auto- estima

o “sistema imunitário” social das nossas crianças

Do que falamos quando falamos de auto-estima?

A verdade é que a mesma palavra parece ter significados muito diferentes para diferentes pessoas, autores, psicólogos e investigadores.

Há uma abordagem que nos fala da auto-estima na ótica da auto-confiança: acreditar em si próprio, valorizar as suas qualidades, confiar nas próprias capacidades, ser afirmativo, sentir-se à vontade em determinadas áreas da vida.

Uma corrente mais recente diferencia os conceitos e aproxima a auto-estima de um outro conceito que é a auto-compaixão.

Esta auto-estima tem a ver com gostar de nós, exatamente como somos ( o significado de estima no dicionário é gostar de, ter apreço por, de uma forma desinteressada, muito natural).

E é este olhar de apreço para nós mesmos, de aceitação em relação ao que somos que nos parece ser realmente poderoso.

Esta auto-estima tem pouco a ver com o ego fortalecido, ser convencido ou, aparentemente, muito seguro de si. Tem a ver com gostarmos de nós exatamente como somos. Com todas as nossas características. Reconhecer o que temos que pode ser inclusivamente melhorado ou trabalhado. Olhar para as nossas falhas, erros, enganos, deficiências com bondade e compreensão, aceitando que somos humanos — não temos de ser os melhores, de estar sempre no topo da montanha.

Mesmo quando estamos no fundo do poço, quando ouvimos uma crítica, quando não atingimos uma meta, não alcançamos um objetivo ou falhamos um alvo não nos julgamos arduamente, não nos sentimos menos por isso.

Significa termos uma noção mais realista das nossas capacidades e ações, e perceber o que podemos fazer diferente, o que leva a não ter medo de desafios, de mudar.

Leva a não precisar de ter sempre razão ou de atingir determinados “patamares” para nos sentirmos bem. A não precisar de usar uma máscara para parecermos perfeitos mas sim a podermos ser autênticos e viver em verdade, o que gera níveis elevados de bem estar e felicidade, mesmo nos momentos mais dificeis e a menos depressões e ansiedade a lidar com situações desafiantes.

Não sentimos que o nosso valor como seres humanos dignos de ser amados e respeitados esteja nunca em causa e por isso jamais seremos vítimas.

Precisamos muito menos da aprovação dos outros ou de viver em função do olhar dos outros, mas por outro lado desenvolvemos o sentimento de pertença e conexão com as outras pessoas, não havendo lugar para sentimentos de superioridade, agressividade ou defesa e por isso jamais seremos agressores.

“Quando damos aos nossos filhos o presente da aceitação, quando realmente os vemos e os apreciamos pelo que são estamos a providenciar-lhes uma armadura psicológica que os vai proteger por uma vida.” J. McKay

de onde vem a auto-estima?

Todos nascemos com a semente da auto-estima, embora seja fácil ela não ser regada e cuidada, seja frequente não lhe dar solo fértil para que cresca e se desenvolva convenientemente.

Muitos dos comportamentos e forma de comunicar, dos pais podem atrofiá-la. A sociedade atual pode ser uma máquina em envenená-la se ela já de si for fraca e por isso recai sobre cada família, uma responsabilidade grande. Amigos, professores, e todos que se vão cruzando connosco, sobretudo nas idades mais precoces, podem ter um efeito positivo no crescimento dessa planta ou não ajudar a que se desenvolva.

Porque, enquanto o nosso cérebro e consciência se desenvolvem, vamos usar as pessoas que são o nosso porto seguro como espelhos de nós próprios. As pessoas de quem dependemos para sobreviver, as pessoas com quem criamos vínculos emocionais serão os nossos guias, os intérpretes do mundo externo e do nosso mundo interno em construção.

Assim, pegando nos “tijolos” que atrás mencionamos serem a base da auto-estima, é apenas uma questão dos pais se colocarem no lugar do primeiro construtor dessa casa, e serem eles a fornecê-los, com as suas atitudes, comportamentos, palavras, actos e forma de se relacionarem com as suas crianças.

É mais simples do que pode parecer…

1. tem a ver com os nossos pais gostarem de nós exatamente como somos.

Ninguém duvida que os pais sentem amor incondicional pelos seus filhos. E, por certo, que o demonstramos muitas vezes. Mas outras — sobretudo em situações de desafio ou conflito — os nossos comportamentos e palavras podem ressoar na criança como sendo um “amor condicional” ou um estado de “sem amor”. Quando a criança é pequenina não distingue o comportamento dela própria. Por isso é tão importante, mesmo a impor os nossos limites, a gerir uma “birra”, ou num frente a frente com um comportamento com o qual não concordamos, não gritar, não bater, não usar cinismo ou palavras-dardo, não ameaçar, não ignorar, não castigar- ou seja, evitar tudo que seja entendido como “não gosta de mim” ou “não gosta de mim quando… me porto mal”.

2. tem a ver com deixarem-nos ser autênticos e viver em verdade

Demonstrar confiança nas nossas crianças é uma maneira de lhes incutir uma noção de valor intrínseco, de promover a noção de autonomia, de não dependência dos outros ( hoje de nós, amanhã…) de lhes incutir um sentimento de capacidade e de tranquilidade em relação aos desafios e ao seu desenvolvimento. Promove também que se sintam úteis, parte integrante de um núcleo de pessoas. Mostra respeito e segurança — um dia mais tarde ela encontrará respeito e segurança nela própria.

É importante ter em mente que o processo de confiar envolve algum risco — ajudá-la a percecionar esse risco ou alguma eventual falha, tombo como parte do processo e, embora reconhecendo as emoções envolvidas, continuar a confiar.

3. tem a ver com darem-nos uma noção realista das nossas capacidades

Nas tais correntes que olham para a auto-estima sob a lupa da auto-confiança dá-se muito valor ao reforço positivo, ao elogio, ao louvor.

Mas uma criança que cresce num ambiente de elogios “ocos” ( “és tão inteligente, que bem que desenhas, és mesmo bom”) ou reconhecida apenas quando consegue algo ( uma boa nota, passar no exame de ballet, quando se porta bem, etc) fica dependente dessa validação externa para se sentir bem consigo própria. Entramos no ciclo do amor condicional — só me valorizam, só gostam de mim, quando consigo , tenho, algo.

Aprendemos a correr atrás da cenoura. A depender da motivação externa, sem olhar para o que nos faz feliz de verdade, não desenvolve a ética e um código de valores próprio.

Assim, podemos reconhecer em vez de elogiar.

Podemos dizer: “obrigada por teres posto hoje a mesa. Foi uma grande ajuda para mim.” Podemos mostrar um interesse grande pelo seu desenho, querer saber porque usou aquela cor, o que representa aquele traço, sem julgar, sem avaliar. Na natação, quando nos chama para o vermos mergulhar em vez do “boa! que bem que nadas”dizer apenas “estou a ver-te. Estás a divertir-te, ah?”

4. tem a ver com não nos julgarem arduamente

Conseguirmos aceitar as nossas crianças como elas realmente são. Sem expectativas. Mostrar-lhes que está tudo bem com elas. Que não têm de mudar nada para serem especiais ou aceites aos nossos olhos.

Aceitar as suas qualidades como os seus aspetos com os quais não nos reconhecemos — ou que reconhecemos como menos bons, porque são diferentes de nós ou embatem em crenças que temos sobre como deveria ser.

Aceitar que a realidade é o que é. Aceitar as suas emoções fortes, os seus momentos menos felizes ou agradáveis, sem julgar. Antes amparando e buscando uma saída em conjunto.

5. tem a ver com estarem Presentes

E por fim, a Presença. Estar com a criança de uma forma plena e inteira, aprendendo com ela, respeitando o seu tempo, ouvindo-a, dedicados a ela — se só poder ser durante quinze minutos, não faz mal. Sem interferências, sem telemóveis ou mil preocupações na cabeça. Parece o mais simples e é tantas vezes o mais difícil de conseguirmos. ♡

“as crianças que sentem que são verdadeiramente vistas e compreendidas pelos seus pais pode ser autênticas. Não têm de esconder oartes delas próprias por medo da rejeição. Se conseguirmos aceitar a criança como um ser único, com o bom e o menos bom a criança também se consegue aceitar e isto é a pedra angular da auto-estima” Judith McKay
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