nem sempre as coisas vêm mastigadas como queremos

ele encosta o veículo no posto e deixa ligado, vai só comprar cigarros rapidinho.

quando ameaça voltar, repara em três homens, meio-próximos, meio-separados. um velho, um igual ao velho só que novo, e um baixotinho. ele acha suspeito mas prefere não julgar cedo (odeia ser preconceituoso) e segue normalmente para o carro. se aproxima mais e estica a mão para alcançar a maçaneta, e é aí que um deles, o mais velho, traça obstinado uma linha reta em direção a ele. os outros dois cercam, ligeiros.

ele entra o mais rápido que pode e tenta sair com velocidade, não consegue, a primeira não engata, engasga, o motor morre. ansioso demais para acertar o tempo da embreagem. tenta abrir a porta com força, na esperança de afastar o velho com a pancada, mas o esforço é inútil e o (agora inevitável) inimigo segue estático, impassível. gentilmente, o senhor segura a entrada do motorista, enquanto os outros dois entram nas portas traseiras. até ali, ninguém diria que um carro com acessibilidade aprimorada poderia ser um problema.

o baixotinho, sentado logo atrás, encosta algo no pescoço dele, que já sente a cutucada. solta um ‘ai’ baixinho e entende que resistir talvez não seja uma boa. enquanto isso, o mais velho dá a volta e senta no banco do passageiro e começa o diálogo.

– oi.

– o que vocês querem?

– calma: oi.

– eu não tenho nada.

– amigo, se acalme.

ele tenta se acalmar.

– por favor. eu não tenho nada.

– amigo, cê não mora três quadras aqui pra cima?

mora. hesita mas confirma.

– moro sim, como você sabe?

– cê não fez uma cirurgia recente nesse joelho direito aí? ligamento cruzado, né?

de fato. era ligamento cruzado. faz que sim com a cabeça.

– teu filho mais novo não se chama Enzo e tem um lhasa apso chamado Jake?

chama. tem. ele se assusta com a quantidade de informações e gela.

– não foi você que fechou um negócio bem legal com uma certa empresa de computadores em Dubai porque transou com o representante comercial dela?

aí ele estremece e não consegue dizer mais nada.

– então, acho que é você mesmo que a gente tá procurando. tô sabendo bastante, né? isso aqui não é assalto não, amigo. relaxa aí, dá a partida no carro e pega a estrada em direção a Ponta Grossa. logo você entende.

ele faz como o velho manda e, ao arrancar, repara de canto de olho num movimento curioso, quando aquele que é igual ao velho só que novo dá um apertão carinhoso no ombro esquerdo do senhor. com certeza são parentes, pensa, enquanto toca para os Campos Gerais.

infelizmente, passam-se meses até que ele entenda.

por Rômulo Candal

fotografia: r.penrose via Compfight cc