o barulho
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Dec 6, 2018 · 6 min read

Avaliação d’o Barulho sobre a participação do PSOL/DF no processo eleitoral de 2018 [1]

1. A vitória do PSOL/DF nas eleições de 2018 deve ser celebrada: se, por um lado, nas presidenciais, venceu Jair Bolsonaro, que capitalizou parte importante de sua notoriedade a partir do discurso homofóbico, aqui, nossos esforços levaram Fábio Felix, gay e orgulhoso de sua identidade, à Câmara Legislativa. É uma grande realização política num cenário bastante desfavorável, e em que há potência: a de construirmos novas possibilidades de reações ao ódio e ao autoritarismo, e de fortalecer as linhas de defesa da democracia e das lutas por direitos. Contribuir para que essa potência se transforme em realidade é tarefa de toda a nossa militância, sem a qual a vitória não teria sido alcançada.

2. O PSOL obteve um resultado favorável no plano nacional, mas há rumos a acertar, como opinamos em nossa nota sobre conjuntura e eleições 2018 (nota própria). Guilherme Boulos e Sônia Guajajara no DF, obtiveram 13.177 votos (0,82% dos válidos) que, comparados aos 31.307 votos (1,99% dos válidos) obtidos na última eleição no DF, mostram a necessidade de o partido, nas instâncias nacionais, prosseguir no debate sobre rumos a trilhar.

Ascensão nacional do autoritarismo, abertura do partido e construção de diálogos amplos

3. Nosso grupo tinha a percepção que, nessas eleições, a extrema direita estaria muito fortalecida, e que isso imporia a necessidade de os setores da esquerda e do campo democrático dialogarem de forma mais ampla. Essa percepção, além de ter orientado nossos esforços em prol do acolhimento e da aposta na pré-candidatura de recém-filiados, motivou nossos esforços para a criação de uma Rede Antifascista, ainda em janeiro de 2018. Por meio dessa rede, integrantes do Diretório regional estabeleceram diálogos com representantes do PV, PDT, PC do B, PCB, PSTU, PPL, Rede e PT, a fim de isolar propostas autoritárias que surgiam na cidade. Setores do partido entendiam, naquela época, que esse esforço seria desnecessário, ou que teria a intenção de sinalizar futuras coligações inadequadas. O Partido, corretamente, viria a firmar coligação apenas com o PCB, mas o estabelecimento de diálogos com setores do campo democrático é fundamental para a construção da resistência, o que mostra o acerto da avaliação do grupo e da decisão do partido de estabelecer essas pontes.

4. No todo, a esquerda foi derrotada: a Presidência da República nas mãos da extrema direita faz com que a correlação de forças esteja, sem dúvida, desfavorável para as esquerdas e a luta social. Analisadas as eleições proporcionais para a Câmara Federal, contudo, observa-se que partidos como PSDB, MDB, e do centrão sofreram importantes derrotas também. Por outro lado, o PSL de Bolsonaro passou da insignificância a mais de cinquenta parlamentares, e outros partidos da direita, como o DEM, cresceram. À esquerda, PT e PSB perderam parlamentares, enquanto PSOL e PDT, ganharam.[1] A taxa de renovação da Câmara superou as expectativas e alcançou 52%, o que significa que 267 dos 513 deputados federais estarão no primeiro mandato.[2] Na CLDF, a taxa é de mais de 60%: dos 24 distritais, apenas 8 se reelegeram. Houve, assim, rejeição do eleitorado a figuras identificadas com a política tradicional. Aliás, a campanha do governador eleito Ibaneis Rocha também se utilizou desse discurso, como outros governadores eleitos, a exemplo de Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, e João Dória, em São Paulo. Venceu quem apostou na renovação.

Construção das chapas, distribuição de recursos e operacionalização da campanha

5. . Nossa aposta na presidência do PSOL foi criar condições para o partido chegar fortalecido e unido para as eleições. Ainda em período pré-congressual, diversas pré-candidaturas ao GDF se apresentavam publicamente e o partido debatia a possibilidade de um processo de prévias, internas ou abertas. Apesar dos esforços d’O Barulho por um processo de prévias, o Congresso Distrital, realizado em 22/10/2017, determinou a realização de Conferência Eleitoral, por colegiado com a mesma proporcionalidade do Diretório Distrital então eleito, a ser realizada até o final de fevereiro, para escolher a candidatura ao GDF. Em 18/12/2017, a Conferência Eleitoral do PSOL reuniu 76 delegados e delegadas, para a qual foram apresentadas quatro pré-candidaturas ao Governo do Distrito Federal, e eleita a pré-candidatura da Prof.ª Fátima Sousa, que recebeu o convite para construir o programa de governo. Além disso, a Conferência aprovou resoluções de fortalecer diversas candidaturas proporcionais, em diversos territórios e com pautas distintas.

6. A decisão da Conferência Eleitoral de construir uma chapa proporcional forte, plural e presente em vários territórios foi levada a consequência nas decisões seguintes das instâncias partidárias, em reuniões públicas e abertas. A Resolução de Distribuição do FEFC, aprovada em 24/06/2018 em Diretório, buscou priorizar candidaturas identificadas com grupos historicamente excluídos, além de candidaturas localizadas fora do Plano Piloto, de que são exemplo Maninha, Anjuli Tostes, Talita Victor, Max Maciel, Ilka Theodoro, Fábio Felix, Junior Xukuru e Juliana de Freitas. A decisão de investir recursos é sempre uma aposta política que envolve riscos; de todo modo, observado o quadro* de valor gasto na campanha por voto obtido, é possível afirmar que as apostas do Diretório, de um modo geral, se confirmaram. De se destacar, também, a inédita decisão de garantir de serviços de advogado, contador — e várias oficinas de orientação oferecidas — e material de campanha básico para todas as candidaturas. Os programas de TV poderiam ter sido produzidos em formatos mais originais. O critério utilizado para priorização das candidaturas proporcionais na propaganda na TV e rádio reproduziu o critério de distribuição do FEFC, buscando ainda reunir as candidaturas em roteiros de pautas coerentes — “seja PSOL”; “direito à cidade, centro à periferia”; “Psol é de todos e todas”. Mesmo assim, houve disposição de alterar o planejamento inicial, para incluir a candidatura do Mandato Coletivo, dado seu crescimento, no programa “direito à cidade”, ainda que para prejuízo do roteiro.

7. Para executar as campanhas ao Governo e dar suporte às candidaturas proporcionais menos estruturadas, a direção escolheu coordenações de campanha majoritária e proporcional. Ficou nítido, contudo, que havia acúmulo de atribuições nos militantes que as compunham, uma vez que eles se dedicavam, também, a outras campanhas do partido, o que prejudicou sobretudo a coordenação de campanha proporcional. A coordenação de campanha majoritária conseguiu manter alguma continuidade, embora alguns de seus integrantes também tenham tido dificuldade de acompanhar os trabalhos até o final. É necessário que o partido defina formas melhores de composição de distribuição de responsabilidades no próximo período eleitoral.

Avaliação e encaminhamentos

8. Em qualquer cenário observado, o PSOL/DF obteve uma vitória eleitoral. Além de termos eleito nosso primeiro representante para a CLDF, nossa chapa feminista ao Governo, formada pela Prof.ª Fátima Sousa e por Keka Bagno, que obtiveram 65.648 votos (4,35% dos votos válidos), evidenciam o saldo positivo desses esforços. Também, a candidatura de Marivaldo Pereira ao Senado, que obteve 83.112 votos (3,15% dos válidos), e nossa votação para a Câmara Federal — que atingiu 2.5% dos votos válidos — mostram que acertamos mais que erramos. Isso é resultado da percepção de que nossos inimigos estão lá fora.

9. É preciso dar passos seguintes. A militância deve se debruçar sobre os resultados eleitorais e entender suas razões de ser. O descompasso entre as votações para presidente, para governador e senador precisa ser debatido e compreendido, com a finalidade de que, futuramente, todas as candidaturas se potencializem. Um estudo aprofundado sobre os dados merece ser realizado, para compreender esse descompasso nos territórios, a fim de orientar nossa inserção nas cidades.

10. Também, é preciso reconhecer que a forma partido tem sido colocada em questão. Demandas por mais transparência e por mais instâncias de participação das filiadas e dos filiados são recorrentes, e a repulsa popular aos partidos é um problema que não pode ser ignorado. Formas de organização e mobilização, tomadas de decisão e estratégias de comunicação são alguns dos temas que a militância partidária deve debater e refletir. Esse necessário debate deve ter a finalidade exclusiva de viabilizar o crescimento do partido, e não pode permitir que regressemos a períodos em que divergências sobre formas organizativas impediam a construção comum. O ascenso conservador e autoritário e a enorme responsabilidade de nossa vitória exigem que nosso foco esteja na organização das trincheiras da resistência aos ataques aos direitos da classe trabalhadora e às liberdades individuais que o próximo período reserva.

[1]
https://www.nexojornal.com.br/grafico/2018/10/08/Elei%C3%A7%C3%B5es-2018-como-fica-a-composi%C3%A7%C3%A3o-da-C%C3%A2mara-em-11-gr%C3%A1ficos

[2]
http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-10/taxa-de-renovacao-da-camara-dos-deputados-foi-maior-em-20-anos


[1]
Publicação impressa como contribuição à plenária de balanço eleitoral do Diretório Regional do PSOL/DF, em 06/12/2018. Publicada também em médium.com/obarulho.

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