e costumam ser classificados como “filmes de arte”. O diretor sempre flertou com o experimentalismo e muitas de suas obras de ficção não apresentam uma estrutura narrativa convencional. Controverso e assumidamente pretensioso, o cinema de Greenaway explora os limites da linguagem cinematográfica e instaura um diálogo fascinante entre o cinema, outras manifestações artísticas e diversas áreas do conhecimento humano.

O filme O Cozinheiro, o ladrão, a sua mulher e o Amante, trata- se de uma das obras mais prestigiadas de Greenaway, revela em suas cenas uma sátira brilhante e exuberante, carregada de humor negro sobre o exagero, mau -gosto e maldade humana. Retrata todo o aspecto de uma sociedade elitizada que ressalta os desejos mais sombrios do subconsciente humano.

O filme chama a atenção pelas belas cenas, as alterações de cores, o efeito das luzes contracenando com o figurino cria a ilusão de mudança de vestuários conforme muda-se a cena, porém o que acontece na obra é que os efeitos cinematográficos auxiliam na composição artística, e na construção dos figurinos, filmado de maneira exuberante, com produções excessivamente gráficas e luxuosas.

O filme focaliza algumas das pulsões humanas: o desejo sexual, a gula e a violência. E por que não dizer que tenta retratar parte dos sete pecados capitais cometidos pela humanidade? Com a construção da narrativa bem artística, Peter evidencia a personalidade do personagem como fonte principal para construção da obra. O exagero e o grotesco fazem parte da suculenta sátira social realizada pelo cineasta e tais características são personalizadas em Albert, um personagem hiperbólico, monstruoso e desprezível. Mas não é somente esse personagem que ganha destaque na obra, Helen Mirrem, atriz shakespeariana, famosa por interpretar personagens da nobreza britânica, esbanja muita sensualidade ao encarar a esposa infiel de Albert.

A maioria dos filmes de Peter de certo se distancia do lado emocional, no entanto o cozinheiro… , é uma obra visceral. Alguns críticos e estudiosos, ao analisarem a obra, observaram características de raiva do diretor, fruto de um descontentamento. O filme seria assim um protesto sobre a situação político-social do Reino Unido de Margaret Thatcher. Uma das interpretações propostas para o filme vê cada um dos quatro personagens principais como representações de entidades e segmentos distintos da sociedade britânica: o cozinheiro simbolizaria os funcionários públicos e os cidadãos obedientes; o ladrão, a arrogância, o autoritarismo e o poder de Margaret Thatcher; o amante, a oposição composta por intelectuais e esquerdistas; e a esposa, a própria pátria.

Portanto o filme não se reduz ao único contexto político, e nos fornece um reflexão atemporal sobre as relações de poder, sobre a exploração do homem sobre o homem, e sobre o lugar que a violência ocupa em nossa sociedade.