A tirania do “cara, isso é OLD”

Você tem mesmo que ser o primeiro a compartilhar aquele vídeo?

por Rodrigo Cunha


É, não tem jeito mesmo. Eu acho que você já passou por isso. E ficou #chatiado. Não tem mais saída. Você lá, todo empolgado querendo ser o 1º a dar um share no "feice" ou enviar aquele vídeo bacaninha pro grupo maroto de whatsapp e pimba. Alguém te joga na cara um desolador:

"Cara, isso é OLD".

Tem aqueles que ainda economizam palavras e, sem qualquer espécie de pudor, escrevem apenas: OLD. Assim mesmo, utilizando a maldita caixa alta. Quem eles pensam que são, não é mesmo? Não passam de um bando de feios, certo?

Nós temos um imenso prazer em moldar nossas imagens através das redes sociais. E com isso vem a necessidade de postar "coisinhas da hora". Já percebeu que no trabalho, sempre tem aquele cara que vive com a mesa cheia de gente em volta assistindo ao novo vídeo mais engraçado dos últimos 10 minutos? Aí todo mundo volta pras suas mesas e pede:

"João, manda aí o link".
O Pernalonga é o João, claro!

Essas pessoas estão ávidas pra ser as primeiras a mostrar aquele vídeo para os seus círculos de amizade.

E é nessa hora que podem ser surpreendidas com o doloroso OLD, que pode vir de algum "ispertinhu" que já tinha visto o vídeo na noite passada. Aí você pensa:

"Mas poxa, na noite passada ele já tinha visto isso? E eu não recebi de nenhum outro grupo no Whats? O que houve? Não devo ser tão bem relacionado assim. Logo o André, o mais alienado da galera?".

Hoje eu presenciei uma cena semelhante, na agência onde trabalho. Há alguns dias, quando surgiu o Periscope, app de mobile streaming, eu lembro da aflição do time de criação e planejamento, já imaginando mil e uma possibilidades que o app proporcionaria para as marcas. Isso já faz mais de um mês. Aí, sem mais nem menos, no grupo de Facebook da agência, hoje, uma menina da redação, no andar debaixo, postou no grupo bem assim:


“Gente, viram que tudo esse aplicativo? Chama Periscope. Isso é revolucionário!”


Não demorou nadinha pra rapaziada fazer piada com o post. Sim, não tenha dúvidas que o OLD apareceu nos comentários. Em todas as encarnações possíveis. Com muita força. Coitada da redatora. Deve ter ficado desolada. Imagina a galera do grupo de Whats dela. Bem, lá quem sabe ela pode ter dado a "boa nova" ou outro termo que o valha.

Mas enfim, pra que toda essa correria? Do que adianta se, no final do dia, ninguém vai lembrar que foi você quem compartilhou o link? Pior, talvez nem lembrem da notícia, do vídeo, do meme ou da foto. Muita coisa às vezes só tem relevância no período da tarde e, durante a noite, já é OLD.

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês e autor de vários livros nos quais disseca sua teoria sobre o mundo líquido, em um parágrafo para uma entrevista que pode ser conferida na íntegra aqui, aborda algo que conseguimos perceber não apenas na web, mas em nosso mundo já há algum tempo. Não há nada de novo nisso, é apenas uma constatação que ela denomina de "Modernidade Líquida":

"Líquidos mudam de forma muito rapidamente, sob a menor pressão. Na verdade, são incapazes de manter a mesma forma por muito tempo. No atual estágio “líquido” da modernidade, os líquidos são deliberadamente impedidos de se solidificarem. A temperatura elevada — ou seja, o impulso de transgredir, de substituir, de acelerar a circulação de mercadorias rentáveis — não dá ao fluxo uma oportunidade de abrandar, nem o tempo necessário para condensar e solidificar-se em formas estáveis, com uma maior expectativa de vida".

Eu já deixei há algum tempo de criticar a forma como consumimos notícias. Prefiro enxergar tudo isso como um momento transitório. Sinto que daqui a pouco tempo, vamos olhar pra trás e até rir de tudo isso. Talvez realmente haja uma revalorização do dito "antigamente".

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês e autor de vários livros onde defende a Modernidade Líquida

Há quem diga que ela já está acontecendo (há tempo já acontecem surtos de movimentos de slow food, slow traffic, por exemplo) e que chegaremos em um momento onde haverá um grande break e voltaremos a fazer as coisas como já foram feitas algum dia, deixando a vida menos complexa do que é hoje.

Eu, como sempre, sigo deslumbrado com as possibilidades e com essa tal "liquidez" de Bauman. A impressão que fica é a de que temos que ficar reaprendendo tudo o tempo todo. E isso é maravilhoso.

Eu sinto que a geração que está nascendo nesse novo contexto terá espírito mais jovem por muito mais tempo, mantendo o cérebro ativo por mais tempo, tendo mais ideias. Já imaginou idosos de 80 anos ou mais utilizando wearable devices? É o que veremos logo menos ☺

Mas vamos lá, tente pegar mais leve com aquele seu amigo na hora de dizer a ele que aquele post é OLD. Diga que já viu e achou interessante e comece a discutir a respeito, amplie a discussão. O fato é que ainda estamos apaixonados pelas novas formas de comunicação e pela própria tecnologia e ainda não evoluímos em sua totalidade para o que realmente importa: a melhora do tom da conversa.

Mas isso já está acontecendo e começando a tomar forma em diversos lugares. Aqui mesmo, no Medium ☺


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