um_tim hecker

1.

todas as pessoas na sala levantam, andam, conversam, sentam, saem, bebem café, riem de coisas estúpidas no facebook e um deles me cobra as imagens que deveria ter entregue há uns vinte minutos. em silêncio estava, em silêncio permaneci, tentando continuar lendo o fragmento da novela que gabriel tinha acabado de postar. o filho da puta permanece de pé e bate com os dedos na divisória de um cinza ridículo. levanto um pouco a cabeça. o olho nos olhos. me controlo o suficiente para não dar o gosto de me mostrar emputecido. digo que já entrego, me levantando e catando a carteira e o isqueiro e indo em direção ao hall. não olho pra trás, mas sinto que ele continuou me encarando de lá. quase rio do quão patéticas são essas pessoas e o do quão patético eu devo ser por precisar passar por uma merda dessas. desço os lances de escada, não gosto de ficar esperando muito pelo elevador. saio pela porta principal, encosto na parede do prédio e acendo um cigarro. encosto a nuca na parede e gasto um tempo enquanto trago, anulando pensamento observando o céu cortado pela fiação.

jogo o filtro queimado no chão, deixo ele lá se consumindo sozinho e foda-se que a calçada tá limpa. entro no saguão e dessa vez chamo o elevador. de serviço. um desses sem espelho. a cápsula metálica ganha velocidade comigo dentro, me sinto num microondas ou alguma coisa do tipo e em uns instantes chego no meu andar. saio, abro a porta e volto pra meu martírio. por incrível que pareça, o filho da puta ainda estava em pé, só que dessa vez, encarando alguma estagiária. de cima, claro. faço o que tenho que fazer, termino a edição das fotos, mas não envio pra ele. aposto com o universo enquanto jogo freecell e sigo meu caminho.

2.

volto do trabalho e sento no sofá da sala, observando nada. acendo um cigarro e fumo devagar sem usar as mãos, com ele pendendo na boca. toco o meu pau por cima da calça feito um obcecado, como se fosse conseguir encontrar afeto no tecido, pra rebater a ressaca emocional. acabo dando espaço a uma onda esquisita de autodepreciação, isso tem acontecido com mais frequência do que eu gostaria de assumir. eu aceno me despedindo para alguém que não olhará por cima do ombro, toco a cabeça frustrado tentando não parecer tão desesperado ao confessar. acendo a luminária com a mão direita e uma barata deslizando na fenda da porta ganha destaque. uma imagem surpreendentemente dramática. a peça é a minha vida.

há algo errado ou minimamente distorcido nos pontos de vista contemporâneos. eu acredito na liberdade, mas não me vejo livre. nem minha pele, nem meus dedos, nem minha boca, nem meu pau, nem porra nenhuma. eu me sinto como um refém exilado em algum lugar que por sua vez é refém de um deus inexistente, fumando um último cigarro a caminho do muro pro fuzilamento. “todo cigarro é o último”, suspiro vazando fumaça. cada minuto é o último e cada momento é o único. e, ainda pensando assim, a desgraça é o que preenche o que a luz não toca em minha sala. nada além. e de repente eu percebo que nada mudou, o ponteiro está parado desde sempre e a gente que anda em círculo.

eu paro e penso no que tomei por amor, uma projeção absurda de alguém que não é capaz de sentir nada. ao menos não externalizar. as coisas são como são, as pessoas são como são e é assim que somos: opostos. aqui estou, remoendo tudo e nada e me corroendo por coisas que não existem além de mim. tenho andado confuso, não entendendo muito bem se as coisas acontecem como vejo ou eu as vejo por paranóia.

o sino me avisa que já são 18h.

após algumas horas eu me sinto melhor ao ponto de quase acreditar quando ela diz que me ama. o erro mora em esperar.

tiro o sapato de um pé com o outro, levanto devagar, tateando os bolsos em busca de um celular inexistente que, invisível, vibra. em pé me toco que joguei ele e a carteira e as chaves no modo automático em cima da mesinha ao lado da porta. realizo. ninguém liga mais pra ninguém.

3.

a noite ganha espaço e eu me levanto depois de duas horas sentado no vaso encarando o piso do banheiro, catando fragmentos de rosto desfigurado no chão eu levanto, deixo as roupas no chão e não consigo me olhar no espelho. jogo água no rosto devagar, apago a luz e saio. a barata que se esgueirava barateia no corredor e eu observo. ela vem perto de mim. frenética. chuto forte com a ponta do pé direito e ela voa e bate na parede e cai de costas, agitando as mil partes que posso ver, agonizando em desespero, tentando salvar sua vida.

the ravedeath 1972 explode o meu quarto e de repente meu corpo sua muito, muito, muito, calor de vinho sem onda leve, tsunami corroendo as costas e todas as coisas que ganham textura na poeira acumulada nos cantos e nos poros e em mim que por não por acaso sou mobília e imóvel minha cabeça no travesseiro me diz que a gente corre e corre e anda e vive e segue e escreve e acredita produzir mas não tem ninguém lá, no fim do dia a gente se debate sozinho, sem colo, sem mão, nem mãe, nem prazer que a gente só consegue no corpo e no toque do outro, querendo completude, o tempo inteiro coincidindo e colidindo na ausência de um não-alguém lá, os amigos offline, as mesmas fotos rodando na tela, as mesmas vozes caladas do outro lado, um eclipse e um pai sem filho,

a gente se lê mas a gente não se conhece;