Paris, Texas: a mulher e o isolamento

Paris, Texas: o não-lugar. Um deserto com uma placa de vende-se. Paris, Texas: a distância entre os personagens, tão grande quanto a cidade na França e o estado norte-americano. A Paris da obra foge do glamour da cidade da luz — é um terreno vazio no Texas, a materialização de uma promessa nunca cumprida.

A Paris do filme

O filme do lugar vazio foi lançado em 1984. Apesar de se passar nos EUA, é uma produção franco-germânica do diretor alemão Wim Wenders.

Paris, Texas não tenta seguir o padrão dos blockbusters de seu território de gravação (EUA), tem uma narrativa sensível e lenta: os diálogos não seguem os clássicos ping-pong que cansam o espectador e os cortes acompanham o ritmo letárgico do deserto. A fotografia de Robby Muller também não deixa a desejar; traduz perfeitamente o sentimento dos personagens e a relação conflituosa entre eles.

O drama de Paris, Texas começa com um homem (Travis) que perambulava há quatro anos no deserto quando foi encontrado pelo irmão, que criava seu filho Hunter, também abandonado pela mãe. A partir disso, ele relembra seu passado conturbado para tentar se conectar com o menino e reencontrar a ex-mulher (Jane).

O relacionamento abusivo

Travis: “Ela queria algo. Eu não conseguia descobrir o que era. Eu só não sabia quanta raiva eu tinha.”

Travis, confuso e maltrapilho, é apresentado ao espectador no deserto. Só mais tarde, entendemos a razão de seu isolamento: a raiva, o ciúme, a insegurança, a paixão desenfreada, a agressão. Tudo isso influenciou no ponto culminante que resultou na fuga de Jane: o abuso físico e psicológico.

O caráter abusivo desse relacionamento só é revelado na conversa final entre os ex-amantes. O filme aborda isso de forma muito sutil e sem pretensão de julgar quaisquer dos personagens — seja Travis, que mantinha Jane presa à realidade construída pelos dois; seja a mulher, que não suportava mais a situação e quase matou o marido.

Jane é muito mais nova que Travis, o conheceu com 17 ou 18 anos. Eles eram loucos um pelo outro, e rapidamente construíram um lar juntos. No entanto, esse lar era preenchido pela obsessão do marido em manter a belíssima Jane perto de si. A jovem não sabia como resistir às súplicas do amante e se encontrava constantemente insatisfeita com toda a situação (apesar de amar Travis).

Isso não é raro em uma sociedade ainda regida pelo patriarcado. Quantas mulheres se envolvem com homens muito mais velhos que exigem um comprometimento que elas não podem dar? Que abusam de suas posições, da suposta ‘experiência’, para dominar a parceira? Quantas mulheres se encontram presas na vida que são obrigadas a levar, sem encontrar meios de escapar?

É tênue a linha que separa o amor da obsessão, o cuidado do controle. Muitas vezes, não sabemos distinguir que as pessoas que mais amamos são quem nos mantêm sufocadas. No caso de Jane, a situação foi levada até o momento que explodiu e tornou-se irrecuperável.

O personagem de Travis é bem construído para evitar estereótipos do gênero. Ele é um cara tranquilo desde o início do filme, parece viver sua própria realidade sem incomodar os outros. É um homem gentil, atento. Isso não significa que ele foi menos agressivo com a mulher ou que não a feriu profundamente. Ele é um homem perturbado pelo passado e eternamente marcado pelos seus erros — por isso, se condenou à solidão.

A imposição da maternidade

Travis: “Por que você não ficou com ele [Hunter], Jane?” Jane: “Eu não podia, Travis. Eu não tinha o que eu sabia que ele precisava.”

Já mencionamos que Jane era muito nova quando conheceu Travis e teve seu filho, Hunter. Ela não conseguia lidar com as necessidades exigidas pelo cuidado de uma criança enquanto precisava enfrentar o marido.

Por isso, quando o abuso chega em seu ápice, Jane deixa Hunter com os tios da criança. Ela diz que não sabe mais como ser mãe dele. Ainda assim, não consegue deixá-lo por completo — manda dinheiro para o menino mensalmente e, mais tarde, revela que nunca superou o abandono.

Enquanto isso, Travis apenas desapareceu para o deserto. Ele não deu justificativas, não procurou ligar. Precisava esquecer o passado para entender como chegou naquele ponto extremo. Ele, como homem, podia fazer isso. Jane, como mulher, é julgada pelo abandono. É um reflexo da dinâmica familiar prevista pela sociedade.

A razão para isso é clara, era assim em 1984 e assim permanece: a maternidade é encarada como instintiva para a mulher, que deve sempre colocar o filho acima de si mesma. Para o homem, é um adendo, uma parte complementar de sua vida. Para a mulher, é sua razão de ser.

O vazio do isolamento

Grande parte dos enquadramentos do filme seguem o padrão das imagens acima: há um vazio inegável. De um lado, o personagem. Do outro, elementos da paisagem. Seria a lembrança de Jane? Afinal, ela estava presente o filme inteiro, mas apenas no fim a vemos. Estava no vazio deixado pelo abandono; no filho confuso com o destino inesperado; no marido amado e ainda assim agressivo. O espectador entende sua juventude apressada, sua maternidade precoce, seu futuro perdido no rastro sufocante de um relacionamento abusivo.

Foi sempre sobre ela. E sim, há quem diga que foi o homem quem salvou tudo no final. O anti-herói que pagou seus pecados ao reunir mãe e filho. Mas há uma leitura diferente: Travis não foi o herói e nem tinha a pretensão de o ser. O vazio que o seguia — o passado mal lembrado, o filho abandonado, a esposa agredida — passou a ser parte inerente do seu ser. Ele não salvou Jane, apenas entendeu que ele causou a ruptura da sua família. Foi um agressor, mas se reconheceu como tal. Seu abuso foi perdoado, mas não esquecido.

Ele vai embora, e isso poderia até ser considerado abandono, não fosse a construção sensível da narrativa. Seria injusto ele ficar. O vazio não o abandonou, tampouco Jane se recuperou. Seu papel foi sair de cena, e deixar mãe e filho se reencontrarem sem o peso da figura masculina.

O isolamento foi resultado de toda a pressão sobre a personagem para cumprir os papeis atribuídos à mulher: como esposa amada e como mãe dedicada. Ela só consegue seguir em frente quando escolhe voltar para Hunter e não está mais presa a Travis.

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