Competências para o século XXI

Hoje fala-se muito em competências para o Séc. XXI. Muitas pessoas associam esse conceito ao uso dos computadores e dos telemóveis na educação. É certo que as competências para o Séc. XXI têm muito a ver com o uso das tecnologias da informação, mas pensar que é isso que as define é um erro.

As competências para o Séc. XXI nasceram numa relação com a tecnologia, mas não se esgotam no uso da tecnologia. A sociedade actual é marcadamente uma sociedade em que os ambientes de trabalho recorrem a instrumentos tecnológicos e ao tratamento de informação. Contudo, há outras características relevantes no ambiente em que as pessoas vivem. Por um lado, as pessoas trabalham cada vez mais em equipa, o que exige da sua parte competências colaborativas fundamentais. No livro Wikinomics, de Don Tapscott, argumenta-se de forma convincente que muitas vezes o pensamento colectivo é mais eficaz a resolver problemas do que especialistas isolados. Um bom exemplo disso é o facto de muito software open source existente ser o produto de trabalhos colaborativos de várias pessoas em várias partes do mundo. Por outro lado, a complexidade da sociedade actual exige processos de resolução de problemas que nem sempre são bem definidos ou nem sempre podem ser resolvidos pelos processos formais existentes e aprendidos nas escolas. Estes problemas exigem, normalmente, criatividade e um tipo de características pessoais que nem sempre são valorizados pelos métodos de ensino tradicional. Dado que os problemas são novos, desafiantes e mal definidos, e em certos casos caóticos, as capacidades de improvisação, criatividade, inovação e risco tornam-se qualidades muito importantes. Talvez por isso, Eric Schmidt, CEO da Google, tenha referido que não basta contratar pessoas inteligentes, mas é necessário que essas pessoas sejam dotadas de duas qualidades essenciais, persistência e curiosidade.

Talvez na história da humanidade nunca tenha havido tantas pessoas intelectualmente capazes como neste momento da história. O número de pessoas com cursos universitários e doutoramentos cresceu consideravelmente e, por isso, os factores distintivos passarão a ser não os títulos académicos, mas os traços de carácter e as atitudes.

A capacidade de trabalhar em ambientes informacionais, colaborativos e com altos graus de incerteza será uma exigência das sociedades do futuro.

Perspectivando esta tendência, ainda no séc. XX, várias organizações começaram por definir as competências que seriam necessárias para operar num cenário destes e foi assim que surgiram as competências para o Séc. XXI. De entre os diferentes contributos de várias organizações destacam-se:

  1. UNESCO
  2. UE (Comissão Europeia)
  3. OCDE
  4. FEM (Fórum Económico Mundial)
  5. P21 — Partnership for 21st Century Learning

Embora cada uma destas organização proponha o seu próprio modelo, elas acabam por reconhecer que a aprendizagem não se pode resumir ao desenvolvimento de capacidades cognitivas (como ler, escrever, calcular, …) , mas tem que incluir atitudes, valores e uma consciência cívica.

A Comissão UE, por exemplo, propõe que se dê ênfase a competências como:

  • Aprender a aprender
  • Responsabilidade social e cívica
  • Iniciativa e empreendedorismo
  • Consciência cultural
  • Criatividade

A Partnership 21, por seu lado, salienta a importância dos 4C’s:

  • Pensamento Crítico
  • Comunicação
  • Colaboração
  • Criatividade

O Fórum Económico Mundial dá importância aos 4C’s atrás referidos, mas acrescenta a essas competências uma série de qualidades de carácter que são fundamentais:

  • Curiosidade
  • Iniciativa
  • Persistência
  • Adaptabilidade
  • Liderança
  • Consciência Social e cultural

Alguns dos sistemas mais bem sucedidos do mundo adoptaram modelos educativos ancorados nestas propostas, como é o caso de Singapura e Finlândia. Como refere o FEM, a aprendizagem social e emocional, baseada em valores e qualidades de carácter, é mais eficaz do que uma aprendizagem meramente centrada em capacidades cognitivas. As escolas não podem ignorar este argumento. Não se trata, assim, de definir competências para o Séc. XXI apenas porque a sociedade as exige, mas trata-se também de reconhecer que uma abordagem pedagógica que valoriza essas competências conduz a uma aprendizagem mais ampla, profunda, eficaz e socialmente bem sucedida.

Nesta interessante entrevista, Tony Wagner, Diretor do Laboratório de Inovação da Universidade de Harvard acaba por salientar estas competências:

Framework for 21st Century Learning — P21. (2017, July 15). (http://www.p21.org/)

Education for the 21st Century. (2017, July 15). (http://en.unesco.org/themes/education-21st-century)

What are the 21st-century skills every student needs? | World Economic Forum. (2017, July 15).


Originally published at oapagador.wordpress.com on July 14, 2017.

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