(a cigarra e) A Formiga

ou uma metáfora sobre Limites

Uma metáfora é isto mesmo: é trazer-nos consciência alargada, de uma forma muito directa. É, de uma forma simples mostrar-nos a lição toda.

Isto dos limites anda muitas vezes em círculo dentro da minha cabeça. 
É um dos pilares à volta do qual os pensamentos sobre parentalidade — mas não só — discorrem: às vezes num sentindo, às vezes noutro, às vezes embatendo no pilar, às vezes subindo-o outras descendo-o.

Isto dos limites que diz tanto de nós, ao longo da vida. 
Os limites que nos falam de integridade, de valores, de respeito, de exigência, de aceitação, de responsabilidade, mas também de intransigência, de hierarquia, de crenças, de medo, de não questionamento, de falta de criatividade.

Esta metáfora é simples, Mas o tema é complexo. E por isso é que é preciso dar uma volta de 360º para o ver bem.

“As crianças precisam de limites!” 
“As crianças tem de aprender a respeitar os limites?”

Que limites, os delas próprias ou os que nós decidimos que eram os certos?

Quando uma criança (ou um adulto!) tem um problema fisico, de saúde, emocional, de aprendizagem — queremos que aceite os limites ou que puxe pelos limites? E quem está livre de o ter, um dia?

Impor limites cabe a quem? Aos pais ou à vida?

Porque é que se eu limitar uma criança ela vai ser mais feliz?

E se afinal entendermos que a criança quebra o dito limite moral ou ético, ou social quando o seu limite pessoal, emocional foi quebrado?

Esses limites servem para quê? Para que siga um determinado guião — imposto pelo filme que nós inventamos — para a sua própria vida?

Esses limites servem para que nós, ou o nosso filho, sejamos a formiga e não a cigarra, da outra metáfora que falava disto mesmo, apenas o bem e o mal, o certo e o errado trocados de papeis.

Esses limites servem para que não se perca, talvez. Para que não pise fora da linha. Para que esteja sob o nosso controlo.

Os limites impostos dão-nos uma falsa ideia de segurança, de risco zero, tiram-nos visão alargada, conhecimento interior e auto-confiança.

Porque, depois, admiramos quem os quebra, quem vai mais longe, quem não se deixa vergar, quem descobre algo fora do círculo, perdão, da caixa.

E se a formiga deixasse de ser medrosa e se atrevesse? Eu tenho para mim que se transformaria numa maravilhosa Cigarra.

Afinal, queremos filhos-formiga ou filhos-cigarra?
Afinal, queremos ser a mão que desenha a circunferência?

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