Porquê?
Quando espreito por um telescópio e observo uma galáxia distante, nunca vejo imagens semelhantes às maravilhosas fotografias coloridas obtidas com o Telescópio Espacial Hubble e outros grandes telescópios na superfície da Terra. Salvo raríssimas excepções, nunca vejo cores, e os detalhes finos que vejo nas fotos transformam-se num objecto débil e difuso na ocular. Mas então, porque gosto eu de observar o céu nocturno com um telescópio? Porque gosto eu daqueles objectos débeis e difusos? Porque não me contento em ficar no conforto do meu lar a folhear os livros de fotografias, em vez de passar noites inteiras ao relento?
Porque sempre que espreito pela ocular e vejo uma destas galáxias longínquas lembro-me que, para poder vê-las, um fotão gerado numa reacção nuclear numa das suas milhares de milhões de estrelas viajou durante milhares de anos no interior da estrela, desde o seu núcleo até à sua fotosfera. Enfraquecido, menos energético, depois de tal viagem épica, o fotão teve ainda a energia suficiente para encetar uma nova viagem de milhões de anos através do espaço intergaláctico, talvez o mais perfeito e frio dos vácuos, até atingir a Via Láctea e depois atravessá-la até atingir a Terra, num dos braços espirais da galáxia, na sua periferia. Aqui chegado, num último esforço, atravessou a atmosfera turbulenta do planeta, um verniz que o envolve com apenas uma dúzia de quilómetros, entrou no telescópio, atravessou a ocular e excitou uma das células sensíveis à luz na minha retina. Por fim, o meu cérebro recebeu um minúsculo impulso eléctrico que traduziu num sentimento, um sentimento a que chamamos “deslumbramento”.

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