Fica quieto, vai.

- E você tem medo que sua mãe descubra?
- É.
- Mas… Deixa ver se eu entendi. Sua mãe tá bem de saúde?
- Sim, tá ótima.
- E o seu medo é qual, então?
- Que ela descubra que vai morrer.
- Mas você não disse que ela tá ótima?
- Sim, ela tá ótima. Mas um dia ela vai morrer e
- Ela vai morrer como todo mundo, um dia. Mas ela sabe disso…
- Sim, eu sei, claro que eu sei que no fundo ela sabe. Mas ela não sabe sabe, sabe? Ela ainda não foi lembrada exatamente disso, que
- Como assim? Tem que lembrar as pessoas que elas vão morrer um dia?
- Não, é justamente isso que eu não quero! Que ela saiba.
- Que ela saiba que vai morrer?
- É, que ela tá entre os próximos. Que depois que a minha vó morrer
- Pera aí, sua vó ainda tá viva?
- Sim, e tá ótima, a velhinha. É uma figura! Mas
- Mas você tá preocupada com a sua mãe?
- É. Porque tá chegando o momento da minha vó e
- Mas sua vó tá ótima, você disse!
- Tá ótima, mas ela tá entre os próximos…
- Não era sua mãe? Quem tá entre os próximos, afinal?
- Tipo… numa escala?
- É….. numa escala.
- Olha, acho que meio óbvio, né. Primeiro minha vó, claro.
- Claro. Mas ela tá ótima.
- Tá, tá ótima. Ih, aquela lá vai longe. O que me preocupa é que logo que ela for, ou antes mesmo dela ir, a minha mãe vai acabar se dando conta que… né?
- Mas você acha que .. Você fala como se fosse um segredo. Que ninguém sabe que sua vó vai morrer e depois, na ordem das coisas, sua mãe também vai, eventualmente, mo
- Shhhhh. Para. Ela deve chegar logo mais.
- Mas como assim? Sério, você acha que é tipo um segredo? Que todo mundo vai morrer e que, vai saber por quê, só a gente sabe disso?
- Ai, você falando assim parece até que eu sou louca. Mas não tem a ver com ser um segredo. Tem a ver que…
- Que…?
- Que eu não queria que elas lembrassem, sabe?
- Mas qual o seu medo?
- Tenho medo da minha mãe lembrar e não… sei lá, não aguentar.
- Não aguentar e.. o quê? Morrer?
- Você tá ironizando. Mas é sério. Como é que aguenta? Quando a gente sabe que vai morrer?
- Mas a gente sabe que vai morrer, é esse o trato! Eu sei, você sabe… é mais ou menos a única coisa que a gente sabe. Pode ser hoje, saindo daqui. Eu, você. Pronto, de repente acaba.
- Você fica reduzindo as coisas. E agora vai dizer o que, que acaba e pronto? Que não tem nadinha depois?
- Talvez até tenha, mas…
- Quer dizer, você é desses céticos? Que não acredita que a coisa continua, de algum jeito? Me diz, é isso que você tá dizendo?
- Eu não sei se acredito, sei lá. Mas tanto faz eu! E você, acredita? Porque, se você acredita, qual o medo então?
- Eu acredito, claro que acredito. Porque senão qual o sentido dessa coisa toda, de viver, de se preocupar com isso, com aquilo, com… Só pode ter alguma coisa depois, é claro que tem alguma coisa.
- Mas e qual o drama então? Se você tá certa que sua mãe, sua vó, que todo mundo vai ter algo depois, não precisa ficar em segredinho que sua mãe vai morrer.
- Fala mais baixo, já falei!
- Ai, meu Deus.
- Ótimo, não acredita, mas fala em Deus.
- Sério, o que você quer?
- Que você me diga que tem sim alguma coisa depois. É que eu tenho minhas dúvidas… Ninguém nunca
- É, ninguém nunca…
- Não é estranho? Tanta forma de comunicação que inventaram e ninguém nunca
- Ninguém ninguém, também não. Tem esse povo aí, que se
- Mas vamos combinar que sempre é meio esquisito, não é? Nuns lugares tudo esquisito. Se fosse tão simples, precisava ser assim, com aquela gente vestida estranha, com aquelas vozinhas que parece que o cara tá de brincadeira? Isso pra mim só piora, fica mais difícil de acreditar.
- É… Uns nomes esquisitos também.
- Então. Se fosse tranquilo, isso tava sendo divulgado nos shoppings, sabe? Mas é sempre nuns moquifos. Você já foi em algum?
- Já. Minha tia me levou uma vez. Eu era criança, morri de medo.
- Então! Se tem isso mesmo, não era de ser tudo bonito, leve? É sempre meio escuro, uns cheiros estranhos. Aí fica essa dúvida…
- Mas então você não acredita?
- Ai, eu não sei. Queria tanto uma confirmação… Um comunicado oficial, pra tranquilizar. Ia ser ótimo. Aí eu ia poder falar com a minha mãe, sabe. Não ia ter esse drama todo toda vez que eu encontro a minha vó.
- Que tá ótima.
- É. Tá ótima. Figura…
- Sei. É… Mas olha, relaxa. Ela sabe.
- Sabe, mas não lembra. Fica quieto, vai.

