Happy Christmas

Joe Swanberg é um dos autores mais importantes no actual panorama do cinema norte americano, continuando a trabalhar num ritmo assinalável (33 anos, 18 filmes realizados). A fórmula que tem vindo a repetir e que o posiciona como a maior referência do mumblecore, género associado com um universo de referências estéticas evocativas de um ethos DIY enquanto proposta contemporânea (pós-moderna, norte-americana, no fundo) evocativa de uma certa visão do neo-realismo, continua apesar de tudo com sinais de vitalidade. Os seus filmes são filmes de personagens à procura do seu espaço, preocupados em estabelecer a sua identidade em função das pressões exteriores com que se deparam: é nesta aparente banalidade e trivialidade que Swanberg coloca em evidência as ansiedades existências do aqui e agora, que no seu caso em particular coincide com essa multidão sonhadora dos recém-adultos dos grandes centros urbanos da América do Norte, país dos libertos e dos torturadores.

Em Happy Christmas deparamo-nos perante um território familiar: por alturas do Natal, Jenny (Anna Kendrick) vai viver para Chicago na ressaca de um relacionamento amoroso, ficando temporariamente na casa do seu irmão Jeff (Joe Swanberg, no registo autobiográfico que lhe é reconhecido). Jeff é casado com uma aspirante a escritora Kenny (Melanie Lynskey) que agora vê os seus dias ocupados a tratar do recém nascido, e é em função desse trio que Happy Christmas se vai desenvolvendo dramaticamente. O excelente tacto para o diálogo de Swanberg continua a ser uma fonte inesgotável de prazer, e um dos pontos fulcrais da sua força criativa: aqueles relacionamentos interpessoais têm sempre uma dignidade comovente e as conversas do trivial quotidiano são o centro do universo; no lugar de um narcisismo atroz, a humanidade das coisas simples.

Num dos momentos mais bem conseguidos do filme vemos Kenny a reflectir sobre a experiência de ser mãe, dando conta das suas frustrações e triunfos diários. A complexidade da maternidade num ambiente cultural que mistifica o papel da mulher — numa das suas configurações, ser-se independente e mãe simultaneamente, são requisitos que não se contradizem — , é convocada para o cinema de Swanberg a partir dos significantes mais emblemáticos do mumblecore, sejam eles o diálogo improvisado sobre uma estrutura definida sem grandes absolutos ou a câmara móvel na fronteira do documental.

É aliás uma das sequências que conta com a participação de Lenna Dunham, uma das cronistas mais destacadas dessa poética do presente, que aqui representa o papel de amiga de Jenny. É, contudo, uma personagem ornamental; por um lado, por funcionar apenas como side-kick; por outro, por constituir um declarado piscar de olho ao universo cultural que Dunham representa. Será talvez este um dos sintomas do patamar que Swanberg-realizador atingiu, e por consequência do próprio fulgor do mumblecore enquanto programa estético, já demasiado auto-consciente para se manter verdadeiramente nas margens. A questão da urgência de um programa estético alinhado com a imediacia do cinema directo fica assim justaposta à imediacia da lógica do mercado.

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