The Babadook : uma reflexão sobre a depressão pós parto

Os monstros nascem daquilo que nós, seres humanos, tememos. Seja do que é desconhecido e exterior a nós: o espaço com seus alienígenas, o pós morte com suas assombrações, o mar e o centro da terra com criaturas sinistras que vivem abaixo da superfície. Ou aquilo que vem de dentro: os sentimentos, as angústias, os transtornos mentais. O filme elegido para sexta-feira é do segundo tipo e trás, por meio da alegoria, um monstro poderoso: A depressão, mais especificamente, a depressão pós-parto.

The Babadook (2014), da diretora estreante Jennifer Kent, é um filme de terror atípico, não há uma abundância de sangue ou sustos surpreendentes. O terror é transmitido pela atmosfera sufocante, sombria, escura. A sinopse é a seguinte:

“Seis anos já se passaram desde a morte de seu marido, mas Amelia (Essie Davis) ainda não superou a trágica perda. Ela tem um filho pequeno, o rebelde Samuel (Noah Wiseman), e tem dificuldades para amá-lo. O garoto sonha diariamente com um monstro terrível e ao encontrar um livro chamado “The Babadok” reconhece imediatamente seu pesadelo. Certo de que Babadok deseja matá-lo, o menino começa a agir irracionalmente, para desespero de Amélia.”

O elemento essencial para estabelecer o terror no filme é o desenvolvimento psicológico dos personagens, e isto fica evidente na própria composição do monstro: Babadook não é composto de efeitos visuais modernos, inclusive, não tem nada em comum com seus contemporâneos que povoam a indústria cinematográfica. Essa falta de preocupação com a figura do monstro (dadas as várias possibilidades existentes atualmente) parece denunciar que ele não é o ponto central do filme, e sim, aquilo que ele representa: O sofrimento mental da personagem, Babadook pode ser tomado como uma alegoria à depressão de Amélia.

O marido de Amélia morreu no mesmo dia em que Samuel, seu filho, nasceu, o que parece ter gerado uma dificuldade de conexão entre a mulher e o filho. A depressão pós-parto, na vida real, nem sempre tem uma explicação tão facilmente delimitada. Segundo a pesquisa, Nascer no Brasil, realizada por Mariza Theme dentro da instituição Fiocruz, mais de 25% das mães apresentam a doença no Brasil. Um número alto se comparado aos 19.8% atribuídos a países em desenvolvimento pela World Health Organization.

A depressão pós-parto é uma doença duplamente estigmatizada, primeiro por se tratar de depressão, uma doença mental que ainda é vista com preconceito, segundo por ser relacionada à maternidade, um âmbito de grande cobrança social sobre as mulheres. Tais fatores podem implicar em uma grande falta de aceitação da doença, tanto por amigos e familiares, quanto pelo própria pessoa que sofre. Esses dois aspectos são trabalhados no filme: Amélia sente muita culpa, e não tem apoio da família. Essa negação da doença pode impossibilitar o pedido por ajuda, atrapalhando, ou retardando, o processo de cura. Um dos motes de Babadook é, inclusive: “quanto mais você nega, mais eu cresço.”

Alguns dos sintomas característicos da doença são: cansaço constante, pânico, ansiedade, dificuldade em estabelecer um laço com o bebê, ter pensamentos assustadores, dificuldade de dormir e se alimentar, problemas de concentração. Podemos encontrar exemplos de todos eles ao longo do filme.

A depressão pós parto pode afetar o desenvolvimento afetivo, social e cognitivo da criança. O que vemos no personagem de Samuel que tem dificuldade de socialização com as outras crianças e problemas na forma de expressar seus medos e sentimentos. No fim do filme, com a melhora de Amélia, podemos ver resultados positivos sobre a criança, que se sente mais alegre e confiante.

O fim do filme é surpreendente e carece das simplificações que, às vezes, o cinema traz com seus “felizes para sempre”. Fugindo também do clichê dos filmes de terror em que o monstro, supostamente derrotado, exibe sua vitória nos segundos finais do filme. O final nesse caso é bem mais honesto e humano: Amélia admite a existência de Babadook e o repugna com a fala: “Esta é a minha casa”, colocando-o no lugar de invasor. Ao posicionar-se ela diminui Babadook, que passa a habitar o porão de sua casa, sendo alimentado por Amélia — este é um detalhe importante, Babadook não desaparece misteriosa e imediatamente, apenas perde seu controle sobre a mulher, que ainda precisa continuar lidando com o monstro.

Quando ela diz esta é minha casa, o que escutamos é: “Esse é o meu corpo”, você está em mim e preciso lidar com você, Babadook, mas você, definitivamente, não é aquilo que me define.

………………….Fim do Spoiler………………

Não enfrente Babadook sozinha. Se você está experimentando sua presença, procure ajuda profissional! Você não está só.

1- A diretora do filme, Jennifer Kent, é fã do trabalho de Lars Von Trier. O diretor permitiu, a pedido de Kent, que ela participasse de um dia de filmagem do filme Dogville (2003), para que aprendesse a dirigir um filme. Parece coerente que a diretora procurasse um mestre em retratar a melancolia e a depressão, em vista do filme que ela produziu, não é?

2- A figura de Babadook faz referência direta ao movimento expressionista alemão que está na raiz dos filmes de terror. A maquiagem carregada, o figurino e os dedos alongados de Babadook parecem ter saído direto de um filme representante do movimento, como o Gabinete do Doutor Caligari (1920).

O expressionismo é um movimento vanguardista que surgiu na Alemanha, nos anos 1920. É marcado pelo subjetivo que transforma a realidade, que a molda de diferentes formas, que a absorve e reflete em distintas construções e mecanismos.

É uma visão transformada pelos sentidos, uma janela pela qual se vê não as coisas como são, pura e simplesmente: o cenário, os objetos e até os personagens adquirem novas significações, tendo sua aparência física modificada.

Um bom modo de exemplificar o expressionismo em ação é a angustia, que no quadro “O Grito” de Edvard Munch (artista pioneiro do expressionismo e que muito influenciou o campo) se apresenta não só como um sentimento, mas distorce toda a paisagem.

Não parece inocente que ela referencie um movimento que se interessava em mostrar o que estava dentro do sujeito, trazendo a subjetividade para fora, para a materialidade do mundo. Afinal, Babadook se apresenta como uma representação material da depressão da personagem.