Patrick Souza
Nov 9, 2017 · 4 min read

Notícias sobre crimes não são nenhuma novidade no Brasil, país com um dos maiores índices de violência do mundo. E é claro, seus títulos precisam cativar os leitores de qualquer forma, já que será a única parte da matéria que muitos lerão. Mas de vez em quando, o uso de certos termos pode se tornar controverso, recebendo críticas de leitores nas redes sociais ou nas (tóxicas) caixas de comentários.

“Suspeito” e “bandido” são um bom exemplo. Em praticamente qualquer matéria em que o primeiro termo é utilizado no lugar do segundo, vemos leitores furiosos acusando o jornal de “partidário”, “esquerdista”, “mentiroso”, etc. Mas tais críticas possuem de fato algum fundamento? E se sim, por que os jornais não passam a adotar o termo “bandido” de vez?

O comentário acima, pertencente a mesma matéria da imagem anterior, ilustra perfeitamente essa situação. Acontece que o uso do termo está associado a uma premissa ética: Todos são inocentes até que se prove o contrário. Enquanto a pessoa não receber um julgamento e uma sentença, é um consenso utilizar o termo “suspeito”, mais ameno, mesmo que ela tenha sido pega em flagrante (como no caso da notícia). O jornalista Cláudio Lessa, ex-Diretor da Secretaria de Comunicação, afirma, porém, que o termo foi adotado do jornalismo norte-americano, no qual, para evitar questões judiciais, os jornalistas optam por “suspect”.

Origens a parte, outro motivo para não utilizar termos como “bandido” ou “ladrão” é a forte carga semântica negativa que eles carregam, capaz de ferir a honra e a imagem social do indivíduo. Supondo que, após a veiculação de uma matéria na qual o indivíduo seja chamado de “bandido”, seja constatado que o mesmo seja inocente, o dano provavelmente já estará feito, visto o poder que o jornalista carrega. A pessoa retratada seria marcada como criminosa pela sociedade pelo resto da vida. O caso da Escola Base é, com certeza, o primeiro que nos vem à cabeça.

O termo “acusado”, que também possui certo impacto negativo, já se faz mais presente, mesmo que de forma errônea em algumas ocasiões. Em especial, como um sinônimo de “suspeito”. A professora de Legislação em Comunicação Daniela Pereira, explica que “um acusado possui provas contra ele, porém ainda não foi condenado pela justiça”, enquanto o suspeito “é apenas um apontado pela polícia ou testemunhas”. Este erro é mais comum e até mesmo compreensível, já que é natural chamar uma pessoa que sofre uma acusação de acusado.

Porém, em alguns casos, principalmente quando estão envolvidas questões como preconceito e segregação, o uso de termos é subvertido de forma a expor o indivíduo retratado de forma negativa. O termo “bandido” é, ocasionalmente, vezes utilizado para se referir a indivíduos negros ou de baixa renda, propagando o retrógrado pensamento de que essas pessoas sempre serão criminosas. Esses casos se fazem mais presentes em jornais menores ou com teor sensacionalista, já que o intuito destes é muitas vezes “agradar o público”, mesmo que ferindo diversos elementos éticos no caminho.

Paralelamente, pessoas com maior renda recebem um certo privilégio dentro da mídia. Durante o caso Thor Batista, no qual o filho do milionário atropelou e matou um ciclista durante a madrugada, na qual dirigia em alta velocidade. Nenhum dos termos foi atribuído a Thor, e o incidente foi taxado sempre como “homicídio culposo”. Até o momento em que foi absolvido, foram poucos (se não nenhum) veículos que decidiram lhe dar um tratamento mais severo.

Em suma, os jornais que decidem manter uma postura mais “neutra” optam por termos mais suaves, enquanto aqueles que decidem ser mais agressivos, ou mesmo agradar as grandes massas de leitores mais conservadores, utilizam dos termos mais agressivos. Podemos observar que o termo a ser utilizado é, muitas vezes, escolhido de acordo com a conveniência do veículo ou do próprio jornalista. E caso um dos dois falhe com a ética, o conteúdo final (e os leitores, por consequência) continuarão sendo os principais afetados.

Observatório de Mídia

Atividade laboratorial coordenada pelo professor Pedro Santoro Zambon e realizada pelos alunos de Deontologia do Jornalismo do segundo ano da Unesp

Patrick Souza

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Observatório de Mídia

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