Reciprocidade diplomática

Era uma mesa apertada para os quatro, mas já estavam acostumados, tanto com os cotovelos eventualmente se batendo quanto com os acepipes escolhidos no fundo do bar e servidos em tábuas bambas de madeira, deixando os copos em risco. Isso deixava Nál apreensivo e ele tentava se concentrar nas mãos escondidas e, claro, na reunião que acontecia ali. Annamária, que escolheu o local e o horário de Happy Hour, estava se forçando a ser mais informal, aconselhada por colegas de outras cidades. Os ocupantes dos outros dois tocos de madeira utilizados como bancos eram os intérpretes do futuro casal, se é que algum dia foram considerados como tal.

Annamária se ofereceu, em inglês, para pagar pelo menos a primeira rodada de bebidas, cortesia do Consulado da Eslováquia. Havia uma verba para socialização que, mesmo exígua, jamais era gasta. Nál achou razoável e olhou para quem os acompanhava: não esboçavam reação, eram apêndices, ecos esquisitos, disponíveis para que Nál e Annamária expressassem da maneira mais natural possível os pontos fundamentais do projeto conjunto.

A campanha que nascia ali tinha um pretexto nada prosaico. As confusões entre Eslovênia e Eslováquia estavam comprometendo as atividades de consulados e embaixadas. Na Itália, representação dos dois países não tinham engolido a gafe de Berlusconi que, em 2003, cumprimentou o primeiro-ministro errado. Para piorar, ocorreu um evento de noventa anos da Checoslováquia em um centro cultural tcheco localizado em canto afastado, porém charmoso da cidade, sem que o consulado da Eslováquia fosse informado. Na verdade, a correspondência foi enviada aos eslovenos que, cansados de serem garoto de recado dos outros, simplesmente descartaram o convite. O embaixador da Eslovênia compareceu à festa, recebeu agradecimentos e uma placa comemorativa. Não fosse Pál Dukagjini, historiador renomado, logo fã de solenidades com coquetel, ninguém notaria o engano, ou pelo menos falaria sobre. Mas ele, depois de umas Becherovkas a mais, quis denunciar o ocorrido aos organizadores. Muito ofendidos, eles passaram a repórteres informações difamatórias sobre os diplomatas eslovenos, a chefe do cerimonial pediu que incluíssem suas aspas chamando o primeiro-ministro de girafa de circo decadente, porém tudo o que conseguiu foi uma nota desastrada em um jornal esportivo. Mas tchecos são rancorosos, e de tanto insistirem, os funcionários ofendidos conseguiram a troca de quase toda a equipe consular eslovena. Na mudança, cargos como o de Nál, um responsável pela divulgação de seu país como destino turístico, foram criados, Nál era recém-chegado e só naquele bar mirrado tinha percebido a dramaticidade daquela anedota, era até difícil de levar a sério. Tanto que a presença de intérpretes foi solicitada. Annamária falava pausado, dando chance para seu colega trabalhar, mas não deixava de mostrar que já tinha todo o programa em mente. Contava com a expertise de Nál para os clichês turísticos: vídeos, famílias sorridentes no verão, uma ruína ou qualquer construção de pedra antiga, um slogan animado, tudo isso mostrando dois países em vez de um só.

No breve silêncio que inevitavelmente veio, Nál quis teorizar sem mostrar incômodo com a mulher que parecia ditar como ele deveria fazer seu trabalho. Chefe de seu consulado, ela fazia de tudo que não atender telefone ou resolver problemas de expatriados no balcão (a única vez que fez os dois foi para provar a incompetência de um funcionário). Nál soube se explicar. Annamária gostou daquilo e de como ele parecia empolgado. Não deve ter muito trabalho, pensou. Em casa, contou para sua esposa sobre a reunião sem se importar que era tarde e ela já dormia. Chacoalhou a cama com ideias e foi dormir com outras mais, de manhã já queria trabalhar no projeto e estranhou que, pela primeira vez desde que sua mulher e ele moravam juntos, saiu sem beijá-la na boca.

No lançamento do programa para a imprensa, Nál e Annamária conversaram longamente, sem intérpretes, como se tornou comum logo após se conhecerem. Distribuíram pessoalmente kits com sal esloveno e queijo eslovaco aos presentes, com uma revista caprichada. Repórteres e autoridades puderam ver imagens dos castelos, montanhas e lagos de ambos. Já o mar era exclusividade da terra de Nál. Uma costa pequena mas muito bela, que deixava o rapaz animado e Annamária curiosa, seu cargo burocrático e político já o havia treinado para falar com ares de guia.

Comemoraram na Embaixada de Eslováquia o início do projeto na mesma semana, e Nál custou a ir embora. Na verdade, não foi, Annamária o tirou de lá quando ia para casa. Sugeriram, depois de tantas outras ideias de programas para fazerem na cidade (parecia que conheciam metades de Roma que se completavam), de voltar ao mesmo cantinho onde, meses antes, dividiram uma bebida com seus colegas. Annamária já tinha perguntado a ele suas intenções com aquela aproximação, mas Nál desconversou. Agora, parecia tomar uma atitude. Foi a primeira vez que ela mencionou ter marido.

Não que isso comprometesse um desejo mútuo, e eles se beijaram de uma forma apaixonada e sentida. Transaram também, na casa desocupada do esloveno. Ambos pareciam aliviados com o que tinha acabado de acontecer. E quando conversavam, depois disso, era uma conversa de melhores amigos, com abertura para falar das prioridades, cúmplices. Ele colocou à disposição de Annamária a admiração que tinha desenvolvido por ela. Não falavam de tudo, mas do que era importante, e a ordem das angústias naquela relação era outra da exposta ao resto do mundo.

O cargo de Nál exigia viagens constantes, o que veio em boa hora quando Annamária se mudou para Londres, quase um ano depois de se declararem. Sequer precisou arranjar uma desculpa para ir, nem mesmo para sua mulher, que agora estava em uma residência artística na Argentina, pesquisando os desertos de sal do norte do país para desenvolver um novo trabalho. E Nál tanto arrumou o que fazer naquela cidade chuvosa que o tempo para ele e Annamária acabou sendo exíguo. Seriam dois dias, mas uma reunião interessante foi marcada. Era tanta saudade que nem se chatearam, preferiam aproveitar.

Annamária o aguardava na frente do King’s College, o campus que, ao passar em frente, sempre lembrava de Nál. De lá iriam a um pub, depois talvez a algum lugar com música ao vivo e, só então, para a casa dela, afastada do centro. Não era a primeira vez dele na cidade, apenas o encontro deixava os dois ansiosos. Meia hora passada do horário marcado, Nál telefonou. Ela atendeu fazendo uma voz tranquila, ele dizia que estava lá. Lá onde, se não se viam. Conferiu em volta, viu uma menina tropeçar nos próprios pés ao longe e até cogitou se ele não pregava algum tipo de peça e a dispensava de uma forma grosseira. Mas ele falou em Oyster, o bilhete londrino para o metrô e ela teve a ideia de conferir: ele estava em King’s Cross, uma universidade, mas sem problemas, em questão de vinte minutos eles estavam de bocas coladas, se acariciando como se conferissem que o outro era de verdade. Tiveram cerca de dezoito horas de cervejas, caminhadas frias e alguns silêncios de falta de assunto. Não leram nenhum poema. Dormiram juntos sabendo que a melhor parte seria acordar e o outro estar ali. A despedida foi tão afobada quanto, e nos dias seguintes ocorreram muitos telefonemas dela para ele, fazendo planos futuros, não pedindo que ele voltasse naquele dia mesmo. Isso nem passou pela cabeça.

Em um evento em Roma do programa que os dois elaboraram juntos, Nál garantiu que Annamária participasse por videoconferência. Sentiu-se derreter ao ver a mulher amada em uma tela imensa, conseguia localizar cada fio de cabelo da cabeça, até um ou outro bagunçados. Pensou na casa dela, onde estavam os móveis, na passagem rápida por ali antes que fossem juntos para um hotel. Imaginou suas caminhadas sob a garoa, ao mesmo tempo que a ouvia falar de dados do número de turistas no país que tão bem representava. As mulheres eslovacas tinham fama de serem das mais bonitas do mundo, mas Nál nunca tinha ouvido isso. Naquela hora, ele só dava graças a Deus pela tecnologia e imaginava Annamária inteira em versão aumentada, uma maravilha gigante na qual ele poderia afundar.

Meses depois, Nál foi à Índia de férias com a esposa. Apesar do fuso horário diferente e da dificuldade de encontrar sinal de Internet, mandou uma foto sua risonho com dinheiro russo nas mãos. Confundiu rublos e rúpias na casa de câmbio e agora tinha que ir a um caixa eletrônico em plena Varanasi, com rituais mórbidos ocorrendo em cascata à beira do rio. Annamária não entendia como as pessoas ainda levavam dinheiro vivo para viajar e queria reprimir sua confusão, mas não falou nada. Sentia o própria Nál envolvido em uma daquelas cerimônias, visualizava-o morto em um país distante, carregado por desconhecidos emocionados. Naquela noite, enquanto ele dormia em um lugar que a ela soava muito caótico e amarelado, Annamária pensou nele e em um dia que viram juntos uma apresentação na Embaixada do Brasil. Músicos tocavam bossa nova, estilo musical que ela conhecera com seus pais, viajadores de uma época em que parecia haver uma autenticidade perdida. Mostrou a ele outras canções do estilo, e agora assistia a um filme premiado na televisão, com um casal fazendo sexo na cozinha ao som que lhe era familiar. Pesquisou o nome da música e sua letra traduzida para o inglês para mandar por e-mail, acabou esquecendo depois. Pensou nele e nele pensando nela, será que pensaria ao ver esse filme, ou pensou se já o viu. Se perguntou se, naquele caso, sabia que era Bossa Nova, música brasileira, se ouvia português e outros idiomas e como os ouvia. Pensou que era um caminho aéreo tortuoso que os unia, atrapalhado e intraduzível, e riu de si mesma comentando: relações muito internacionais.

Quando enfim se encontraram em Estocolmo, para uma reunião com suíços e suecos inspirados pelas ações profissionais de Nál e Annamária, conheceram os cônjuges. Nál tinha uma esposa muito miúda, enfeitada com colares e pulseiras parecendo uma criança que pega o que a mãe larga no criado-mudo e veste. Annamária era casada com um homem mais velho, mas pareciam perfeitos um para o outro. A questão aqui é que ela era uma pessoa diferente com seu marido e em nenhum momento parecia ser fingida ou estar em uma prisão matrimonial. Annamária tentou dar um jeito de ficar a sós com Nál, mas ele respeitou a fidelidade exigida pela conjuntura. Assistiram juntos a um espetáculo de circo, um homem de perna de pau piscou para os dois, chamando para si aquela confidência. Foram os melhores amigos que queriam parecer. Daquele encontro, uma boa possibilidade: os organizadores convidavam todos para uma nova conferência em Havana. Era uma oportunidade de conhecer o país, os cônjuges comemoraram. Quem sabe as dúvidas que rodopiaram na cabeça dos quatro naquela hora.

Ao se encontrarem no aeroporto de Havana, se cumprimentaram com um beijo rápido que pareceu natural. Havia algo de rotina no encontro, apesar de se sentirem de férias. Ela estava mais musculosa, ou então ele tinha esquecido a firmeza de seu braço. Estava mesmo, ela logo comentou, tinha adotado uma rotina de academia e musculação duas vezes ao dia. Jamais falara disso a ele. Nál tomou a frente do táxi e disse o endereço do hotel, Calle Lamparilla, 43. Annamária não entendeu aquilo, ela falava um pouco de espanhol e queria praticar, mas haveria tempo, talvez fosse só o calor do momento. E logo o táxi chegou a uma rua de cortiços, gente parada na calçada sem parecer ter algo melhor para fazer, nada de hotel. Quem sabe seriam casas de cubanos que hospedam turistas? Não, nenhuma informação. Que culpassem o espanhol inexistente de Nál, o táxi seguia para o endereço correto, Calle Antilla. Se tivéssemos que ir para a Áustria você nos levaria para a Austrália e ia jurar ver os Alpes de tão teimoso, ela falou quase gritando e com gestos exagerados. Aquilo pareceu ditar o clima da viagem, ou então foram acontecimentos extraordinários que levaram Nál a ficar por mais tempo que de costume ao telefone, fechado em seu quarto de hotel. Um dia, Annamária tomou café da manhã sozinha, e se perguntou como tinha chegado até ali. Lembrou das comparações mentais entre o esloveno e seu marido, tão eslovaco e fiel, e suas conclusões foram os clichês da melhor amiga e confidente: tudo gira em torno de um encantamento mais cultural que pessoal. Logo se refugiava em outro senso comum, o de que seus países de origem eram o mesmo ou facilmente confundíveis, portanto o que havia entre eles era paixão eterna.

Depois de Cuba, deixaram de se tratar com apelidos carinhosos, embora não deixasse de haver carinho na maneira como se tratavam. A frequência das conversas alternava entre dias pendurados no telefone até a bateria de alguém acabar e breves conferências apenas para ver se o outro estava vivo. Com ares de indiferença Annamária contou que estava de mudança para Santiago e escondeu que pretendia engravidar em breve. Talvez o silêncio quanto a um possível filho mantinha alguma esperança acesa, ou então era a oportunidade perfeita para um ultimato. Vivia sentindo-se duas, uma de presença frágil e outra ausente, perambulando com ele, vivendo uma rotina bastante estável em Liubliana. Aprendera um pouco sobre a capital eslovena, os bares que Nál frequentava, onde ele morava e detalhes sobre a história do país. Imaginava-o definhando tão fora de seu ambiente, como um balão de festa abandonado na sala. Quando anunciou uma nova mudança de vida, ele também tinha novidades: iria com a esposa a Buenos Aires, pois as suas experiências artísticas tinham lhe rendido uma apresentação de seu projeto por lá. Ela reuniria pedras de sal com circuitos elétricos, lâmpadas e amplificadores, extraindo luz e sons que revelassem a arqueologia das salinas. Era tudo muito metafórico, ele riu. Annamária e Nál não conversaram por dois ou três dias, não que a pausa fosse objeto de discussão.

créditos das imagens: Teresa C. Freitas

Se telefonaram quando estavam na América do Sul. Por coincidência, ambos em ruas chamadas Hipólito Irigoyen. Olhavam para frente imaginando o outro. Annamária pediu que Nál abandonasse sua mulher para ficar com ela, primeiro em Santiago mas em breve onde ele quisesse. Não é que ela fazia coisas e queria que ele estivesse junto, mas não havia ninguém para a acompanhar na vida que sonhava para si. Toda a sua situação, o marido, um bebê a vir quem sabe, eventuais amizades feitas e desfeitas, era tudo precário frente a vida que imaginava com ele. Ela não tinha com quem discutir suas ideias, com quem dividir xícaras de cerâmica, uma casa de madeira clara. Nál era um amor e uma alteridade, um projeto. Pausa, respiração. Nál disse que não podia, era complicado demais, mas a amava muito, tanto que aquela situação o deixava feliz, raramente ansioso. Ela pediu para ele pensar e então se decidir, e eles foram narrando o que viam. Foi a última vez que conversaram, no mesmo endereço, sem se verem. Nál falou de manifestantes na Casa Rosada, um vendedor de postais vestindo chapéu chinês. Annamária viu uma vaca e uma cabra passando lado a lado, feito amigas fofocando.