Há estudos, mas…

Hoje há um grande investimento na área da tecnologia aplicada à educação (Ed-tech). Milhares de investidores financiam startups que se querem aventurar no apetecível mercado do ensino. As suas esperanças não devem ser vãs e irrealistas, uma vez que os verdadeiro tubarões da tecnologia, como a Google ou a Microsoft, também vão arriscando nessa área.

Microsoft Education

A Microsoft Educação desdobra-se numa panóplia de propostas que vão desde os surface ao software (OneNote, Teams, Sway, Minecraft, etc…), passando pela formação pedagógica (Imagine Academy). A Google por seu lado tem apostado forte na Google Classroom e nos chromebooks. Se olharmos para este fenómeno do ponto de vista dos valores envolvidos neste novo negócio, não restam dúvidas que ele veio para ficar.

No artigo “Education Technology: An evidence-based review”, de Maya Escueta et. al, publicado pelo National Bureau of Economic Research, em agosto de 2017, refere-se que a previsão é que esta indústria mova um total de 252 mil milhões de dólares até 2020. Contudo, como sugere o artigo, o desfasamento entre o dinheiro que as tecnologias da educação movem e as evidências científicas sobre o valor efectivo destas tecnologias é notável. Na verdade, não há tantos estudos científicos rigorosos como seria de esperar e os resultados a longo prazo não são tão eficazes quanto se pensa. Uma das conclusões do meta-estudo é que dar mais computadores e ligações wireless aos alunos só por si não permite grandes ganhos educativos, podendo mesmo, em certos casos, ser prejudicial. Por outro lado, o acesso a software especificamente dirigido para a educação pode levar a certos ganhos, principalmente na área da matemática, como o SimCalc ou o ASSISTments. Uma das vantagens deste tipo de software é o facto de permitir uma educação personalizada, já que este tipo de programas permite fazer um teste diagnóstico antecipado de modo a situar a criança numa certa zona de desenvolvimento, ao mesmo tempo que durante a instrução pode adaptar o grau de dificuldade mediante o tipo de erros cometidos. De qualquer modo, a validade científica destas descobertas é escassa e a maioria dos estudos deixa muito a desejar do ponto de vista metodológico, pelo que as estratégias de marketing para atrair clientes e investidores, na maior parte dos casos, sobrepõem-se à boa ciência. Como referem os autores do artigo:

“Descobrimos que simplesmente disponibilizar aos alunos acesso à tecnologia comporta resultados distintos. Desde o infantário até ao 12ºano, a maior parte das provas experimentais sugerem que dar um computador a uma criança pode ter pouco impacto nos resultados de aprendizagem, embora geralmente melhore a sua proficiência com os computadores e outros resultados cognitivos.”

Os políticos responsáveis pela educação e os directores das escolas não devem, por isso, deixar-se enganar pelos vídeos fancy criados para atrair pais e professores. A educação continua a ser e será no futuro um assunto essencialmente humano. A pedagogia é, sem dúvida, mais relevante e fundamental do que a tecnologia. Sem retirar à tecnologia o valor que ela tem, essencialmente pela facilitação dos processos de transmissão de informação, não podemos cair na ilusão de que a tecnologia resolverá os problemas da educação. As opções pedagógicas que orientam o trabalho dos professores, professores motivados e realizados, e a paisagem educativa criada no interior das escolas são a chave do sucesso. A tecnologia cabe dentro dessas opções, mas apenas como um meio ou instrumento e não como um fim. A tecnologia não põe as pessoas mais inteligentes, embora aqueles que são inteligentes podem beneficiar consideravelmente do uso da tecnologia.

Segundo o referido meta-estudo, se há alguma área promissora no uso da tecnologia é a aprendizagem assistida no computador no caso da matemática e, embora com menos sustentação, intervenções na área do comportamento. No caso da matemática, o feedback imediato a quando da realização de trabalhos de casa usando o computador parece ser um factor importante.

Dada a multiplicação das ofertas de tecnologia na área da educação, urge que haja mais meta-estudos independentes como este. Sem boa informação na área da Ed-tech, corremos o risco de nos deixar encantar pelo canto sedutor da sereia.


Maya Escueta et al. “Education Technology: An evidence-based review”, National Bureau of Economic Research, agosto de 2017.