Já a Formiga Tem Catarro

As anãs vermelhas são as estrelas mais pequenas, menos luminosas e menos maciças do Universo. Um exemplar típico tem cerca de 35% do tamanho e da massa do Sol e apenas 2% da sua luminosidade. São por isso estrelas muito débeis e difíceis de observar para lá de um raio de algumas centenas de anos-luz. Apesar disso são as estrelas mais abundantes no Universo. Como todas as outras estrelas, são constituídas por plasma, gás ionizado a temperaturas muito elevadas. O plasma em movimento, devido à rotação da estrela e a correntes de convecção no seu interior, gera um campo magnético intenso. Este último, por sua vez, é responsável pela actividade estelar, nomeadamente por erupções (flares) que libertam grande quantidade de energia sob a forma de radiação e partículas.

Representação artística do sistema binário DG CVn, com uma erupção energética na componente mais próxima na imagem. Crédito: NASA/Goddard, S. Wiessinger.

As estrelas mais jovens têm períodos de rotação mais pequenos (rodam mais rápido) do que estrelas de meia idade como o Sol. Essa velocidade de rotação é uma relíquia da sua formação pela da contracção de uma nuvem de gás e de poeira interestelar. Por outro lado, nas anãs vermelhas, a transferência de energia no interior da estrela, desde o núcleo, onde ocorre a fusão do hidrogénio em hélio, até à superfície, é feita por correntes de convecção no plasma. No Sol, uma estrela mais maciça, a transferência é feita pela radiação até 70% do raio e por convecção nos restantes 30%, até à superfície. Por estes motivo, as anãs vermelhas jovens têm campos magnéticos fortíssimos — a mistura de rotação rápida com muita convecção é explosiva. Literalmente.

A transferência de energia no interior das estrelas, desde o núcleo até à superfície ocorre por dois processos principais: radiação e convecção. Nas anãs vermelhas, o transporte é feito exclusivamente por convecção. Fonte: Wikipedia.
As estrelas do sistema sêxtuplo de Castor, a estrela alfa da constelação dos Gémeos (α Gem) observado em raios X pelo telescópio XMM da ESA. Cada uma das componentes A e B é dupla, mas tal não é visível na imagem. São estrelas mais maciças e luminosas do que o Sol. No entanto, é a componente C (YY Gem), que é também uma dupla, formada por duas anãs vermelhas jovens, que domina por completo a luminosidade em raios X do sistema, devido à elevada actividade magnética. Crédito: XMM/ESA.

As anãs vermelhas, em especial as mais jovens, têm episódios de grande actividade, com erupções muito mais energéticas do que as solares. Toda esta actividade manifesta-se também no seu brilho que varia ao longo do tempo — muitas são “estrelas variáveis”. É o caso de DG CVn, um sistema binário formado por duas anãs vermelhas jovens, distante de 60 anos-luz na direcção da constelação Boreal dos Cães de Caça (Canes Venatici em latim, daí o “CVn”; o “DG” no nome diz-nos que é uma estrela variável). Uma das estrelas do sistema teve uma erupção tão intensa que foi detectada pelo observatório espacial SWIFT, que observa o firmamento em raios gama e raios X alertando os astrónomos para fenómenos transientes de alta energia. Com base na energia dos raios X detectados, os astrónomos calcularam que, no pico da erupção, as temperaturas atingiram os 200 milhões de Kelvin, cerca de 12 vezes a temperatura no núcleo do Sol! Na escala de energia utilizada para classificar as erupções solares, o recorde absoluto do Sol é uma erupção X45 (o X é o tipo mais energético, o 45 indica a intensidade dentro desse tipo), ocorrida em Novembro de 2013. Nesta escala, a erupção observada pelo SWIFT na DG CVn seria o equivalente a uma X100000 solar! A erupção foi tão violenta que a estrela demorou 20 dias até retomar os níveis de actividade normais.

https://www.youtube.com/watch?v=hL9OHXw_-A8

(fonte: NASA/Goddard)

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