Você tem um RG virtual?

Um ensaio sobre a facebookização


Quem tem cadastro na maior das redes sociais, e não é tão desligado, sabe bem do que eu estou falando. Desde 2004, ano de sua criação, o Facebook vem arrebanhando usuários de todo o mundo para fazer parte de sua alegre comunidade que oferece uma infinidade de serviços e ferramentas.

Lembro bem da minha resistência ao brinquedo de Zuckerberg. Eu era satisfeito com o finado Orkut e quando fiquei sabendo desse tal de feicebuque fiz cara feia. Entretanto, me cadastrei — quando era pouquíssimo usado no Brasil — e logo deixei a poeira tomar conta. Não tinha nada lá que eu não pudesse fazer no Orkut, MSN, Blogger, Fotolog e derivados. Abandonei.

Só que eu não me toquei que o lance era justamente esse: englobar todo tipo de serviço que ofereciam na internet e tentar dominar o mercado sendo o único. Aquele que pensamos primeiro. Que olhamos ao acordar e antes de dormir. Que não para de piscar no nosso celular nos fazendo querer verificar as notificações todo instante. Enfim, o melhor.

E nisso foi que o Facebook se tornou, e isso é o que ele é hoje. Tudo ele tem e todos estão lá. Dá pra “viver” naquele mundo. Passar o dia inteiro descendo a barra de rolagem vendo a opinião do seu amigo ateu, a raiva daquela feminista do curso de humanas, discussões religiosas, o vídeo engraçado do momento, conhecer a banda mais tocada, participar de uma promoção, ver as notícias do dia, ser direcionado para um edital de concurso, bater um papo com os colegas, fazer um trabalho da faculdade, ser entrevistado para um emprego, curtir o comentário da sua tia dizendo que você tá um lindão na foto, rir da falta de bom senso, trabalhar… e por aí vai. Você só sai pra comer, dormir e fazer as necessidades fisiológicas (e caso queira tomar banho).

Todas essas utilidades me parecem bem legais e são bastante funcionais. Ok. O que me incomoda um pouco com isso tudo é que, se você não tem Facebook hoje em dia você “não existe” na internet e isso vai lhe trazer algumas dificuldades no meio social offline também.

Pode parecer exagero falar assim, mas só quem ficou tempos sem usar a rede sabe como é se sentir isolado do mundo. É como viver em outra sociedade onde só existe você e algumas pessoas perdidas caminhando sozinhas sem conseguirem comunicação. Claro que estou sendo radical, mas é preciso ter uma visão apurada sobre o assunto e refletir sobre as implicações que a facebookização das práticas sociais trazem para nossa vida.

Não ter Facebook se assemelha a não ter cédula de identidade. Você conhece alguém que não possui RG (registro geral)? Não conseguiu lembrar, não foi? Pois é. Um pedaço de papel plastificado que é tão importante para as nossas relações e resoluções de problemas durante a vida. Todo mundo tem um número, e esse número vai ser pedido em qualquer situação pela qual você for passar, seja no campeonato de futsal mirim da escola, matrícula na universidade, tomar posse em emprego público. Tudo.

Uma pessoa que não tem esse documento de identificação civil está impossibilitado de praticar a maioria dos atos importantes necessários para uma vida plena. Da mesma forma (ou quase) é com o Facebook. Não tê-lo vai lhe impedir de participar de várias coisinhas sejam elas online ou offline.

Aí você diz:

“mas eu não ligo pra isso. Estou disposto a viver sem facebook e consigo muito bem ter uma vida normal sem ele”

Ótimo. Lindo. Perfeito. Admiro muito essa atitude. Confesso que tenho inveja de quem consegue se desprender dessas amarras sociais que já estão impregnadas no nosso meio e se desfaz do Facebook. O primeiro problema a se vencer é arrumar outras formas para suprir aquilo que você fazia no site azulado.

Mas isso é fácil, não é? Se antes ele não existia, por qual motivo será diferente agora? Pois é… só que agora ninguém usa mais outra coisa. Tá, tá, eu sei que usam vários outros meios. Mas o Facebook conseguiu reunir todas as utilidades necessárias em uma única página.

Daí você vai se encontrar com o segundo problema quando seus amigos criarem um grupo na rede social para discutir sobre a startup que vocês estão montando. Ou você faz uma conta ou você não saberá de nada que está sendo decidido e provavelmente será excluído do projeto (mesmo que a ideia tenha sido sua)

Complicado, não é?

Acaba que uma pessoa que decide não usá-lo será segregado naturalmente. Faz um teste e chega numa rodinha de novos amigos e diz que não tem Facebook. Presta atenção na cara de espanto que TODOS irão fazer. E a discriminação não é proposital. Ninguém fala:

“Ei, vamo deixar de ser amigo de Robersval, ele não tem feice”.

Acontece de forma muito simples e delicada, até você começar a perceber que não ficou sabendo da festa de confraternização da galera do trabalho. Não lembrou do aniversário daquela sua tia que comentou na sua foto. Não foi jogar vídeo game na casa dos amigos. Nem participou da recepção do seu irmão que chegou da Eslovênia.

Embora nós possamos ficar inteirados de tudo isso com uma singela ligação, poucas vão ser as vezes que vão lembrar do pobre coitado sem Facebook. Afinal de contas, “ninguém” se abstém de tão poderosa ferramenta. Quer ficar sem usar a rede? Então, vai se acostumando com essas coisas. A sociedade não vai voltar a ser que nem era antes.

Se você está todo seguro de si afirmando que não precisa de Facebook porque tem o indispensável WhatsApp, vai pesquisar quem é o dono dele. E que por sinal está fazendo com que você fique cada vez mais dependente. Pra quem gosta de stalkear no Instagram e postar uma fotinha toda vez que vai num lugar diferente, adivinha….

São apenas alguns membros do grande Megazord que o Facebook está construindo para dominar o mundo. E nós estamos com a furadeira ajudando a parafusar.


E você? Já se desfez dessa identidade virtual? Como foi/está sendo a experiência? Conte pra nós.