Fica quieto, vai.

Imagem: Photo Invasion do Lucas Levitan

- E você tem medo que sua mãe descubra?

- É.

- Mas… Deixa ver se eu entendi. Sua mãe tá bem de saúde?

- Sim, tá ótima.

- E o seu medo é qual, então?

- Que ela descubra que vai morrer.

- Mas você não disse que ela tá ótima?

- Sim, ela tá ótima. Mas um dia ela vai morrer e

- Ela vai morrer como todo mundo, um dia. Mas ela sabe disso…

- Sim, eu sei, claro que eu sei que no fundo ela sabe. Mas ela não sabe sabe, sabe? Ela ainda não foi lembrada exatamente disso, que

- Como assim? Tem que lembrar as pessoas que elas vão morrer um dia?

- Não, é justamente isso que eu não quero! Que ela saiba.

- Que ela saiba que vai morrer?

- É, que ela tá entre os próximos. Que depois que a minha vó morrer

- Pera aí, sua vó ainda tá viva?

- Sim, e tá ótima, a velhinha. É uma figura! Mas

- Mas você tá preocupada com a sua mãe?

- É. Porque tá chegando o momento da minha vó e

- Mas sua vó tá ótima, você disse!

- Tá ótima, mas ela tá entre os próximos…

- Não era sua mãe? Quem tá entre os próximos, afinal?

- Tipo… numa escala?

- É….. numa escala.

- Olha, acho que meio óbvio, né. Primeiro minha vó, claro.

- Claro. Mas ela tá ótima.

- Tá, tá ótima. Ih, aquela lá vai longe. O que me preocupa é que logo que ela for, ou antes mesmo dela ir, a minha mãe vai acabar se dando conta que… né?

- Mas você acha que .. Você fala como se fosse um segredo. Que ninguém sabe que sua vó vai morrer e depois, na ordem das coisas, sua mãe também vai, eventualmente, mo

- Shhhhh. Para. Ela deve chegar logo mais.

- Mas como assim? Sério, você acha que é tipo um segredo? Que todo mundo vai morrer e que, vai saber por quê, só a gente sabe disso?

- Ai, você falando assim parece até que eu sou louca. Mas não tem a ver com ser um segredo. Tem a ver que…

- Que…?

- Que eu não queria que elas lembrassem, sabe?

- Mas qual o seu medo?

- Tenho medo da minha mãe lembrar e não… sei lá, não aguentar.

- Não aguentar e.. o quê? Morrer?

- Você tá ironizando. Mas é sério. Como é que aguenta? Quando a gente sabe que vai morrer?

- Mas a gente sabe que vai morrer, é esse o trato! Eu sei, você sabe… é mais ou menos a única coisa que a gente sabe. Pode ser hoje, saindo daqui. Eu, você. Pronto, de repente acaba.

- Você fica reduzindo as coisas. E agora vai dizer o que, que acaba e pronto? Que não tem nadinha depois?

- Talvez até tenha, mas…

- Quer dizer, você é desses céticos? Que não acredita que a coisa continua, de algum jeito? Me diz, é isso que você tá dizendo?

- Eu não sei se acredito, sei lá. Mas tanto faz eu! E você, acredita? Porque, se você acredita, qual o medo então?

- Eu acredito, claro que acredito. Porque senão qual o sentido dessa coisa toda, de viver, de se preocupar com isso, com aquilo, com… Só pode ter alguma coisa depois, é claro que tem alguma coisa.

- Mas e qual o drama então? Se você tá certa que sua mãe, sua vó, que todo mundo vai ter algo depois, não precisa ficar em segredinho que sua mãe vai morrer.

- Fala mais baixo, já falei!

- Ai, meu Deus.

- Ótimo, não acredita, mas fala em Deus.

- Sério, o que você quer?

- Que você me diga que tem sim alguma coisa depois. É que eu tenho minhas dúvidas… Ninguém nunca

- É, ninguém nunca…

- Não é estranho? Tanta forma de comunicação que inventaram e ninguém nunca

- Ninguém ninguém, também não. Tem esse povo aí, que se

- Mas vamos combinar que sempre é meio esquisito, não é? Nuns lugares tudo esquisito. Se fosse tão simples, precisava ser assim, com aquela gente vestida estranha, com aquelas vozinhas que parece que o cara tá de brincadeira? Isso pra mim só piora, fica mais difícil de acreditar.

- É… Uns nomes esquisitos também.

- Então. Se fosse tranquilo, isso tava sendo divulgado nos shoppings, sabe? Mas é sempre nuns moquifos. Você já foi em algum?

- Já. Minha tia me levou uma vez. Eu era criança, morri de medo.

- Então! Se tem isso mesmo, não era de ser tudo bonito, leve? É sempre meio escuro, uns cheiros estranhos. Aí fica essa dúvida…

- Mas então você não acredita?

- Ai, eu não sei. Queria tanto uma confirmação… Um comunicado oficial, pra tranquilizar. Ia ser ótimo. Aí eu ia poder falar com a minha mãe, sabe. Não ia ter esse drama todo toda vez que eu encontro a minha vó.

- Que tá ótima.

- É. Tá ótima. Figura…

- Sei. É… Mas olha, relaxa. Ela sabe.

- Sabe, mas não lembra. Fica quieto, vai.

o banzeiro

literatura em ondas

)
Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade