O Rapto de Europa e as Filhas de Atlas
O touro é um animal central na mitologia dos vários povos que habitaram a região mediterrânica e o crescente fértil. A sua importância remonta mesmo a tempos pré-históricos, a julgar pelas frequentes representações em pinturas rupestres do auroque, uma espécie de touro entretanto extinta. É por isso natural que a constelação do Touro seja uma das mais antigas para as quais há registos históricos, com referências prováveis em textos da Suméria, na Epopeia de Gilgamesh, quando o herói Gilgamesh e o seu comparsa, Enkidu, matam o “Touro dos Céus” enviado pela vingativa deusa Ishtar.

Na mitologia grega, a figura do Touro é normalmente associada ao mito do rapto de Europa por Zeus. Europa era uma princesa fenícia — povo que vivia junto ao Mediterrâneo, na área ocupada actualmente pelo Líbano, Palestina e Israel, famoso pelas artes da navegação e comércio — que chamou a atenção de Zeus pela sua beleza. O maior dos deuses decidiu de imediato raptá-la. Para o efeito transformou-se num touro branco e misturou-se com os restantes bovídeos das manadas do rei, que pastavam junto ao mar. Ao ver o belo touro branco e manso, Europa, incauta, aproximou-se, decorou-o com grinaldas de flores e acabou por saltar para o seu lombo. Zeus aproveitou o momento e lançou-se rapidamente ao mar, levando a princesa para a ilha de Creta, onde deu à luz 3 filhos de Zeus — Minos, Radamanto e Sarpedão — e foi a primeira rainha, casando com o rei Astério (padrasto dos 3 filhos). Minos viria a ser rei de Creta depois de uma luta fratricida. A princesa deu também o nome ao velho continente. O nome era aparentemente usado como topónimo de uma região da Trácia, actual Turquia, mas foi gradualmente estendido até englobar a área actual. Zeus teria colocado a imagem do touro no firmamento em memória deste acontecimento seminal da história de Creta.

O Touro não se fica por aqui em termos de referências a episódios mitológicos. A constelação tem dois enxames de estrelas que se contam entre os mais próximos do Sol, as Híades e as Pleiades, aos quais estão associados também mitos antigos.
As Híades e as Pleiades eram filhas de Atlas (um dos derrotados na revolução liderada por Zeus contra os titãs) e Pleione ou Etra (ninfas, filhas dos titãs Oceano e Tétis). Atlas, ao contrário dos seus congéneres, foi poupado às profundezas do Tártaro, mas condenado a carregar a esfera celeste às suas costas. No que concerne às Híades, as várias fontes falam de números diferentes de irmãs e não estão mesmo de acordo quanto aos seus nomes. Alguns dos nomes citados são: Ambrosia, Eudora, Ésile, Coronis, Pólixo e Féio. A certa altura, o seu irmão Hias morreu num acidente de caça. As irmãs fizeram um luto tão rigoroso que morreram todas de desgosto. Zeus, comovido com a dedicação das irmãs a Hias, transformou-as em estrelas e colocou-as no firmamento. As lágrimas das irmãs tornaram-se um símbolo para a chuva. De facto, a aparição das Híades no firmamento, durante o Outono, anunciava o início da estação das chuvas.

As Pleiades, por seu lado, eram 7 irmãs — Electra, Maia, Taigete, Alcíone, Celeno, Asterope e Mérope — filhas de Atlas e Pleione. As irmãs eram ninfas companheiras de Artemis, a deusa da caça. Reza a lenda que, depois de Atlas ter sido condenado, as irmãs começaram a ser perseguidas pelo gigante Orionte, com propósitos pouco honestos. Zeus, compadecendo-se de Atlas, que estava preocupado com o destino das filhas, transformou as irmãs em pombas, mas Orionte não desistiu. Finalmente, Zeus transformou-as em estrelas e colocou-as no firmamento, com o gigante Orionte por perto mas nunca conseguindo alcançá-las. Outra versão da lenda conta que as Pleiades se suicidaram quando foram confrontadas com a condenação do seu pai, Atlas, ou com a morte das suas irmãs, as Híades. Em virtude destes episódios, Zeus transformou-as em estrelas e colocou-as na esfera celeste.

Aldebaran, a estrela α e a luminária da constelação, é uma gigante situada a cerca de 65 anos-luz. Apesar de se encontrar junto às estrelas das Híades, esta associação é apenas um alinhamento fortuito — o enxame encontra-se para lá de Aldebaran, a cerca de 153 anos-luz. A cor alaranjada da estrela é devida à sua temperatura superficial de 4000 Kelvin, tipo espectral K5III, substancialmente mais baixa do que os 5800 Kelvin do Sol. Aldebaran não é uma estrela particularmente maciça, com apenas 1.7 massas solares. Quando esteve na sequência principal foi uma estrela mais quente, semelhante às componentes do sistema binário Porrima, a estrela γ da Virgem, com tipo espectral F0V correspondendo a 7200 Kelvin de temperatura superficial e um raio 30% maior do que o solar. Depois de 2.7 mil milhões de anos a transformar hidrogénio em hélio no seu âmago, a estrela ficou com um núcleo inerte de hélio em contracção lenta. Numa camada adjacente ao núcleo, a temperatura subiu o suficiente para iniciar a fusão do hidrogénio em hélio, a fonte da maior parte da energia da estrela. A energia libertada por esta camada provocou a expansão das camadas exteriores, transformando a estrela numa gigante com 43 vezes o diâmetro e 425 vezes a luminosidade do Sol, mas com uma temperatura superficial mais fria. Aldebaran está a caminho de se transformar numa gigante vermelha, altura em que a temperatura e densidade do núcleo será suficiente para despoletar a fusão do hélio em carbono e oxigénio, dando início a um novo ciclo de fusão nuclear.

A cerca de 153 anos-luz, o enxame de estrelas das Híades é o mais próximo do Sol e, por esse motivo, alvo de escrutínio especial por parte dos astrónomos. Por curiosidade, a essa distância o Sol teria magnitude 8.2 e seria visível apenas com binóculos ou com um pequeno telescópio.
Um enxame de estrelas consiste num grupo de centenas ou milhares de estrelas que nasceram em conjunto, numa mesma nuvem molecular, e que têm por isso a mesma idade, a mesma abundância de elementos e a mesma trajectória no espaço. O enxame mantém-se coeso devido à atracção gravitacional mútua entre os membros. Os membros mais brilhantes das Híades, nomeadamente a γ, a δ-1, a ε e a θ do Touro, formam com Aldebaran um asterismo em forma de “V” que marca a cabeça do Touro. Estas estrelas são também gigantes laranja, como Aldebaran mas mais luminosas, e foram as primeiras estrelas do enxame a evoluir para fora da sequência principal. Estudos da população estelar do enxame mostram que as estrelas que o compõem devem ter nascido há cerca de 625 milhões de anos e ocupam agora um volume de espaço com cerca de 65 anos-luz, incluindo os membros mais periféricos. Algumas estrelas do enxame detectadas para lá deste limite terão já conseguido escapar à atracção gravitacional do conjunto dos membros e dispersar-se-ão gradualmente pelo espaço. Esse será provavelmente o destino das restantes estrelas do enxame ao longo de muitos milhões de anos.

Por seu lado, o enxame das Pleiades é constituído por estrelas bem mais jovens, com uns estimados 100 milhões de anos de idade. O enxame está localizado entre as Híades e os pés de Perseu, uma das constelações adjacentes ao Touro. Estimativas recentes colocam as Pleiades a uma distância de 430 anos-luz, aproximadamente 3 vezes mais distantes do que as Híades, o que explica, juntamente com a sua maior juventude, porque ocupam uma área do céu bem mais pequena. A essa distância o Sol teria magnitude 10.5 e seria necessário um pequeno telescópio para conseguir observá-lo.
As estrelas mais brilhantes do enxame são gigantes de tipo espectral B, quentes e muito luminosas. Alcione, a mais brilhante, é 6 vezes mais maciça e 2400 vezes mais luminosa do que o Sol. Nove das estrelas do enxame têm nomes — 2 têm o nome dos pais, Atlas e Pleione, as restantes 7 os nomes das irmãs. O enxame está a atravessar uma região do espaço ocupada pela nuvem molecular do Touro-Cocheiro. A luz branca-azulada das suas estrelas mais luminosas é reflectida pela poeira e pelo gás interestelares permitindo observar a intrincada teia de material que rodeia o enxame e que o torna tão fotogénico. As estimativas actuais apontam para que o enxame tenha cerca de 1000 membros dispersos por uma região do espaço com 43 anos-luz.

A nuvem molecular de Touro-Cocheiro é a maternidade estelar mais próxima do Sol, situada a apenas 430 anos-luz. É visível em fotografias como uma série de filamentos escuros de poeira interestelar que ocupam parte das constelações do Touro e do Cocheiro e a região dos pés de Perseu. Esta nuvem molecular é estudada intensamente pelos astrónomos que tentam perceber o processo de formação das estrelas e dos sistemas planetários pois nela foram identificadas várias estrelas recém nascidas (com algumas dezenas de milhares de anos) e alguns embriões de estrelas em formação. As estrelas formadas por esta nuvem têm massas modestas, semelhantes ou ligeiramente inferiores à do Sol. Neste local, poderíamos muito bem imaginar-nos a assistir ao nascimento do nosso Sistema Solar.

