No Fio da Navalha
Uma estrela vive sempre no fio da navalha. Por um lado, o peso do gás ionizado (plasma) que a constitui tenta constantemente esmagá-la, pois as estrelas não têm corpos nem superfícies rígidas. Por outro lado, a radiação libertada pelas reacções de fusão no seu âmago, em que átomos mais complexos são sintetizados a partir de outros mais simples, exerce uma pressão no plasma, forçando a sua expansão. O delicado equilíbrio entre estas duas forças antagónicas tem de ser mantido ao longo da vida da estrela.
Algumas estrelas, no entanto, como η Carinae — a estrela “eta” da constelação austral Carina, a Quilha — são tão maciças, têm núcleos tão quentes e são tão luminosas que a pressão da radiação está próxima do valor máximo teórico a partir do qual a estrela se dispersa completamente pelo espaço. Este limite máximo para a luminosidade de uma estrela é designado de “Limite de Eddington”. η Carinae é na realidade um sistema composto por duas estrelas supergigantes azuis, muito quentes. A maior das duas estrelas tem cerca de 100 massas solares e uma luminosidade de 5 milhões de sóis em todos os comprimentos de onda do espectro electromagnético. É uma das estrelas mais luminosas da Via Láctea e vive perigosamente perto do limite de Eddington.
Estrelas como esta são muito instáveis e perdem massa a um ritmo prodigioso numa tentativa desesperada de manter o seu equilíbrio interno. No início do século XIX, η Carinae, normalmente no limite de visibilidade a olho nu, começou lentamente a aumentar até atingir um pico de luminosidade em 1843. Nesse ano, a estrela foi a segunda mais brilhante do céu, ultrapassada apenas por Sirius, na constelação do Cão Maior. Por detrás desta erupção, sabe-se hoje, esteve um episódio particularmente violento de perda de massa por parte da estrela: η Carinae ejectou para o espaço cerca de 10 massas solares de material que formaram gradualmente uma nebulosa bipolar em torno do sistema binário. Este material, à medida que ia arrefecendo, tornou a estrela mais brilhante no espectro visível, apesar da luminosidade total, em todos os comprimentos de onda, do sistema se ter mantido essencialmente constante. Imaginem só — 10 massas solares atiradas para o espaço em apenas alguns anos. Para estrelas como η Carinae, a luta pela sobrevivência pode ter resultados espectaculares.


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