A reorganização conservadora e fundamentalista que assola o Brasil

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Dec 1, 2016 · 6 min read

A longa crise política e econômica pela qual o Brasil vem passando está forçando um rearranjo de poder entre forças sociais — contexto em que é essencial fazer uma análise sobre o aparente crescimento do conservadorismo no país. Nos espaços de representação legislativa, não há dúvidas de que os segmentos ligados às correntes do fundamentalismo religioso e penal têm tido um grande protagonismo na agenda política brasileira. O Congresso Nacional eleito em 2014 foi apontado por diversos analistas como um dos mais conservadores desde a ditadura militar. Enfim, é preciso reconhecer o crescimento de forças políticas reacionárias durante os 13 anos do ciclo petista à frente do governo federal brasileiro.

Imagem: Eraldo Peres/AP | Uol Notícias

Esse fenômeno não pode ser explicado de forma rasa e descolado da conjuntura internacional. O processo de impeachment da Presidenta Dilma Roussef demonstrou — além da ampla indignação com os inúmeros atos de corrupção praticados nas gestões petistas — uma surpreendente capacidade de mobilização de segmentos sociais vinculados à extrema-direita brasileira. Movimentos como Revoltados Online ou Movimento Brasil Livre foram protagonistas na convocação dos atos pró-impeachment, que contaram inicialmente com um pálido colaboracionismo dos partidos de centro-direita.

Não há como negar, portanto, o surgimento dessas novas referências políticas conservadoras e fundamentalistas, que infelizmente contam com larga influência de massas. O impeachment acabou sendo um laboratório para esses novos atores políticos, mas a agenda legislativa brasileira, liderada pelo então Presidente da Câmara Eduardo Cunha, já dava indícios muito evidentes da hegemonia conservadora no âmbito legislativo.

O fortalecimento deste campo ideológico não ocorre de forma isolada no Brasil. Pelo contrário, existem elementos muito fortes de uma conexão internacional desse processo. Em artigo sobre a extrema-direita escrito em 2015, o Professor Michael Löwi apontava a existência de uma ascensão conservadora na Europa impulsionada por ideologias oriundas de diferentes raízes. Para Löwi, as principais fontes deste movimento eram:

  • o ressurgimento do nazismo orgânico,
  • um novo modelo difuso de nazismo/fascismo e
  • o fortalecimento de grupos com forte conotação racista e xenófoba, mas sem vínculo aparente com as ideologias de ultradireita do século XX.

Em sua análise, o crescimento se mostra ainda mais assustador do que em 1930, por não haver nações adeptas de ideologias de extrema direita com liderança global.

Uma das explicações para esse fenômeno é a falência dos projetos de poder dos Partidos Socialistas ou Socialdemocratas europeus, que não conseguiram os resultados prometidos de enfrentamento às desigualdades sociais e “esqueceram” de tantas outras promessas econômicas e políticas de sua agenda original por terem em algum momento optado pela conciliação com a agenda do capitalismo e os grupos sociais que o sustentam. O papel conciliador, ou seja, de construção de uma suposta paz mediada entre os campos que paradoxalmente estruturam o capitalismo não foi capaz de entregar o que prometia para nenhum dos lados.

Com isso, o posicionamento da burguesia europeia toma outro rumo e o financiamento aos grupos e partidos de extrema-direita começa a acontecer de forma organizada pelos setores do grande capital: rentistas, multinacionais e banqueiros. O que significa um comprometimento militante das elites internacionais em torno de um projeto de acumulação, nem que isso signifique abrir mão de princípios democráticos e de maior liberdade nos costumes.

O envolvimento organizado de segmentos religiosos também tem grande importância. No caso da Europa, diferente do Brasil, Löwi enxerga na direita católica o maior protagonismo político neste processo. Os dados são alarmantes. Em 2014, a extrema-direita alcançou entre 25% e 30% nas eleições do Reino Unido, Dinamarca e França, e assim como o Brasil tem conseguido influenciar fortemente a centro-direita e outros campos ideológicos mais moderados. Vale aqui uma provocação de que o suposto clima de insegurança social e a islamfobia tem atraído para os discursos da extrema-direita inclusive parte dos setores progressistas ou de esquerda.

Nos Estados Unidos não é difícil perceber que a ultradireita do Partido Republicano tem crescido substancialmente no último período. A vitória em eleições majoritárias, a ocupação de cargos estratégicos no Senado e agora a indicação majoritária de Donald Trump como candidato à Presidência do país. Na luta para alcançar a nomeação, Trump não fez questão de disfarçar que seu programa vai contra os interesses de latinos, mulheres e negros além de abusar das referências discriminatórias em seus discursos.

No caso do Brasil, o metabolismo reorganizativo da extrema-direita guarda algumas peculiaridades. Aqui o papel protagonista do fundamentalismo religioso é dos setores dirigentes das igrejas neopentecostais, que tomaram a direção de diversos partidos políticos e adquiriram meios de comunicação próprios, o que sinaliza quais rumos esse processo pode tomar. Essas lideranças políticas evangélicas desenvolveram uma agenda político-ideológica e escolheram como seus maiores inimigos os LGBTs e os movimentos feministas.

O fundamentalismo religioso brasileiro construiu uma forte agenda conectada com as proposições do conservadorismo internacional, como o enfrentamento do que denominam “ideologia de gênero” como uma das principais pautas. O ataque sistemático ao estado laico, a “satanização” das posições ideológicas de esquerda e a tentativa de limitar a compreensão de família são suas principais proposições. Infelizmente, uma das táticas utilizadas tem sido a difusão de informações e dados falsos. Uma das maiores vítimas deste processo é o Deputado Federal Jean Wyllys do PSOL/RJ, que sofre diversos ataques caluniosos nas redes sociais.

No conservadorismo brasileiro há também uma forte integração do segmento religioso com os representantes do fundamentalismo penal. A conhecida “bancada da bala” conta com representações da extrema-direita da segurança pública e apresenta proposições que potencializam a hipermilitarização das polícias, relativizam as denúncias de violações de direitos, tentam expandir o armamento na população, defendem uma reforma drástica no Código Penal para aumentar punições e, por fim, escolheram como sua principal agenda a redução da idade penal.

O forte fisiologismo presente no modelo político brasileiro também contribui para o fortalecimento desses setores. Mesmo no atual contexto de impeachmeant, ainda é comum em diversos âmbitos a aliança dos partidos de centro-esquerda com os principais partidos representantes do fundamentalismo religioso ou penal. Na mesma coligação é possível eleger um representante defensor de direitos humanos ou um pastor fundamentalista. É bom lembrar que até 2010, o vice-presidente da República era José Alencar, do PR (um partido fortemente vinculado aos interesses políticos da Igreja Universal). E em 2013, o PT fez um acordo na divisão das Comissões Temáticas da Câmara dos Deputados que deu ao Pastor Marco Feliciano, a Presidência da Comissão de Direitos Humanos da casa.

Portanto, não é possível esquecer a responsabilidade do modelo de coalizão e governabilidade liderado por Lula e o PT na consolidação da extrema-direita. Esses segmentos parasitaram os primeiros oito anos do mandato do governo federal, participando da base de apoio e compondo o Ministério em cargos estratégicos. A alianças estabelecidas com quase todos os partidos tradicionais da política brasileira contribuíram significativamente para a rearticulação do campo político de extrema-direita no Brasil.

Löwi aponta, contudo, que diferente do caso Europeu, a extrema-direita brasileira tem uma ligação menor com as ideologias fascistas clássicas e que a existência do neofascismo ocorre de forma marginal. Para ele dois pontos são mais significativos na extrema-direita brasileira: a apropriação da luta anticorrupção com forte apelo de massas e o saudosismo comemorativo com o militarismo e a ditadura. O retorno das disputas de narrativa sobre a ditadura militar e o silencio conivente de antigos perseguidos e torturados políticos é ensurdecedor.

Com isso, a reorganização conservadora no Brasil passa pela difusa luta anticorrupção como bandeira geral, mas esconde atrás disso uma ideologia repressiva, o culto à violência policial, a criminalização dos movimentos sociais (lei antiterrorismo, lei geral da copa), combate aos projetos de gênero, enfrentamento aos direitos LGBTs, a tentativa de desconstrução da existência de racismo e forte ataque as referências históricas da esquerda.

Esta reflexão deve contribuir para os desafios de reconstrução da esquerda brasileira. A necessidade de superação do projeto petista e a construção de uma nova alternativa progressista no Brasil passa necessariamente pela inauguração de uma nova cultura política de diálogo com a sociedade. Vladmir Safatle, no artigo publicado na Revista Movimento em 2016, afirma que a hipervalorização do processo afirmativo da extrema-direita e do conservadorismo, pode paralisar a capacidade de avaliação das esquerdas bem como a projeção de alternativas futuras. Para ele, este seria um caminho ruim de incentivo a mobilização.

Para Safatle, a ideia de que estaríamos sendo tomados por uma onda conservadora avassaladora — e de que nossa única tarefa seria enfrentá-la — esconde um pressuposto fundamental: no lugar onde a direita cresce e ganha força, há uma esquerda que fracassou. Dessa forma, é um erro no processo de reorganização da esquerda socialista brasileira mobilizar as pessoas pelo medo. Nosso desafio é enfrentar esse cenário difícil com a construção de um novo projeto político de esquerda que seja crítico, autocrítico e absolutamente coligado com as pessoas.


Fábio Felix

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