Floresta dos Lamentos (Mogari no Mori)

de Naomi Kawase

João Fonseca
Sep 5, 2018 · 2 min read

A Floresta dos Lamentos ( Mogari no Mori) venceu o prémio do grande prémio no Festival de Cannes 2007 (o segundo mais importante a seguir à Palma de Ouro). O filme constitui uma longa reflexão interior e estética, repleta de silêncios e parcas palavras. Machiko é uma enfermeira que cuida de idosos num lar situado no meio da floresta. Ao longo do filme, ela vai estabelecendo uma relação próxima com o idoso Shigeki . Shigeki sofre de problemas mentais e as suas reacções para com Machiko são por vezes agressivas e despropositadas. Machiko aceita pacientemente os comportamentos do idoso e acaba por o acompanhar num passeio junto à floresta. De forma incompreensível, ele acaba por tentar fugir de Machiko levando às costas uma mochila. Machiko apanha-o e segue-o pela floresta até que a noite cai e, depois de uma chuva intensa, perdem-se os dois… Machiko não se guia apenas pela responsabilidade de proteger e salvar Shigeki, ela carrega uma culpa que necessita de expiar… O seu filho morreu porque ela lhe largou a mão… talvez por isso, ela não pode abandonar Shigeki… os comportamentos de Shigeki são tão elementares como os de uma criança, a irresponsabilidade com que ele prossegue subindo a floresta é incompreensível para Machiko, mas ela não lhe larga a mão, porque não pode voltar a falhar… Shigeki vive obcecado com a a sua mulher Mako, que morreu há 33 anos… aquilo que ele procura na floresta é, de certo modo, a memória da sua mulher, que, segundo a tradição budista, ao fim de 33 anos, passará a entrar no mundo do Buda…

Neste filme há muitas questões sem resposta e muitos silêncios… a lentidão da parte inicial do filme poderá levar muitos espectadores a ter o desejo de desistir, mas o filme vale por algumas cenas muito bem construídas (a conversa entre Machiko e o marido, a cena da melancia, bem como o clímax e as últimas cenas do filme). A narrativa não é nada convencional e muitas vezes temos a impressão que estamos a ver um documentário, o que não é estranho à carreira da realizadora Naomi Kawase, já que foi nesse registo que ela se iniciou. Interessante é também o facto de que Naomi Kawase vivenciou pessoalmente o problema da demência dentro da sua família, o que pode ter sido uma inspiração para este filme…

O filme termina sem que saibamos o que sucederá a seguir. No entanto, sugere-se que Machiko conseguiu expiar a sua culpa e redimir-se da sua falha… Na brutalidade crua da terra e na brutalidade crua da mente humana que se vai desestruturando, ainda podemos ver um rasgo ténue de beleza, um vislumbre do mistério da condição humana…


O apagador

Filosofia, Pensamento Crítico e Educação

João Fonseca

Written by

Professor de Filosofia.

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