Mitos sobre educação

No livro “Learn Better: Six Strategies for Mastering the Skills for Success in Life, Business and School” o investigador e jornalista Ulrich Boser explora formas de nos levar a aprender a aprender.

Saber aprender é uma necessidade, pois há muitas crenças que circulam na cultura popular e nos hábitos de pais e educadores sobre como é que nós aprendemos, mas muitas vezes essas crenças estão completamente erradas. Num inquérito que realizou a 3,000 americanos, Boser descobriu que as pessoas acreditam em muitas ideias erradas sobre aprendizagem. Vejamos algumas dessas ideias.

  1. A inteligência é inata e isso determina praticamente a nossa capacidade de aprender.
  2. Sublinhar, detectar palavras-chave ou ler e reler várias vezes um texto é fundamental para o compreender o texto.
  3. A inteligência é algo fixo.
  4. Resumir e verificar os pontos principais de um assunto antes do teste é fundamental para resolver bem o teste.
  5. Há diferentes estilos de aprendizagem e cada um tem que descobrir o seu estilo (visual, auditivo, …)
  6. Deve-se estudar continuamente.
  7. Há pessoas que aprendem melhor com o hemisfério direito e outras com o hemisfério esquerdo.

Na verdade, a investigação recente mostra que o nosso cérebro está disposto a aprender permanentemente, pois a plasticidade cerebral é um facto indesmentível. Por outro lado, a atitude mental é tão importante como a inteligência. A valorização do esforço e do envolvimento pessoal ou atitudes de carácter como a persistência e a curiosidade são fundamentais na aprendizagem.

Relativamente à compreensão de textos, é melhor ser capaz de explicar as ideias para si mesmo, ou para outra pessoa, do que sublinhar ou reler. Muitos estudos mostram que uma das melhores formas de compreender um assunto é ensiná-lo. Do mesmo modo, quando temos que estudar para um teste, o melhor é fazer testes (quizzes) de modo informal antes de realizar o teste. A crença nos resumos é uma crença que assenta mais no hábito do que na investigação.

Quanto aos diferentes estilos de aprendizagem, trata-se de um mito na medida em que a investigação não confirma que tais estilos realmente existam. Muitas vezes, as investigações que são realizadas em neurociência conduzem a divulgações algo superficiais e enviesadas dos resultados dos estudos. Um dos mais famosos mitos que confirma esta ideia é a de que apenas usamos 10% do nosso cérebro. Outra foi a extrapolação feita a partir das diferenças funcionais entre hemisférios cerebrais a partir dos estudos de Michael Gazzaniga sobre slipt-brain (cérebro dividido após realização de uma calosotomia, ou seja, o corte do corpo caloso que liga os dois hemisférios cerebrais). Pelo facto de haver diferenças de processamento dos hemisférios cerebrais, não se pode deduzir com rigor que por uma pessoa revelar mestria na realização de tarefas artísticas, implica que se trata de alguém com um hemisfério direito mais desenvolvido do que o hemisfério esquerdo. O cérebro, embora tenha áreas funcionais especializadas, funciona como uma totalidade, num processo de interactividade permanente entre várias áreas.

Há muitos outros mitos que poderíamos acrescentar à lista acima referida.

  1. Os alunos cada vez sabem menos
  2. Aumentar os trabalhos de casa implica mais aprendizagem
  3. O ambiente escolar não é muito importante
  4. Através da educação podem-se resolver todos os problemas sociais
  5. O sucesso do aluno depende apenas do tipo de professor
  6. O tamanho das turmas não é relevante
  7. Se reproduzirmos fórmulas de sucesso de outros países como a Finlândia, também atingimos os mesmos resultados
  8. A competição é a melhor forma de melhorar os resultados no ensino
  9. Sem testes e exames padronizados os alunos não aprendem como deve ser
  10. (…)

Estou certo que o leitor será capaz de acrescentar outros mitos a esta lista.


REFERÊNCIAS

8 Myths That Undermine Educational Effectiveness | Edutopia. (2017, July 14).

Learning Myths And Realities From Brain Science : NPR Ed : NPR. (2017, July 14).

Reynolds, M. (1997, June 1). Learning Styles: A Critique. Management Learning. https://doi.org/10.1177/1350507697282002


Originally published at oapagador.wordpress.com on July 14, 2017.