Mídia independente: vozes além do monopólio midiático

A existência de veículos independentes dos interesses dos governos e conglomerados empresariais não é nova, mas a internet torna mais difícil calar as vozes que se opõem à hegemonia da grande mídia.

download

Mesmo com a censura prévia e repressão aos jornalistas — que resultou, por exemplo, na morte de Vladimir Herzog e intervenção policial em redações de diversos veículos, existiam veículos alternativos que enfrentavam essa política e, apesar do alcance limitado, tentavam traduzir ao leitor a realidade que não estava disponível na Rede Globo — a maior apoiadora do regime.

Seja através do escárnio, de panfletagens em locais de trabalho ou jornais de baixa tiragem, grupos dos mais diversos aceitavam o risco de propagar suas ideias e posições políticas contrárias ao que vigorava — lembrando que até isso era ilegal. A Dra. Cicilia Peruzzo, doutora em comunicação pela Universidade de São Paulo e PhD em Ciências Sociais Aplicadas, classifica essas iniciativas como “comunicação alternativa”, envolvendo não só os veículos mantidos por jornalistas mas iniciativas populares e comunitárias (veja leituras recomendadas ao final).

Destacam-se nesta época o Pasquim e o PIF PAF, que fazia a crítica nas entrelinhas de pautas bem humoradas, além de boletins informativos produzidos por grupos políticos e distribuídos na clandestinidade.

Se hoje a Constituição de 1988 garante a Liberdade de Imprensa e o Estado não exerce — pelo menos formalmente — a censura, o grande entrave para a liberdade de imprensa é a concentração dos veículos em poucos grupos familiares e empresariais que priorizam o lucro. Em 2015, um órgão da ONU divulgou que 90% de toda receita publicitária da mídia está concentrada na mão de seis famílias. Isso mesmo: seis famílias controlam quais, como e quando a notícia irá chegar (ou não) até você.

O País dos 30 Berlusconis

Policia agride câmeraman em serviço
Flagrante de policial agredindo equipe de reportagem com spray de pimenta. (Crédito: Rodrigo Paiva/ Divulgação)

Em 2013 a ONG Repórteres sem Fronteiras publicou um relatório sobre a situação da mídia no Brasil, O País dos 30 Berlusconis, em alusão ao magnata da comunicação italiano Silvio Berlusconi. No relatório, a organização compara a situação atual ao coronelismo, que à partir da mídia mantém o controle similar ao que fazia outrora na base da bala, qualificando essa concentração como um oligopólio. Por esse e diversos motivos, o país qualificou-se em 2013 como 108o colocado no ranking mundial de liberdade de imprensa.

A situação se deteriorou entre 2013 e 2016. A organização diz em comunicado recente que não houve alteração na concentração dos grupos midiáticos e acrescenta a desconfiança do público e claro enviesamento na cobertura da crise política. Ressalta também que o Brasil é o terceiro país com maior número de mortalidade no mundo, além de ações da polícia militar focadas na repressão violenta de jornalistas em diversas ocasiões.

» Leia aqui comunicado expedido pela organização Repórteres sem Fronteiras sobre o assunto.

A voz independente ressurge

Nos últimos 16 anos a evolução tecnológica ocorreu com uma rapidez nunca vista, em especial nas formas de produção e difusão da informação. Enquanto na internet de 1996 poucos portais jornalísticos ligados aos mesmos grupos que mantém o monopólio da mídia eram as únicas alternativas para acesso à informação em tempo real — e os poucos conteúdos de autoria do público se restringiam aos pequenos grupos que dominavam HTML e, ainda assim, não era fácil produzir conteúdo dinâmico que viabilizaria um blog ou um portal de notícias, por exemplo, o cenário hoje mudou e muito.

Protesto

O público deixou de ser mero consumidor de conteúdo e passou a produzi-lo à partir do advento dos blogs, seguido pelo Youtube e principalmente pelas redes sociais. Se antes era necessário ter conhecimento de programação para colocar um site no ar, hoje é muito simples realizar a instalação do Wordpress em pouco menos de 15 minutos e começar a blogar. Acompanhando essa sede do público de não ser mero espectador da notícias, veículos da grande mídia dão espaço para interação com o leitor através dos comentários.

O público de hoje não se satisfaz com mera relação de emissor e receptor, e não quer simplesmente receber as informações e guardá-la para si. A parede entre veículo e público está cada vez mais fina e, ao meu ver, deve evoluir para um cenário semelhante ao teatro que aboliu a quarta parede.

Novas mas influentes

Infelizmente o alcance da mídia independente é bem menor que o da grande mídia, e mesmo com buscas criteriosas no Google elas não são fáceis de encontrar. Ainda assim, existem casos que deixam evidente sua influência sobre a mídia tradicional: em dezembro do ano passado, um segurança do metrô de São Paulo que ficou conhecido após diversos memes em redes sociais agrediu um estudante que voltava de um protesto contra a reorganização escolar. A notícia foi dada em diversos veículos grandes como o G1 (da Globo), R7 (da Record), UOL, Último Segundo, etc.

Quem deu o furo e flagrou a situação, entretanto, não foi a mídia tradicional: foi o Jornalistas Livres, um coletivo de jornalistas sem fins lucrativos que afirma em seu manifesto contrapor “à falsa unidade de pensamento e ação do jornalismo praticado pela mídia tradicional centralizada e centralizadora”. » Leia a matéria original publicada por eles.

Já no início de agosto a Folha de S. Paulo furou com a acusação da jornalista Patrícia Lélis contra o deputado Marcos Feliciano, e divulgou uma gravação de uma conversa entre ela e o chefe de gabinete do parlamentar com relatos do que teria acontecido. Ocorre que a Folha de S.Paulo não divulgou a gravação na íntegra, e cortou partes que agravariam ainda mais o caso. Quem revelou em primeira mão o que foi omitido por todos os veículos da grande mídia foi a Agência Democratize, que publicou os 55 minutos originais (a Folha cortou em 28 minutos) e revelou acusações ainda mais contundentes da jovem contra o pastor. » Veja o furo da Democratize

Mapa da Agência Pública

A Agência Pública, outro veículo sem fins lucrativos voltado ao jornalismo investigativo, criou um mapa com links e descrições de diversos veículos de mídia independente de diversas linhas editoriais, seja voltado para questões específicas de minorias, regionais, políticas ou nacionais. Para quem só conhece a mídia tradicional e quer saber opiniões distintas, provavelmente mais próximas da realidade, esse levantamento é de grande utilidade. O mapa também conta com indicações do público.

» Acesse o Mapa do Jornalismo Independente na Agência Pública

Conhecer novos pontos de vista não implica em concordar com eles, mas com certeza é uma ferramenta de grande importância para formação de opinião.

STOP_LOGO

Para se aprofundar

Brasil: O país dos 30 Berlusconis

Brasil: O país dos 30 Berlusconis

Aborda os importantes desequilíbrios e obstáculos que caracterizam o horizonte mediático do gigante sul-americano. O documento se baseia em uma investigação realizada em três etapas — Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília — no decorrer do mês de novembro de 2012.

Aproximações entre a comunicação popular e comunitária e a imprensa alternativa no Brasil na era do ciberespaço

Aproximações entre a comunicação popular e comunitária e a imprensa alternativa no Brasil na era do ciberespaço

Este trabalho discute a comunicação alternativa a partir de sua manifestação no contexto do regime militar no Brasil. Os objetivos são caracterizar a comunicação alternativa nas suas interfaces com a comunicação popular e comunitária e identificar algumas das novas formas de jornalismo alternativo praticadas na atualidade, com base em pesquisa bibliográfica. Conclui-se que novas práticas atualizam as formas de comunicação dos segmentos subalternos da sociedade, aprimoram as proximidades entre a comunicação popular e a comunitária, distinguindo-as da maior parte da mídia alternativa por seu caráter autônomo.


Originally published at Observatório Crítico.