O Meu Mais Memorável Cometa


[Nota: em todas as circunstâncias referidas neste artigo, a observação do cometa, em particular durante o dia, foi levada a cabo com todas as precauções no sentido de nunca, nem mesmo por acidente, observar directamente o Sol, com ou sem ajuda de instrumentos ópticos. Tal resultaria em lesões graves na retina ou mesmo em cegueira. Existem telescópios especializados, e filtros que podem ser utilizados com telescópios normais, que permitem a observação solar segura.]

O cometa McNaught, fotografado no crepúsculo do dia 9 de Janeiro de 2007 por Thorsten Boeckel.

No dia 7 de Agosto de 2006, o astrónomo Robert McNaught, do Observatório de Siding Spring na Austrália, descobriu um novo cometa. Por altura da descoberta, o cometa situava-se na constelação do Ofíuco e era muito débil, com magnitude +17. Nada fazia prever o que iria acontecer apenas 6 meses depois. Ao fim de alguns dias, já com a designação oficial de C/2006P1 (McNaught), foi possível determinar com mais precisão a sua órbita e perceber que o cometa tinha o potencial para se tornar um objecto espectacular. O periélio aconteceria no dia 12 de Janeiro, com o cometa a passar a apenas 0.17 unidades astronómicas do Sol—menos de metade da distância de Mercúrio ao Sol. Era evidente que o cometa iria ser sujeito a temperaturas muito elevadas e fortemente irradiado, condições que favoreceriam a sublimação dos gelos e a libertação de grande quantidade das poeiras que entram na sua composição. Esta actividade do núcleo cometário seria determinante para o seu brilho total.

As expectativas dos astrónomos não foram logradas. De facto, o cometa McNaught proporcionou um espectáculo maravilhoso durante o mês de Janeiro de 2007, tornando-se no cometa mais brilhante desde o Ikeya-Seki, um cometa extraordinário que nos visitou no Outono de 1965. Estima-se que no pico de brilho, no periélio, o cometa terá atingido a magnitude -5.5, 2 vezes mais luminoso do que Vénus numa aparição favorável. Infelizmente para os observadores do hemisfério norte, após o periélio, o cometa seguiu para o céu austral, onde a sua fantástica cauda em forma de leque se tornou progressivamente mais visível à medida que se afastava do Sol.

Pessoalmente, considero-me um felizardo por ter tido a possibilidade de observar o cometa nos dias próximos do periélio. As condições meteorológicas melhoraram inesperadamente durante 3 dias, proporcionando-me uma experiência inesquecível — observar um cometa em pleno dia.

A trajectória do cometa no início de Janeiro de 2007, junto ao horizonte oeste-sudoeste.

Deixo-vos uma sequência de pequenos textos, extraídos do meu diário de observações, um pequeno livro de apontamentos onde mantenho um registo das minhas impressões sobre os objectos celestes que vou observando ao longo do tempo. Ao todo, observei o cometa McNaught durante 3 dias, em Janeiro de 2007, e estas permanecem as minhas mais espectaculares memórias de um cometa.

11 Janeiro 2007, Monte da Virgem, Vila Nova de Gaia
Hoje, finalmente, eu e a minha esposa conseguimos ver o cometa McNaught. Poucos minutos após o pôr-do-sol, detectei-o com uns binóculos 12x80mm junto ao horizonte. Levantando a cabeça, vi-o a olho nu por entre uns cirros que permaneciam teimosamente nessa parte do céu. De tempos a tempos tive uma visão desobstruída do cometa. Era muito fácil de observar visualmente e, uns 20 minutos depois do pôr-do-sol, vimos também uma pequena parte da cauda do cometa. A magnitude do cometa seria pelo menos -2.
Nos 12x80mm, o falso núcleo tinha um aspecto muito brilhante e condensado, com uma cor branca intensa. A cauda tinha um aspecto de uma hipérbole muito fechada, com elevado brilho superficial e com cerca de 1–2 graus usando visão periférica.
Quando o cometa baixou de elevação, a cor do falso núcleo e da cauda passaram para um branco-dourado muito suave. Mesmo ao lado pairavam cirros em tons de rosa e violeta… muito bonito!


12 Janeiro 2007 (dia do periélio), Monte da Virgem, Vila Nova de Gaia
Cheguei ao mesmo local de ontem um pouco mais de 30 minutos antes do pôr-do-sol. Tirando algumas pequenas nuvens muito suaves, que se dissiparam rapidamente, as condições de observação estavam muito boas. Havia um banco de nevoeiro em alto mar que cobria parte do horizonte.
Depois de montar o tripé e fixar os binóculos 12x80mm, comecei a procurar com cuidado a região do céu mesmo por cima do Sol. Dois ou três minutos depois, estava a observar o cometa, 20 minutos antes do Sol se pôr. Estava claramente mais brilhante do que ontem, com a região nuclear de cor branca e uma cauda óbvia com cerca de 1/2 grau, mesmo com o Sol a apenas 7 graus. Parei de espreitar pelos binóculos e, olhando com atenção, consegui ver o cometa a olho nu! Via-se com alguma facilidade, sabendo onde procurar. Passado alguns minutos, com o Sol ja próximo do horizonte, o cometa era claríssimo a olho nu e uma parte da cauda era também visível. O pôr-do-sol foi lindíssimo, com o Sol a passar por detrás do banco de nevoeiro, provocando uma tempestade de amarelos, laranjas e vermelhos que contrastavam com o negro das nuvens de humidade.
Depois do pôr-do-sol, e apesar da baixa altitude do cometa, consegui observar melhor a cauda que tinha uma belíssima curvatura suave para a direita e uma extensão de uns 2–3 graus visíveis com algum cuidado e visão periférica. Movendo ligeiramente os binóculos lateralmente era possível notar uma ligeira diferença de brilho no fundo, precisamente onde continuaria a cauda do cometa até 4.5 graus. Não sei se deveria confiar na minha visão ou se seria o meu cérebro a “completar o que faltava da cauda”. Em todo o caso, o brilho superficial da cauda era notável, sendo facilmente visível mesmo com o céu muito claro.
Uma comparação com Vénus, complicada pela diferença de altitudes, apontava para uma magnitude de -2 a -3 da região central da cabeleira. O brilho total do cometa, no entanto, deveria ser superior.
O cometa McNaught fotografado em pleno dia, no dia 12 de Janeiro de 2007, às 13h30m locais, por Ed Hiker.
O cometa McNaught no dia do periélio, 12 de Janeiro de 2007, fotografado ao pôr-do-sol por Juan Casado, na Catalunha.
13 Janeiro 2007, Monte da Virgem, Vila Nova de Gaia
Hoje foi difícil observar o cometa. O céu esteve sempre encoberto por um manto denso de nuvens altas. Entre as 13h30m e as 16h tentei por várias vezes observar o cometa com os binóculos 12x80mm, aproveitando algumas alturas em que o manto de nuvens se tornou menos denso, e usando uma casa para tapar o Sol. Consegui vê-lo por breves instantes cerca das 15h30m. A difusão da luz pelas nuvens tornou a tarefa muito complicada e creio que nunca larguei tantas lágrimas como hoje, devido ao esforço a que submeti os olhos.
Mais tarde, já ao pôr-do-sol, fui até ao lugar de observação dos dias anteriores, que tem um horizonte desobstruído para sudoeste — oeste. Havia ainda uma camada significativa de nuvens altas, mas uma aberta nos últimos 10 graus até ao horizonte permitiu observar o cometa, apesar de por detrás de alguma névoa. Depois de o ter localizado nos binóculos consegui vê-lo a olho nu — espantoso dada a curta distância ao Sol e as nuvens que diminuíam o seu brilho aparente. Tinha um falso núcleo muito brilhante (era difícil estimar a magnitude) e uma cauda com uma curvatura clara cujo primeiro 1/2-1 grau era evidente nos 12x80mm.
Fiquei a observá-lo até desaparecer gradualmente na camada de nuvens junto ao horizonte.
O cometa McNaught e o Sol, no fim da tarde do dia 13 de Janeiro de 2007, o último dia em que o cometa seria visível para observadores em latitudes médias no hemisfério norte. Fotografia de Mauro Zorzenon e Cristina Scauri, a partir do Monte Matajur, na província de Udine, Itália.
Depois do periélio, já no céu austral, o cometa McNaught proporcionou um espectáculo notável.