Por que o Marajó?

Por Micaela Valentim

Poderia te convencer ao dizer que o Marajó é a maior Ilha Fluviomarítima do mundo, localizada no estuário do Rio Amazonas, no Estado do Pará. É também a maior Unidade de Conservação na costa norte do Brasil. A ilha é berçário estuarino de diversas espécies e que, além da floresta amazônica, o Marajó sustenta regiões com predomínio de savana. Poderia também fazer o caminho oposto, ao invés de te encantar com o Marajó, posso te dizer que dos 16 municípios que fazem parte da Ilha, 8 deles estão entre os 50 piores índices de desenvolvimento humano (IDH) do Brasil, inclusive o pior (Melgaço, PA).

De forma assertiva, mais da metade da população do Marajó não possui abastecimento de água e esgotamento sanitário adequados*. Que, em cinco dos municípios da Ilha, a porcentagem da população que não possui esses serviços passa de 70%. E quem sabe acrescentar que mais da metade da população vive com rendimento mensal de até meio salário mínimo¹.

Entretanto, não é pela visão caricatural ou fatalista do Marajó que o Observatório existe. O Observatório surge como um processo de amadurecimento do pensar a Amazônia, em um entendimento de que é necessário superar a visão de que a Amazônia é um El-dourado desconhecido, inexplorado e inabitado, fonte inesgotável de recursos e de demandas assistencialistas.

município de Portel, Marajó | Foto: Lute Sem Fronteiras

Em 1985, Bertha Becker² alcunhou à Amazônia o termo “floresta urbanizada”, bem como defendeu que essa região não é um vazio demográfico. A verdade é que na região da Amazônia, atualmente, vivem mais de 25 milhões de habitantes, dos quais mais de 500 mil vivem no arquipélago do Marajó.

E diferente do misticismo das lendas amazônicas, como o Curupira, Matinta Pereira, Boiúna, Mapinguari, o real misticismo é acreditar que, ao chegar no Marajó, você vai encontrar um território uno. As cidades amazônicas, bem como as marajoaras, se constituem em território híbridos, onde o urbano e rural convivem juntos e em conflito. Onde a divisão cidade-campo não é distinta. Cidades que cresceram diante do interesse do capital agropecuário e dos “grandes projetos” de expansão do Estado mas que apresentam resistência (não intencional muitas vezes) com suas tradições ribeirinhas e cultura marajoara.

Contudo, além de híbridas as cidades marajoaras são diversas entre si. Algumas apresentam a organização estrada-terra firme-subsolo, enquanto outras se organizam na lógica rio-várzea-floresta, essa últimas sendo regidas predominantemente pelo ambiente fluvial e as flutuações das marés.

Indo mais além, as cidades ribeirinhas que passaram por um processo de urbanização tradicional³ — com pouca repercussão da expansão das frentes econômicas, trata-se de cidades que apresentam uma configuração com pouca alteração do padrão tradicional à beira do rio e com forte ligação a um centro regional — não podem ser definidas pelos modelos fechados de identidade ou por visões dicotômicas entre tradicional-moderno, antigo-novo, rio-várzea-floresta versus estrada-terra-firme-subsolo. Elas têm de ser pensadas a partir da diversidade, levando em consideração a complexidade do ordenamento espacial na Amazônia.4

município de Portel, Marajó | Foto: Lute Sem Fronteiras

E aqui vale um destaque para os rios amazônicos e seu papel para as cidades ribeirinhas. Diferentemente das metrópoles amazônicas, a exemplo de Belém, que se urbanizou de costa para os rios e intensificou o processo de canalização desses espaços; para as cidades ribeirinhas, o rio participa do padrão de organização espacial da região, bem como é o principal intermédio à penetração de pessoas, mercadorias e serviços. 4,5

Os rios marcam a história e as dinâmicas espaciais dessas cidades e da Amazônia como um todo. Para as cidades ribeirinhas, a hidrografia interliga a cidade local, que não vive isolada e que, por mais que seja pequena, vivencia múltiplas relações com as comunidades ou moradores próximos a ela.4

Para tanto, o Marajó do Observatório é um Marajó de possibilidades, que em meio da emergência de entregas mundiais para o ano 2030, escolhe propor a partir das cidades, populações e povos do Marajó soluções para problemáticas da amazônia. O observatório visa ser ponte entre os dados e indicadores disponíveis sobre os municípios do Marajó e as lideranças desses territórios.

Tendo como objetivo, alongo prazo, aumentar o espaço cívico da Ilha do Marajó e seus 16 municípios, isto é, mudar a dinâmica sociopolítica da região, onde as populações têm poucos instrumentos de ação política e são deixadas de fora dos espaços formais de poder.

O Marajó precisa estar presente no debate local, regional, nacional e global. E para ser possível, te deixo um convite. Quando você estiver debatendo/lendo sobre cidades, soluções verdes, educação cidadã, propagação do coronavírus, saneamento básico, mobilidade urbana, pergunte-se: e como é no Marajó?

Referências
¹ IBGE, 2010
*Adequado — Domicílios com escoadouros ligados à rede-geral ou fossa séptica, servidos de água proveniente de rede geral de abastecimento e com destino do lixo coletado diretamente ou indiretamente pelos serviços de limpeza. Fonte: Tipos de saneamento, IBGE/2010, Sociais Municipais.
²BECKER, B. K. Fronteira e Urbanização Repensadas. Revista Brasileira de Geografia, 51 (3–4), 1985, p. 357- 371.
³TRINDADE JÚNIOR. S. C; TAVARES, M. G. da C. 2008. Cidades ribeirinhas na Amazônia: mudanças e permanências. Belém: EDUFPA.
4Mayer Lomba, R.; Baliero Nobre-Júnior, B. 2013. A relação rural-urbano a partir das cidades ribeirinhas: o papel do comércio popular (feiras) na cidade de Afuá (PA). https://journals.openedition.org/confins/8405
5Costa, et al. 2016. CRESCIMENTO URBANO E OCUPAÇÃO DE VÁRZEA EM PEQUENAS CIDADES DA AMAZÔNIA: UMA DISCUSSÃO PREMENTE. https://periodicos.ufsm.br/geografia/article/view/19094

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Um observatório de dados e indicadores de políticas públicas do Marajó e seus 16 municípios. https://www.observatoriodomarajo.org/

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